Literatura ao quadrado

Ser repórter de jornal impresso faz com que sua vida seja lidar com informações encapsuladas em um espaço finito, medido por centímetros de coluna e número de toques por linha. Claro, essa não é a essência do jornalismo, mas a limitação do texto é um dado inescapável da atividade, e um que influencia diretamente a quantidade de dados a que o leitor terá acesso. Surpreendentemente, eu gostava da limitação quando tive essa experiência: era de algum forma confortante construir um texto sabendo exatamente em que altura (literalmente) ele teria fim. Me encantava o malabarismo de fazer caber tudo o que eu queria dizer naqueles poucos toques, e me divertia fazendo cada informação soar essencial, sabendo que o editor teria muito trabalho se quisesse cortar algo. Por isso, sempre imaginei que a vida dos ficcionistas pode ser um inferno: quando saber a hora de colocar o ponto final?

Alguns se auto-impõem limites claros – Ana Miranda, por exemplo, escreveu Desmundo em capítulos de uma página porque queria emular o formato das cartas do início da colonização no Brasil, época em que o romance está ambientado. Depois, utilizou o mesmo limite em outros livros, só porque sim. Em Ribamar, no qual escreve sobre a relação conflituosa com o pai, José Castello criou um sistema de limitação do tamanho e dos assuntos de cada capítulo a partir da partitura de uma canção de ninar: cada nota é um capítulo, sendo que o tempo da nota define o tamanho do texto e o tom (dó, re, mi, etc.) determina o assunto. O resultado é sensacional. Para além da regra aparentemente arbitrária, a partitura está na capa do livro e a canção permeia a história, de maneira que forma e conteúdo estão entrelaçados.

Por conta desse interesse (que pode parecer estranho), o lançamento de Literatura e Matemática, de Jacques Fux, me deixou extremamente feliz. Ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012 com o romance Antiterapias, o escritor mineiro é matemático de formação e apresenta neste livro editado pela Perspectiva sua tese de mestrado. Esta, por sua vez, surgiu da vontade de reunir em estudo dois campos aparentemente antagônicos do conhecimento, a matemática e a literatura, tendo como protagonistas dois autores em especial – o argentino Jorge Luis Borges e o francês Georges Perec, além do grupo também francês Oulipo. Em comum entre eles está o uso de conceitos da matemática na construção de seus textos, seja como argumento para a história (Borges), seja como elemento estruturador da forma ou da narrativa (Perec e o Oulipo, do qual fazia parte).20160826_094245

O Oulipo propunha formas de restrição da escrita como uma espécie de protesto contra a ideia de que a literatura vem da inspiração; para os integrantes do grupo, a escrita vem de um trabalho sistemático de criação – mas nem por isso, um trabalho pouco divertido. Daí que defendiam a adoção de regras artificiais (as contraintes) como desafios lúdicos ao texto. Georges Perec, por exemplo, escreveu um livro inteiro sem a letra E, que a é a mais frequente da língua francesa. Não bastasse esse “pequeno” desafio, a história tem como argumento justamente o desaparecimento da letra E. Em outro dos seus livros mais conhecidos, Vida modo de usar, ele faz o cruzamento de várias regras distintas para orientar os temas de cada capítulo e o deslocamento da trama pelos 99 cômodos de um edifício, de forma a que cada um deles seja visitado ao longo da narrativa segundo a lógica do deslocamento de um cavalo num tabuleiro de xadrez (em “L”).

Borges, por sua vez, tinha uma abordagem mais filosófica da matemática em seus trabalhos, explorando principalmente os paradoxos e conceitos como o infinito. Jacques revela que um dos livros preferidos de Borges, e ao qual o argentino se refere repetidas vezes, é Matemática e imaginação, publicado pelos americanos Edward Kasner e James Newman na tentativa de popularizar essa ciência. E lá está explicado, por exemplo, o que é um Google (ou gugól em português): nada mais do que um 1 seguido de 100 zeros ou, mais genericamente, um número muito grande, mas ainda finito. A exploração teórica e metafórica da matemática em seus contos surte tal efeito ao ponto de algumas pessoas defenderem que Borges previu a solução de um problema da física quântica antes que ele realmente fosse decifrado. Seja como for, o autor argentino via uma clara relação entre as histórias policiais e a matemática, pela forma intrincada como os fatos são construídos até a revelação do mistério final.

Quadrado mágico
Quadrado mágico de Estevão Azevedo

Vários outros autores são citados por Jacques, embora não explorados com a mesma profundidade. A lista incluiu Edgar Allan Poe, Lewis Carroll, Ítalo Calvino e os brasileiros José Castello (já mencionado) e Osman Lins. [Talvez se a pesquisa estivesse sendo feita hoje a lista incluísse o potiguar Estevão Azevedo, que ganhou o último Prêmio São Paulo de Literatura com Tempo de espalhar pedras. Estevão publica palíndromos regularmente em seu perfil no Facebook – palíndromos, pra quem não lembra, são frases espelhadas, que podem ser lidas de trás para frente com o mesmo significado. Faz poucos dias, ele publicou um quadrado mágico com cinco palavras que podem ser lidas em várias direções e que podem indicar possibilidades de histórias – um trabalho sensacional].

Além de detalhar vários dos conceitos e contraintes matemáticos utilizados pelos escritores, alguns bem complicados, Jacques também lembra oportunamente que esse tipo de regra não era uma novidade na época do Oulipo e de Borges. Afinal, o que são as métricas da poesia clássica, ou mesmo do cordel, senão um conjunto de regras para dar ritmo e sonoridade aos textos em versos? A própria língua e sua forma escrita podem ser definidas como um conjunto de regras mais ou menos aleatórias, algumas das quais TÃO aleatórias que precisamos aprender na base da decoreba.

As contraintes continuam por aí, e a mais popular dos últimos 10 (?) anos responde pelo nome de Twitter. Os posts com limite máximo de 140 caracteres deram origem a um sem número de livros de poemas ou microcontos com esse tamanho máximo. Quem lembra da polêmica declaração de Paulo Coelho sobre Ulisses, de James Joyce (“se você disseca Ulisses dá um tuíte”)? Logo depois, a Folha de São Paulo convidou ele próprio e outros autores para resumir o livro nos 140 caracteres – uma proposta interessante, embora o resultado tenha sido bem duvidoso. Tudo bem, era só uma brincadeira, ainda mais feita às pressas. Mas imaginem no que poderia resultar a produção de Borges, Perec e dos outros autores do Oulipo em temos de internet e Google? 😮

O barato disso tudo é que entender matemática não era e continua não sendo pressuposto para a leitura dos livros que, de alguma forma, exploram seus conceitos. O que Jacques explica é que o entendimento da matemática acrescenta uma nova possibilidade de leitura ao texto. O leitor é livre para entrar no jogo ou seguir lendo fora dele. Mas, cá pra nós: é impossível resistir. Literatura e matemática, além de tudo, teve o incrível efeito colateral de me fazer comprar ao menos seis livros (até agora) referidos por ele. Pelo jeito, muitos outros virão.

UPDATE em 6/9/2016: Jacques acaba de nos mandar o vídeo de uma palestra que ele deu em Campinas sobre Literatura e Matemática. Confira na íntegra!

PS: A imagem em destaque é de uma página do livro Literatura e matemática em que o autor explica uma das contraintes utilizadas por Perec em Vida modo de usar.

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4 comentários sobre “Literatura ao quadrado

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