Sinfonia da megalópole

As cidades são a invenção mais complexa da humanidade e estão conceitualmente fadadas ao fracasso: como classificar algo que reúne tanta gente diferente, com expectativas e perspectivas às vezes diametralmente opostas, num mesmo espaço geográfico? Ao mesmo tempo, é nessa diversidade que reside a beleza das cidades; é dessa diversidade que emana o potencial de realizações e acontecimentos que as tornam completamente diferentes, digamos, de uma colmeia ou de um formigueiro. A beleza das cidades está no fato de que elas acordam pra dar errado todo santo dia. E dão. Mas ao mesmo tempo, milagrosamente, também acertam em milhões de pequenas coisas.

É um sentimento dialético que se aprofunda ainda mais no caso de uma megalópole como São Paulo – algo que não decorre apenas de seu tamanho agigantado; tem a ver com sua posição de centro econômico, mas de maneira mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Está aí o tema subjacente de Tudo pode ser roubado, primeiro romance de Giovana Madalosso (editora Todavia), que já havia publicado um excelente livro de contos. Seria um clichê dizer que a cidade é sua personagem principal, mas aí está, também somos (nós, blogueiros) feitos de algumas obviedades.

Trata-se de um livro divertidíssimo, embora falsamente leve – um efeito conseguido por poucos escritores.

IMG_20180321_141444145A metrópole é o espaço onde se desenrola a história de uma garçonete que seduz clientes no fim da noite para afanar roupas e objetos de luxo, mais por esporte do que por necessidade. O que consegue furtando ela revende mais tarde em um brechó chique capitaneado por uma amiga transexual. Sarcástica, a moça usa o seu emprego como posto avançado de observação de uma classe economicamente dominante que dita os rumos da cidade, mas que não faz ideia do que se passa para além dos muros altos dos prédios de luxo ou dos vidros escurecidos dos carros blindados.

A moça está o tempo inteiro fazendo o contraponto entre a cidade que produz, funciona e bate ponto e a que surge no pós expediente, quando as gravatas se afrouxam, as roupas ganham brilho e as pessoas saem da solidão para o anonimato da imensidão paulistana. A cidade que lhe interessa é a das pessoas à beira do colapso – arriscada, porém mais verdadeira.

Numa noite, ela é abordada por um estranho que lhe encomenda um roubo especial: uma primeira edição do livro O Guarani, guardado no apartamento de um professor universitário apaixonado pela obra de José de Alencar. Pelo serviço, ganharia uma bolada suficiente para comprar o apartamento onde mora. Ao conhecer o milionário que encomendou o furto, ela toma contato de forma ainda mais aguda com uma riqueza entediada com seu próprio excesso de dinheiro.

O cerne de Tudo pode ser roubado está numa discussão sobre o valor que atribuímos às coisas e porquê. De certa forma, a garçonete cleptomaníaca é uma espécie de Robin Hood que afana belos objetos de pessoas que sequer se lembravam de tê-los. Quando ela concorda em roubar O Guarani, pela primeira vez se vê diante da possibilidade de tirar algo realmente valioso para alguém – e não por causa do preço que custou: “(…) não existe um valor real para nada, só a miríade de valores irreais – e verdadeiros – que nossas emoções etiquetam em cima de tudo“, pensa a moça.

Quando mencionei a complexidade da situação de São Paulo como centro econômico, me referia também a isto. Já ouvi dizer que esta cidade é como a morte: acaba acontecendo pra todo mundo. É um jeito mórbido de encarar o fato de que muitos vêm a contragosto, apenas para sobreviver profissionalmente; ganham um dinheiro que não vale a solidão e o isolamento que acabam sofrendo. Para outros, a cidade inexiste fora dos muros dos prédios de luxo, dos shoppings e dos clubes exclusivos. Em algum lugar no meio disso tudo, há quem, como a garçonete, veja graça na diversidade de pessoas que só uma cidade como São Paulo consegue reunir. É quando a noção de valor começa a fazer algum sentido.

A sensação da cidade como personagem do romance vem também do jogo que Giovana Madalosso faz com lugares e pessoas. Alguns são reais embora não nominados: o restaurante onde a garçonete trabalha é obviamente o Spot, na região da Avenida Paulista, enquanto o excêntrico ricaço que encomenda o roubo d’O Guarani se encaixa perfeitamente na descrição de Charles Cosac, dono da finada editora Cosac Naify. Outros lugares e pessoas são inventados, mas tão icônicos que poderiam mesmo existir, a exemplo de um restaurante coreano frequentado por garçons depois do expediente, na região da Augusta. Parte da diversão está justamente em adivinhar o que existe ou não na metrópole transposta para o papel.

 

 

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