Brasil + África + Portugal

Embora não seja nenhuma novidade, a ausência de trocas (culturais, comerciais, simbólicas) entre Brasil, África e Portugal continua sendo impressionante. Há, é claro, um oceano de distância – mas a geografia sozinha não é capaz de explicar totalmente esse afastamento entre os países do mundo lusófono, que compartilham não apenas a língua, mas toda a história da colonização europeia e, é claro, a violenta diáspora negra.

IMG_20170408_184810593Nação Crioula, livro do angolano José Eduardo Agualusa (editora Língua Geral), tenta alinhavar justamente esses pedaços soltos no tecido transatlântico. Curtinho e de leitura fluída, nos apresenta um retrato da sociedade dos países de língua portuguesa no final do século XIX, quando a pressão pelo fim da escravidão acirrava tensões políticas, econômicas e sociais, colônias afora.

Agualusa toma emprestado um personagem de Eça de Queiroz para construir seu romance em forma de cartas. Fradique Mendes, um português aventureiro, escreve à madrinha francesa sobre suas viagens por Luanda, Benguela, Olinda e Recôncavo Baiano. Com o olhar do estrangeiro, assinala o comportamento dos portugueses desterrados e sua relação com o povo da terra. Ele escreve também ao próprio Eça de Queiroz, que trata como um amigo íntimo, e à sua amante (depois esposa), uma negra angolana cujo status lembra o de Xica da Silva.

Aos poucos, vão se estabelecendo as semelhanças e diferenças entre as histórias coloniais do Brasil e de Angola. Do lado de lá do Atlântico, Fradique observa uma aristocracia negra que, embora transite com o seu dinheiro, não está livre do preconceito e da vontade de ascender racialmente por meio de casamentos com brancos. Não está livre nem mesmo da ameaça da escravidão. Dado momento, Ana Olímpia perde a fortuna herdada do marido (branco) quando o irmão deste aparece de surpresa em Luanda, reivindicando todos os bens do falecido – incluindo a própria Ana.

Fradique encontra pelo caminho várias pessoas que, embora se consideram libertárias, defendem a escravidão.  Um desses personagens, descrito como um “espírito excessivo e contraditório”,  era proprietário de três navios negreiros: “não teve dúvidas  quando se tratou de os batizar: Liberdade, Igualdade, Fraternidade“. Há também quem enxergasse o tráfico (a essa altura, já banido oficialmente) como um ato de filantropia. Pela lógica torta de quem tenta justificar esse absurdo, levar negros escravizados já na África para o Brasil seria uma forma de salvá-los e dar-lhes uma nova chance. Todo patife arruma uma justificativa.

No Recôncavo Baiano, onde ninguém reconhece a autoridade do Imperador D. Pedro II, Fradique aprende que o senhor de engenho é o rei, tratado pelos escravos com “uma mistura de ódio e impotência”. A essa altura casado com Ana Olímpia, ele toma contato com os movimentos abolicionistas no Brasil. Agualusa tem o cuidado de dar protagonismo aos líderes negros, como José do Patrocínio, e não deixa de mencionar as revoltas de escravos empreendidas por negros de origem muçulmana – algo que a história ensinada nas escolas brasileira trata como mero detalhe numa narrativa que estabelece a abolição como uma benesse concedida por uma princesa boa-pinta.

No fim das contas, Agualusa oferece uma avaliação da decadência do poderio português em suas próprias colônias, um projeto que carecia de pretensões outras que não o mero imediatismo da exploração comercial parasitária. Fradique escreve a Eça de Queiroz:

O que é que nós colonizamos? O Brasil, dir-me-ás tu. Nem isso. Colonizamos o Brasil com escravos que fomos buscar em África, fizemos filhos com eles, e depois o Brasil colonizou-se a si próprio. Ao longo de quatro demorados séculos construímos um império, vastíssimo, é certo, mas infelizmente imaginário. 

Talvez o caráter imaginário desse império explique a distância, caucada na indiferença, que separa os países lusófonos. Nunca houve uma coesão ou sequer uma mera tentativa de instaurar uma. Se isso foi bom ou ruim, a discutir. É uma pena que a língua comum não tenha servido efetivamente para uma aproximação maior entre esses países com um passado compartilhado – exceto, e um pouco, pela via da literatura. Nação Crioula é um grande exemplo das possibilidades.

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