A parte sem o todo…

IMG_20180304_091408545Tinha acabado de fechar a última página de A parte que falta enquanto esperava meu almoço chegar em um restaurante perto de casa quando o Facebook me mostrou o vídeo que Jout Jout Prazer acabara de divulgar, lendo o livro inteiro. Meu primeiro pensamento foi: “que massa!”. Enquanto escrevia este texto, o vídeo da Jout Jout atingiu 3,4 milhões de visualizações, o que alçou o livro à lista dos mais vendidos no Brasil em velocidade meteórica – se a galera da Companhia das Letras teve um fevereiro feliz, não foi por causa do Carnaval.

Já o segundo pensamento veio da repórter que ainda vive dentro de mim, e esse foi bem menos otimista:

“Puta merda. Levei um furo estratosférico”.

Então estou aqui com a ingrata tarefa de resenhar um livro que já foi “lido” por 1,6% da população brasileira no You Tube. Mas o Lombada Quadrada é teimoso (ou sequer existiria) e também adora um desafio (idem). Então vai ter resenha SIM, até porque os espectadores da Jout Jout podem ter ficado com a impressão de que se trata de um livro de auto-ajuda – e nada mais longe da verdade.

A essa altura, todo mundo já sabe que A parte que falta é um livro infantil com um enorme apelo para adultos. A razão para isso é que obra trata metaforicamente de relacionamentos amorosos e da busca utópica pela pessoa perfeita. Eu não sabia de nada disso quando fui atrás do livro.

O que me chamou a atenção foram as ilustrações, sofisticadas em sua simplicidade; e a alusão à matemática: o personagem principal é um círculo incompleto, que busca a forma que lhe fará inteiro. Os elementos são bidimensionais, preto no branco, e quase sempre baseados nas mais simples figuras geométricas – pontos, linhas, etc. A relação entre matemática e literatura é riquíssima e já foi tratada no blog, em resenha sobre estudo de Jacques Fux a respeito do tema – veja aqui.

Esses  fatores combinados já indicavam que a obra do americano Shel Silverstein tinha uma qualidade intrínseca que a excluía do grande e malfadado clube dos livros bobocas para idiotizar crianças. Não estava errada. Sou consumidora regular de livros infantis e infantojuvenis embora não tenha filhos – ou melhor, independentemente disso, pois trata-se de um nicho maravilhoso a ser explorado por leitores curiosos.

Bons livros para crianças combinam concisão, simplicidade e profundidade nos textos a trabalhos gráficos primorosos. Sobretudo, bons livros para crianças não fogem de temas complicados ou ‘adultos’. Pelo contrário: os melhores são justamente os que não têm medo de abordar assuntos difíceis nem se esquivam de tratar crianças como seres inteligentes. Por isso, são também capazes de cativar gente grande, seja na mera leitura superficial, seja também pelo prazer na exploração das entrelinhas e das soluções narrativas e textuais do autor.

Nesse sentido, A parte que falta é uma ótima história sobre autonomia, amor próprio, alteridade e desprendimento, no contexto da eterna insatisfação humana. O círculo incompleto roda o mundo atrás de uma forma geométrica que se encaixe nele perfeitamente e, enquanto procura, precisa lidar com vários percalços, sendo os mais importantes aqueles advindos das outras figuras geométricas com as quais tenta se encaixar.

Quando encontra pela primeira vez uma parte que lhe parece perfeita, a primeira decepção: a forma em questão não quer ser parte de ninguém, mas o inteiro dela mesma.

IMG_20180222_130844711Ou seja, a parte sem o todo… é todo também (1). E ver isso escrito em um livro infantil é sensacional.

Me identifiquei imediatamente com a partezinha atrevida, que não se acanha diante do tamanho nem da determinação do círculo incompleto. Esse é o ápice do livro: quem nunca ouviu o clássico “por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”? Notem: por trás e não ao lado.  Há aqui uma inegável possibilidade de debater igualdade de gênero, afinal, o discurso social da completude nos relacionamentos coloca a mulher como um detalhe do homem, até nos ditos populares.

O círculo continua sua busca e quebra a cara diversas outras vezes enquanto é obrigado a aprender como se relacionar com o outro, até finalmente encontrar a forma que aceita se encaixar perfeitamente em si, por livre e espontânea vontade. Ele então se completa e sai rolando por aí a toda a velocidade… Mas será que se sente inteiro?

Corta pra quinze anos atrás.

Um grupo de amigos sentado em um bar no Pátio de Santa Cruz no Recife, comenta a matéria que havia sido manchete do Diario de Pernambuco daquele domingo. Era algo como “Um terço dos casamentos acaba em divórcio em menos de XX anos” (não lembro quantos). Um dos rapazes lamentava profundamente o que, para ele, era o sintoma de uma derrota coletiva. Eu, por outro lado, estava exultante. “Cara, isso é ótimo! Quer dizer que as pessoas não se sentem mais obrigadas a ficar com quem elas não querem só por convenção social. Divórcio pode ser libertação.”

Ainda penso assim e me atrevo a dizer que o círculo incompleto também. Ele finalmente percebe que sua maior satisfação estava na busca, e não necessariamente no encontro, embora ele tinha tido sua importância. No fundo, A parte que falta falou para tantos adultos como a Jout Jout e sua audiência porque ele coloca de maneira muito simples o que deveria ser óbvio, mas acaba escamoteado por um ideal hegemônico de amor romântico: tudo bem ficar sozinho, tudo bem se unir e se separar; procurar pode ser mais divertido que encontrar e, acima de tudo, o que importa nos relacionamentos é o profundo respeito a si mesmo e aos outros.

 

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(1) O tempo todo durante a leitura me lembrei de um clássico poema de Gregório de Matos, em especial desse trecho: Mas se a parte o faz todo, sendo parte,/ Não se diga, que é parte, sendo todo. Veja na íntegra aqui.

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