14 livros de cabeceira

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Quais são os seus dez pratos preferidos? E as melhores viagens que você fez? Os melhores botecos? Os mais badalados restaurantes? As dez melhores cidades para morar? As cinco canções dos Beatles que não saem da sua playlist? Todo dia, somos bombardeados com correntes que circulam pela internet. Amigos nos marcam, pedindo para fazer uma lista e convidar outros amigos.

Fui marcado dezenas de vezes, em várias correntes. Uma delas, fala dos autores que mais influenciaram a pessoa, ou seja, fizeram sua cabeça. Não participo de correntes, até porque são muitas. Mas fiquei com esse tema na memória, fui enrolando, mas finalmente aqui vai a minha resposta, em forma de post no blog.

Selecionei livros ou autores que me foram marcantes em diversos momentos da vida. A seleção é aleatória e há pouca conexão entre eles. Portanto, fiquem à vontade para comentar e complementar a lista. Se enxergarem incoerências, é porque elas existem, mesmo. Ou seja. Não se trata de uma bibliografia para explicar algo. É apenas uma lista de textos marcantes.

Finalmente, pensem o quanto um autor puxa o outro e outro e outros. Foi por García Márquez que cheguei a dezenas de autores latino-americanos. Via Cortázar, cheguei em argentinos contemporâneos. Graciliano me levou a Raquel de Queiroz. Lilia Schwarcz abriu as portas para muitos historiadores. E assim vão se fazendo as sinapses literárias.

Separei livros em três segmentos. Ciências sociais, literatura estrangeira e literatura brasileira. E usei o Lula PPT Generator para a ilustração acima. Vamos lá?

CIÊNCIAS SOCIAIS

Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss

2016-09-12-11-58-14Engana-se quem pensa que o livro do antropólogo francês fala apenas dos índios brasileiros. É uma obra seminal para entender o Brasil. As impressões de Lévi-Strauss sobre São Paulo, cidade onde viveu por alguns anos, quando fez parte da missão que fundou a USP são incrivelmente atuais. Li trechos de Tristes Trópicos para aulas da faculdade. E acabei por ler inteiro, na impecável edição da Companhia das Letras, com fotos feitas pelo autor durante suas viagens ao país. É um livro que compõe com Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, um trio de leituras essenciais para quem quer compreender o Brasil. Vale a pena ter na biblioteca.

O futuro da democracia, de Norberto Bobbio

2016-09-04-21-57-59Conheci Norberto Bobbio nas conversas com Plinio de Arruda Sampaio, lá pelos tempos da campanha para a Constituinte, em 1986. O pensador italiano logo entrou na minha lista de autores favoritos. Herói da resistência contra o fascismo, senador vitalício na Itália e, principalmente, um pensador do jogo democrático e do socialismo com democracia. É um autor atualíssimo, que deixou uma obra influenciadora de muita gente boa. Mesmo que livros seus tenham aparecido nas mãos de Fernando Collor (que provavelmente não os leu), Bobbio é referência para pensar o complexo rito da democracia ocidental. Edições em português saíram pela Paz e Terra e são fáceis de achar em sebos e (boas) livrarias.

Obras escolhidas, de Walter Benjamin

2016-09-04-21-58-11Leitura de faculdade. Quer dizer: de PUC-SP dos anos 1980. E isso explica muita coisa. Essencial para ajudar a formar entendimento estético, analisar a produção cultural e compreender a arte moderna. Em 2014, com Renata, tive fortes momento de emoção ao conhecer o lugar na fronteira entre França e Espanha onde Benjamin, fugindo do nazismo e indo de  encontro à resistência espanhola, acabou por suicidar-se em Portbou, cidade que aparece ao longe na foto abaixo. Minha edição é da Brasiliense, que circula por aí nos bons sebos e na Estante Virtual.

