Quem tem medo de peito?

Taí uma coisa que incomoda, o peito feminino. Não é a toa que a maior ágora da contemporaneidade – o Facebook – exclui sumariamente imagens de seios, ou de qualquer coisa que se pareça com eles.  A liberdade de andar por aí sem sutiã, de mostrar os mamilos, de amamentar em público são pautas recorrentes do movimento feminista ao longo do tempo, algo que expõe a circularidade da causa. Sempre quem um peito de mulher é notícia, voltamos numa máquina do tempo para o começo dos anos 1960.

IMG_20170331_093309969O peito está presente em vários dos 10 contos que compõem o livro de estreia de Giovana Madalosso, não por acaso, intitulado A teta racional. Ora reduzido à função fisiológica da amamentação, ora construído com silicone no corpo de uma trans, o peito é a alegoria para uma feminilidade de dor, desafios e busca por autonomia. Publicado pela editora Grua, o livro foi tema do último #LeiaMulheres em São Paulo, excepcionalmente com a presença da autora, em comemoração ao segundo aniversário do projeto.

A desmistificação da maternidade é o tema mais central do livro. Logo no primeiro texto, XX + YY, uma mulher enfrenta sozinha seus primeiros meses como mãe, resultado de uma gravidez não planejada, contraída (sim, quase como uma doença) após uma trepada sem compromissos numa noite de carência. O pai da criança também não é exatamente o que se espera a princípio – um loser, mas não um sacana, que tenta desajeitadamente negociar a proximidade com essa “família” improvisada. Com o peito rachado, o momento da amamentação é mais de tortura que de prazer: “Nada se compara a uma boca faminta sugando uma ferida. Depois de uns minutos, desencaixei-o um pouco e vi que ele estava mamando sangue. Lembro que pensei num parasita”. 

No conto que dá nome ao livro, outra mulher tenta conciliar o trabalho com a dinâmica da maternidade, tendo como agravante um chefe pouco sensível. Enquanto tenta extrair leite no banheiro do escritório, ela se lembra de uma cena prosaica, mas simbólica: “Uma cadela estava deitada na calçada, amamentando. Os filhotes se revezavam nas tetas. (…) Quando eu estava voltando para casa, via a cadela deitada no mesmo lugar (…), tudo igual, com a única diferença de não estarem mais sob a luz do sol, mas de um poste”. 

Em A paraguaia, a vida de duas amigas de faculdade toma rumos diferentes também a partir das escolhas que elas fazem, ou que o acaso faz para elas, entre perseguir uma carreira ou formar família por acidente. No excelente Suíte das sobras, a maternidade real se expressa na distância entre mãe e filha adultas, que se reencontram para uma viagem de carro pelos Estados Unidos após anos sem se ver.

Como observou Juliana Gomes, uma das organizadoras do #LeiaMulheres, a relação entre seus contos faz de A teta racional quase um romance, com uma linha narrativa tênue que interliga os textos, ainda que sejam todos histórias isoladas entre si. Nesse sentido, Suíte das sobras fecha o livro com uma personagem idosa fazendo as pazes consigo mesma e com seu corpo depois de se recuperar de uma separação traumática, já nas portas da velhice; um encerramento quase esperançoso.

Desnecessário dizer que o livro tem uma pegada feminista, embora não seja panfletário ou engajado de uma maneira óbvia. Apesar disso, um dos contos despertou uma discussão sobre a arte que se coloca como ou não como política: em Roleta-Russa, a personagem principal é uma transexual contratada para uma festa só de homens. Todos os convidados sabem que há ali pessoas com Aids, mas não sabem quem. Para manter a adrenalina em alta, a proposta é pegar geral sem camisinha – daí o título.

A transexual é retratada como hipersexualizada, prostituta, HIV positiva, estereotipada, enfim. Ao colocar uma transexual exatamente no lugar a que a sociedade lhe restringe, o conto não estaria sendo a-político? Ou pior, estigmatizante? Para argumentar seu ponto, a participante que levantou a questão citou o trecho em que a personagem reflete sobre a morte enquanto se desloca até a festa:

E a sete palmos, o fim, mas também o começo. O apodrecimento, lento, até os vermes comerem toda a carne, deixando só dois pares de próteses – um do peito, outro da bunda – inteirinhos dentro do caixão. Quatro saquinhos de plástico, parcelados em seis vezes sem juros. (…) Engraçado como a vida faz questão de humilhar a gente, mesmo depois que já se está morto. 

O curioso – e aí está a beleza da literatura – é que li este conto e exatamente este mesmo trecho como um dos mais claramente políticos do livro. A imagem poderosa me remeteu imediatamente à baixa expectativa de vida das mulheres trans (não muito mais de 30 anos) e à luta contra a burocracia para ter seus nomes sociais reconhecidos, por exemplo, na hora de serem enterradas. Mesmo na morte, há o medo de continuar sendo reduzidas àquilo que lhes é imputado como falso – o corpo modificado artificialmente.

Além disso, enxerguei no conto uma crítica dura ao machismo que está presente (e como) nos ambientes gays masculinos. Fora a hipocrisia: durante a festa, a trans observa quantos ali não ostentavam alianças de casados, arriscando não apenas a própria saúde, mas a de esposas e companheiras que permanecem no escuro.

A crítica inicial não é desprovida de sentido, pelo contrário. Giovana admitiu que às vezes olha pra trás e se questiona sobre a reprodução do estereótipo. “Por outro lado, este modelo (como as trans são vistas) ainda precisa ser pensado”, explicou. Sobre a politização da arte, ela disse algo interessante. “Não gostaria de me encaixar no rótulo do feminismo. Acho que a política apequena tudo, e quero que minha obra paire acima disso”.

A fala que pode ser chocante nesses tempos de fla x flu ideológico, remete a uma questão salutar em todos os campos da arte. Mesmo quando uma obra qualquer não é evidentemente engajada, é a forma como ela capta o espírito de seu tempo, ou às vezes como se projeta para o futuro, que definirá sua permanência ou efemeridade. A teta racional tem potencial de manter-se atual durante muito tempo.

PS: a foto em destaque é um pedaço do painel d’OSGEMEOS na parede externa do MAM, no Ibirapuera, em São Paulo.

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