Cia das Letras relança poesia de Oswald de Andrade

A vida cultural de São Paulo é permanentemente marcada pela presença e ausência simultâneas de dois nomes do modernismo brasileiro – Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Se mesmo para quem cresceu no Nordeste a referência a ambos é inescapável, para os paulistas os dois são quase como eternos fantasmas rondando as conversas sobre vanguarda artística em museus, bibliotecas, teatros, ruas, galerias de arte além, é claro, de figurar em matérias obrigatórias no vestibular. Fora do meio literário, é difícil encontrar quem os tenha lido fora do contexto escolar – euzinha inclusa.

capaAssim, aproveitei o lançamento de Poesias reunidas de Oswald de Andrade para começar a reparar esse déficit. O livro saiu este ano pela Companhia das Letras, compilando todos os poemas publicados a partir de 1924 e mais vários outros inéditos ou veiculados de forma dispersa em revistas e jornais. Fecha o livro uma seleção de cartas trocadas entre Oswald e outros poetas e intelectuais brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade e Mário da Silva Brito, além de um extenso ensaio de Haroldo de Campos, publicado originalmente em 1966, em uma compilação anterior das poesias de Oswald.

A edição da Companhia das Letras sai a partir de um garimpo de publicações anteriores e do cotejamento entre várias versões existentes dos poemas para se chegar ao que seria a intenção original do autor. As excelentes notas de rodapé explicam em cada caso quais as versões existentes e porque se optou por uma e não pela outra, o que muitas vezes acaba antecipando esclarecimentos sobre o estilo de Oswald, abordados de forma mais profunda na fortuna crítica ao final do livro . Vários possíveis erros tipográficos foram sanados nessa arqueologia, também uma forma interessante de conhecer um certo desleixo no preparo dos volumes anteriores.

Outro grande trunfo do livro é a recuperação das ilustrações elaboradas por Tarsila do Amaral, Lasar Segall e pelo próprio Oswald de Andrade, publicadas pela última vez em uma edição de 1945. Principalmente no Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, as ilustrações são quase poemas em si mesmas.

Adolescência
Na introdução, a edição manteve o prefácio original de Paulo Prado a Pau Brasil,  publicado em 1924. O texto parece imbuído de perspectiva histórica, como se tivesse sido escrito hoje para explicar como o lançamento do primeiro livro de Oswald de Andrade implicou a quebra de um paradigma na poesia brasileira, quase um século atrás. “A poesia ‘Pau Brasil’ é, entre nós, o primeiro esforço organizado para a libertação do verso brasileiro“, explica Paulo Prado. Até então, eram os modelos europeus clássicos e românticos que orientavam a produção poética brasileira.

O poema de abertura anuncia o que virá a seguir:

escapulário
Cotidiano, paisagem, história e simplicidade formal estarão presentes em praticamente todos os poemas do livro. Também será marcante a utilização de grafias que aludem à oralidade do povo brasileiro. Além de tudo, a obra de Oswald traz observações políticas que ainda fariam sentido atualmente. Pau Brasil traz toda uma sessão, nomeada Postes da Light, dedicada à cidade de São Paulo, em que o poeta critica fortemente a lógica do capital ocupando o espaço do poder público no cotidiano da cidade, moldando-a às suas necessidades, e não às dos cidadãos. Sobre a ocupação do espaço urbano, ideal bandeirante poderia ter sido escrita ontem:
ideal bandeirante
Tome este automóvel 
E vá ver o Jardim New-Garden
Depois volte à Rua da Boa Vista
Compre o seu lote
Registre a escritura
Boa firme e valiosa
E more nesse bairro romântico
Equivalente ao célebre
Bois de Boulogne
Prestações mensais
Sem juros 
Como vários dos autores clássicos que somos obrigados a ler na adolescência, na maior parte dos casos, sem nenhuma paixão por parte dos professores, Oswald de Andrade fica muito melhor com a maturidade do leitor. É uma pena que esse contato escolar apressado acabe desestimulando imersões posteriores, quando não acabam gerando até mesmo uma grande e injusta aversão. O tema nem era o foco deste post, mas é inevitável deixar o questionamento: já que é evidente que andamos no caminho errado, qual seria a melhor maneira de estimular a leitura entre crianças e jovens, para que um dia eles possam ler os clássicos com prazer? O que vocês acham?

PS: a foto em destaque é da obra Momento antoprofágico com Oswald de Andrade, de Antonio Peticov, no saguão da Estação República do Metrô de São Paulo.

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