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História da vida privada, org. por Fernando Novais

2016-09-28-10-46-19Inspirado em coleção francesa semelhante, Fernando Novais reuniu o melhor da produção historiográfica brasileira para publicar cinco volumes de artigos essenciais para entender a evolução do conceito de vida privada, e a relação com a coisa pública, neste país tão confuso. Entre as autoras dos ensaios em História da vida privada no Brasil, Lilia Moritz Schwarcz aparece com destaque para mim. Foi acompanhando textos dela que comecei a perceber que dá para escrever história sem chatice e com textos elegantes, envolventes e bem humorados. A coleção é da Companhia das Letras e é pura ostentação em uma biblioteca.

LITERATURA ESTRANGEIRA

Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez

2016-09-04-21-55-16Lido, relido, sempre à cabeceira e, agora, na lista dos livros que quero reler mais uma vez, no original em espanhol. A saga da família Buendía não passa incólume por quem se aventura no romance do colombiano. Macondo vira um lugar mítico, a narrativa, marco da literatura do realismo fantástico latino-americano, te leva a devorar a obra do escritor e buscar autores influenciados por ele. Se ainda não leu Cem anos de solidão, corra para ter seu exemplar, publicado no Brasil pela Editora Record. E depois navegue pela obra de Gabo, sem medo.

Levantado do chão, de José Saramago

2016-09-04-21-55-39Comecei a ler Saramago por Jangada de pedra. O arrebatamento me levou rapidamente ao segundo romance. E Levantado do chão só fez aumentar o interesse pelo autor português. Publicado em 1980, o livro é considerado uma das obras primas que justificaram seu Nobel, o primeiro, e até agora único dado a um escritor de língua portuguesa. Nos campos do Alentejo, Saramago narra as desventuras da família Mau-Tempo. Pequenos agricultores, que ao longo de décadas são vítimas de um sistema de posse de terra e de partilha que produz alimentos para poucos e injustiça para muitos. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, Levantado do chão foi inspiração para um lindo projeto que uniu o fotógrafo Sebastião Salgado, o próprio Saramago, Chico Buarque e Milton Nascimento, no livro Terra, e em disco, que tem a canção de Chico que leva o nome do romance do escritor português. Saramago ocupa lugar central na minha biblioteca pessoal e é, talvez, o autor com maior presença em nossas prateleiras, afinal, temos praticamente todos os livros dele.

Jogo da amarelinha¸ de Julio Cortázar

2016-09-04-21-56-51Caraca!!! Foi meio isso que disse pra mim ao começar a ler este genial quebra-cabeças literário do autor argentino. As aventuras errantes de um casal pelas ruas de Paris, construídas em capítulos que se alternam pelas páginas do livro, fazendo o leitor folhear pra lá e pra cá, seguindo a ordem proposta pelo autor. Cortázar, um existencialista dos mais pessimistas, traduz o desencanto da geração do pós-guerra com um lirismo arrebatador, mas sem qualquer traço de pieguice. Pelo contrário. Ao jogar o leitor de um lado para o outro, propõe um percurso de leitura alucinante, abusando, com maestria, de experimentos linguísticos, frases e capítulos interrompidos, onomatopeias e elementos de cultura pop que permeiam a narrativa. Jogo da Amarelinha circula nas melhores livrarias em edição da Civilização Brasileira.

O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco

o-pndulo-de-foucault-umberto-eco-13762-mlb4395485953_052013-fEsqueça Dan Brown e outras imitações baratas. Vá ao romance de Umberto Eco que coloca um pesquisador em apuros quando ele descobre a chave de muitos segredos dos Cavaleiros Templários. Leia O pêndulo acompanhado de um mapa de Paris. E, se puder, vá à capital francesa circular por lugares como a igreja de Saint Sulpice e as ruas do Marais, personagens centrais da narrativa. Incrível que este livro ainda não tenha chegado ao cinema. Eco, em seus romances, alia uma incrível erudição a histórias muito fáceis de acompanhar. Então, se parte das referências que aparecem eu seus textos não lhe disserem muita coisa, não ligue. Se ligue ao fio da história. E divirta-se. A edição no Brasil é da Record, que poderia tratar um pouco melhor os livros de Umberto Eco.

