Verdadeiro ou falso?

2017-04-23 12.48.44Quando publicou A coleção particular, uma pequena novela de pouco mais de 70 páginas, o escritor francês Georges Perec certamente já tinha algum contato com a obra de Walter Benjamin, morto quando o romancista estava com quatro anos de idade. Entre os inúmeros ensaios de Benjamin sobre cultura de massas, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica é aquele que problematiza a autenticidade das obras a partir da profusão de meios técnicos como a fotografia, a reprodução fonográfica, a imprensa e o cinema, que permitem a produção em larga escala de cópias exatamente iguais aos originais de uma obra. O texto de Benjamin vai além e discute como as várias formas de expressão artística existentes na década de 40 preservavam ou destruíam a “aura” da obra “original”, até porque, alguns desses movimentos, como o dadaísmo e o futurismo, por exemplo, antecipam o que a arte pop consagraria, no jogo com as reproduções em série colocando em xeque o que é verdadeiro ou falso, original ou cópia em uma obra de arte, seja qual for seu suporte ou sua técnica. Essa quebra de aura da obra original, nos dizeres de Benjamin, “colocou a cópia do original em situações impossíveis para o próprio original. Ela pode, principalmente, aproximar do indivíduo a obra (…). A catedral abandona seu lugar para instalar-se no estúdio de um amador; o coro, executado numa sala ou ao ar livre, pode ser ouvido no quarto.”

Perec, na novela que dá nome ao livro, publicado no Brasil pela Cosac Naify, brinca com o leitor, dizendo que os detalhes de sua narrativa são “concebidos, unicamente, pelo prazer, pelo gosto de iludir”. A novela é na verdade uma minuciosa enumeração de como o imigrante alemão Hermann Raffke, que se torna milionário ao abrir uma próspera cervejaria em solo norte-americano, amealhou uma extensa coleção de arte, construída inicialmente com a compra de quadros de gosto duvidoso. E enriquecida com viagens pela Europa, em que o mecenas, orientado por marchands e críticos de arte, arrematava tudo que lhe aconselhavam em leilões no final do século XIX e começo do século XX. Renoir, Tintoretto, mestres do renascimento, pintores do modernismo, nada escapava aos dólares do rico cervejeiro. O momento da narrativa já se dá no pós segunda guerra, quando os descendentes do alemão colocam sua obra à venda, o que inclui uma tela encomendada a Heinrich Kürz, um medíocre pintor, igualmente de origem alemã, que coloca em uma única, e gigante tela, toda a coleção de seu mecenas. São quadros e mais quadros, alguns projetados em espelhos que parecem sem fim, em clara alusão ao célebre As meninas, de Diego Velázquez.

A grande sacada de A coleção particular está no arremate da novela, que fica aqui em suspenso. Mas o corpo do texto, com as detalhadas descrições, a enumeração dos quadros, datas e nomes, revela a obsessão do autor pelo uso da matemática em sua literatura. Já resenhei aqui o incrível A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento e Renata escreveu aqui sobre o livro de Jacques Fux sobre literatura e matemática, no qual Georges Perec é um dos autores em destaque no movimento OuLiPo, que prega a adoção de formatos matemáticos para a construção de obras literárias.

Mas voltemos a Perec. Depois de conhecer a bela coleção de arte de Hermann Raffke, o leitor chega ao segundo texto do livro, um conto intitulado Viagem de inverno. Nele, um jovem francês está no castelo de amigos da família. Fuçando a biblioteca se depara com um volume de poesias assinado por um tal Hugo Vernier. Ao terminar a leitura, o jovem se espanta com a quantidade de versos de Verlaine, Rimbaud e outros poetas franceses que estão presentes no livro de Vernier. O espanto maior é saber que essa obra foi publicada décadas antes dos poemas “originais” terem sido de fato criados e impressos. Na cabeça do jovem leitor uma dúvida: seriam cópias antes do original? Ou todos os grandes poetas teriam “roubado” de Vernier seus versos mais famosos?

Chamado à guerra, o jovem deixa de lado o assunto. Mas não esquece do mistério, que tentará esclarecer ao voltar do combate. Não farei spoiler dos finais de ambos os textos, porque são igualmente surpreendentes. Portanto, divirtam-se com a leitura e descubram os segredos que Perec deixa para o final.

Volto a Benjamin e à grande brincadeira que Georges Perece faz na novela e no conto deste livro. No fundo, ele questiona o leitor sobre o real valor de uma obra de arte. E coloca em xeque o conceito de autoria e originalidade da criação. A coleção particular é um pequeno livro, para grandes reflexões, ainda mais em tempos nos quais grandes mentiras são transformadas em “verdades” nas redes sociais, no pseudo-jornalismo que é praticado em grande parte das redações, no discurso de governantes marqueteiros de si mesmos e criadores de imagens e personagens. Perec faz pensar em tudo isso. E ainda é uma leitura divertida.

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