Um livro. Um nome. Uma filha

Antes de ter filhos, tinha duas certezas. Se minha situação financeira permitisse, com um sacrifício aqui, outro ali, estudariam no Gracinha (para quem não é de São Paulo, escola cujo projeto pedagógico teve a mãozinha de Paulo Freire, Mario Sergio Cortella, Fernando de Almeida, Terezinha Rios e outros grandes educadores). A segunda certeza dependia de uma incerteza dada pela genética. Ter uma filha mulher. E dar um nome a ela. Veio primeiro um menino, Daniel, que já vai para os seus 16 anos.

E há 10 anos chegou a menina. E a certeza que vinha já dos anos anos 1990, era seu nome, que aparece aí em cima, no capítulo III de A casa dos espíritos”, obra prima da chilena Isabel Allende. Pois, em 16 de abril de 2007, veio ao mundo Clara, que foi nomeada sob a inspiração desse lindo título de capítulo. Clara, clarividente.

2013-09-08 00.17.08Eu e a mãe de Clara sempre soubemos que teríamos uma menina com esse nome. Hoje, aos 10 anos, só espero que ela não faça como a personagem e inicie um período de mutismo. Até porque vai ser difícil ficar sem um dos traços mais peculiares de nossa Clarinha. A fala eloquente e constante sobre tudo e sobre todos. Clara, nascida sob inspiração de um livro, é também uma leitora dedicada e constante, tanto que é uma das mais assíduas frequentadoras da biblioteca da escola. E que seja sempre assim.

A saga matriarcal de A casa dos espíritos correu o mundo. Primeiro, pela curiosidade causada pelo nome Allende, do notório avô da autora, retirado com brutal violência da presidência do Chile em 11 de setembro de 1973.

Depois, pela própria história, a saga dos Trueba, que atravessa os tempos, narrada em torno das mulheres da família, cujos nomes, Alba, Blanca, Nívea, Clara remetem à luminosidade, que nem sempre está presente nas doloridas agruras porque passam as Trueba ao longo de um século. É um belo livro, que se insere no rol das histórias de realismo mágico da América Latina, com um toque pessoal de Isabel Allende e a narrativa construída em cima de personagens femininas.

A casa dos espíritos chegou às telas pelas mãos do dinamarquês Bille August e com Meryl Streep, Glenn Close, Jeremy Irons, Vanessa Redgrave, Wynona Ryder, Vincent Gallo e Antonio Banderas no elenco. Não era pouca coisa. E a expectativa em torno do filme foi muito grande. Mas parece que Bille August cumpriu a sina de que bom livro pode dar em filme ruim. E à película falta a magia da narrativa original de Allende. É um filme entre duro e meloso, pesado, com um olhar gringo sobre um continente que efeitos especiais hollywoodianos não conseguem captar.

Portanto, o melhor mesmo é ficar com a obra de Allende, no papel ou no e-book. E aproveitar a deliciosa narrativa, que depois não se repete com a mesma força em outros escritos da chilena. Isabel para ter ficado presa à fórmula das grandes sagas e dos romances históricos e produziu obras interessantes, mas desprovidas da beleza desse grande livro.

Para mim, A casa dos espíritos é uma das provas de como a literatura entra na vida da gente pelos mais insondáveis caminhos. Clara, clarividente, um capítulo que me deu um nome. Um nome que me deu uma presença que há dez anos alegra minha vida.

Ainda não leu? Tem edição em português da Bertrand Brasil disponível por aí. É um livro para não esquecer.

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