Auto-de-fé, de Elias Canetti

2016-09-04-21-55-50Dos autores relatados nesta lista, Canetti é o de leitura mais recente. Por insistência implacável de Renata, mergulhei nas mais de 600 páginas desse romance que é uma grande história de piração por livros e alergia à humanidade. Peter Kien é um acadêmico especializado em estudos chineses. E louco, mais do que louco, alucinado, por livros. Detentor da maior biblioteca da cidade, Kien tem verdadeira ojeriza pelo contato com humanos. Em um ponto de sua vida, acaba por fraquejar e casa-se com sua governanta, que tem ódio a livros. Está instalado o ponto de virada e de conflitos irreversíveis na vida do excêntrico professor. Auto-de-fé talvez seja um dos livros mais fundamentais e fortes de toda a literatura. Do ponto de vista do tema deste post, este romance reorientou totalmente meu modo de ler e interpretar obras literárias, em busca das camadas profundas dos textos. A edição lá de casa é da Paz e Terra. Mas ainda há tempo de você procurar a mais recente, da Cosac Naify. Corra que vale a pena.

LITERATURA BRASILEIRA

O encontro marcado, de Fernando Sabino

2016-09-04-22-00-00Todo mundo tem um romance de formação pra chamar de seu. O meu é O encontro marcado, marcante demais em meus tenros 14 aninhos, quando o li pela primeira vez. Estava na sétima série e sabia que em pouco mais de um ano nossa turma de escola se separaria para estudar em colégios de 2º grau espalhados pelo bairro. Assim como naquele momento, os quatro amigos do romance estavam prestes a entrar na vida adulta. E fizeram um pacto para um encontro futuro.  Em quinze anos, não importando onde estivessem, deveriam voltar a Belo Horizonte, e se encontrar. Esse é ponto de partida para Eduardo, o narrador, relatar sua infância, as descobertas da adolescência ao lado dos amigos, a mudança para o Rio de Janeiro, o casamento, a vida profissional, as veleidades literárias que o atormentavam e a gradativa perda de contato com os outros três amigos. Romance de uma época em que o existencialismo influenciava autores por todo o mundo, O encontro marcado é repleto de situações que podemos classificar como ritos de passagem. Da infância para a adolescência. Daí para a vida adulta, as escolhas afetivas, os caminhos profissionais, as relações de amizade. Romance de formação brasileiríssimo, sim senhor. Fernando Sabino é publicado pela Editora Record. E se você não leu, recomendo demais.

 Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assim

bras-cubasAh, o velho Machado. Tão mal lido nos bancos escolares. E redescoberto por muitos na maturidade. Devia haver um roteiro para ler Machado de Assis, começando ali pelo fim da adolescência. E com programação de releituras em várias etapas da vida. Assim, o leitor iria saindo da superfície, para entrar na complexidade do mundo machadiano. Se você tem traumas das leituras escolares, sugiro que recomece por Memórias póstumas. Primeiro, porque tem muito humor envolvido. Sarcasmo e ironia em doses altíssimas. Começamos pelo velório do dito cujo que dá nome ao romance. E ele, mortinho, resolve contar sua vida ao leitor. E nessa história, ele vai narrando com muito veneno os arranjos de uma sociedade que começava a tomar forma. Riqueza, poder, luxo e banalidade de uma elite que nascia torta e baseada em valores mesquinhos e patriarcais, sustentada pela maior de todas as barbáries, a escravidão. Machado não poupa ninguém. É fácil achar Brás Cubas em várias edições, como essa da Nova Fronteira. Pesquise, antes de comprar, pra não cair em textos compilados ou, sacrilégio, atualizados para a linguagem contemporânea. Leia o original!

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

2016-09-04-21-59-47Sabe um livro que dá sede? Ao lado de O quinze, de Rachel de Queiroz, Vidas secas é mais do que um romance regional, como muitos tentam tachar. É uma obra universal, que tem o livro de Saramago, resenhado acima, como um de seus nobres descendentes. Uma linguagem seca, precisa, que fez de Graciliano um mestre. Narrativa sem excessos. E cujas econômicas palavras provocam fortes sensações no leitor e o fazem mergulhar na vida desaventurada de Fabiano e sua família. Só o episódio da morte de Baleia, a cachorrinha da família de retirantes, por si, merece estar entre os mais belos trechos de livro da história da humanidade. Parece exagero? Leia, releia. E venha aqui comentar. A obra de Graciliano é editada pela Record.

Primeira estórias, de Guimarães Rosa

2016-09-04-21-59-36Foi por esse livro de contos que comecei a mergulhar de verdade no universo de Rosa. E um conto, em particular, chamado A terceira margem do rio causou um vendaval interno. O narrador nos conta que seu pai, um dia, largou tudo, entrou em uma canoa e foi viver no meio do rio. Nunca mais voltou à margem, nunca mais manteve contato com os filhos. Nunca mais… Tempos depois da leitura, Caetano Veloso e Milton Nascimento traduziram a poesia desse conto nesta linda canção. Um conto sobre a linguagem, sobre a palavra. Já tinha lido Grande Sertão, mas sem ter entendido muito aquilo tudo que há em Rosa. Foi com esses contos que sua obra ganhou novo significado pra mim. E me orientou para voos mais altos na literatura brasileira. Rosa é autor da Nova Fronteira.

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

2016-09-04-21-58-45O que uma barata pode fazer com você? Se Kafka transformou seu personagem em uma gigante e ameaçadora barata, Clarice colocou G.H. diante de uma pequena barata, em um quarto, durante uma prosaica faxina. Angústia, inquietação, e a busca de um sentido primordial para vida levam G.H. a esmagar, e comer, a barata. Da repulsa e nojo inicial, ela tira uma reflexão existencial. Ela e a barata, agora amalgamadas, rompendo o medo, limpando impurezas. Comer o inseto é uma libertação, a saída de um labirinto? Vença a repulsa e encare A paixão. Depois, tudo que vier de Clarice será mais leve. Ou menos pesado. Atualmente, Clarice Lispector está no catálogo da Rocco.

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6 comentários sobre “14 livros de cabeceira

  1. Parabéns por toda sua lista Carlos. Não conhecia alguns-como Canetti-, e já estou providenciando as aquisições. Você descreveu todos com uma bela escrita, fico contente em ler listas irreverentes como estas. Obrigado 😀

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    1. Que bom que gostou, Juliano. E o obrigado pelos elogios. Falando de Canetti, recomendo demais a leitura de Auto-de-Fé. É uma epifania em forma de livro. Um livro difícil, denso, mas maravilhoso.

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  2. Gostei muito da sua lista e do que você nos falou sobre os livros, confesso que não li nenhum da lista (Os de ciências humanas eu até li parcialmente na faculdade, mas não inteiro. E os de literatura, apesar de eu conhecer os autores ainda não li esses títulos, nem mesmo o Cem anos de Solidão do Gabo que eu gosto tanto). Mas queria fazer uma correção, você me confundiu e eu precisei até conferir se eu não estava enganado por tanto tempo, o “História da Vida Privada” é organizado pela Laura de Mello e Souza e pelo FERNANDO Novais, e não pelo o Adauto Novaes.

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    1. Lenon, obrigado pela leitura. Cem anos de solidão é um livro arrebatador, poético. Leitura pra nunca mais esquecer.
      De fato, confundi Fernando Novais com Adauto Novaes, este, organizador de famosos ciclos sobre o pensamento. Vou corrigir. Laura Mello e Souza é organizadora apenas do primeiro volume da coleção.
      Abraço.

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