A linguagem da resistência

“A descoberta de um grande escritor de alguma maneira modifica tudo o que sabíamos ou acreditávamos saber; seus livros estavam, desde sempre, à espera, e nos sentimos meio bobos por chegar tão tarde ao seu encontro.”

É assim que o chileno Alejando Zambra abre o prefácio à nova edição brasileira do romance Léxico familiar, de Natalia Gizburg, publicada neste começo de ano pela Companhia das Letras. E é assim, meio bobo, que cheguei ao fim da leitura e da descoberta de uma autora que esteve sempre aí, à disposição. E que nunca tinha lido, por esses descuidos da vida.

LéxicoE não foi por falta de estímulos. Lembro de seu nome circulando nos anos 1980, quando ainda viva, com romances como Caro Michele e inúmeros ensaios sobre literatura fazia a cabeça de uma galera considerável na PUC-SP. E, mais recentemente, quantas referências a ela surgiram nos incríveis Cafés Ferrante, promovidos  pela turma do #LeiaMulheres em torno da Série Napolitana,  de Elena Ferrante, que tanto sucesso anda fazendo.

Léxico chegou ao Lombada pela parceria com a editora e já é uma paixão à primeira leitura. O que significa que terei de fazer como Zambra e mergulhar sem moderação no que puder ler da obra de Natalia. Paixões literárias à parte, vamos ao romance?

A escritora italiana abre o livro com uma breve advertência ao leitor, da qual destaco estes trechos:

“Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada: e toda vez que, nas pegadas do meu velho costume de romancista, inventava, logo me sentia impelida a destruir tudo que inventara.

(…)

Devo acrescentar que, no decorrer de minha infância e adolescência, propunha-me sempre a escrever um livro que contasse sobre as pessoas que viviam, então, ao meu redor. Este, em parte, é aquele livro: mas só em parte, porque a memória é lábil, e porque os livros extraídos da realidade frequentemente não passam de tênues vislumbres e estilhaços de tudo o que vimos e ouvimos”.

Essa advertência traz em si o grande tema do livro: a memória e seus meandros marcados pelo esquecimento, pelas lembranças fortuitas, pela escolha de um lado, uma visão de mundo. E, neste caso, a memória como fator de resistência.

E aí começa a aventura de Natalia e sua família, de sobrenome Levi, na Turim do começo do século XX. A grande surpresa, para o leitor, vem com o caráter coloquial, singelo, de certa forma naïf do texto. A narrativa começa sob a perspectiva de uma garota de 10 anos e sua vida em uma família pequeno-burguesa, judia, na Itália do pós 1ª Guerra, já sob a sombra do crescimento do fascismo, que irá mergulhar o país em sua maior e mais duradoura tragédia.

Mas o que vamos ler é uma história do cotidiano, repleta de relatos que por vezes parecem banais, como os hábitos alimentares da família Levi, o modo como passam os fins de semana escalando montanhas nos Alpes italianos, suas dificuldades financeiras, o regime austero e a rigidez e os modos broncos do pai, um famoso biólogo, professor e pesquisador, os devaneios da mãe, uma flaneur assumida, presa à dura lida doméstica, com cinco filhos de variadas idades e um marido irascível, por vezes racista, sempre machista.

É nesse quadro familiar que Natalia vai tecendo uma trama de relações dos Levi. Amigos dos principais líderes socialistas de então, abrigam em sua casa intensos debates, recebem vizinhos e militantes antifascistas das mais variadas origens. E, à medida que o novo governo, agora sob o comando de Mussolini, aperta o cerco contra os oposicionistas, a agitada casa da família também se torna refúgio para quem busca atravessar a fronteira e fugir da inevitável prisão.

Natalia, a menina, vai crescendo. A narrativa mostra como ela vê o ingresso dos irmãos na vida adulta, casamentos, prisões, nascimentos dos primeiros sobrinhos, os acessos de fúria do pai, a placidez da mãe. Em tudo isso, há uma imensa carga de nostalgia pelos velhos tempos, em que a sombra da perseguição e da morte não pairavam sob aquele mundo que sua família construiu. Sim, já havia antissemitismo, mas a bolha criada pelas famílias judaicas nas grandes cidades italianas parecia ser uma redoma inquebrantável de proteção. Alguns sentiram o perigo e foram para a “América”, para a Argentina ou compraram terras na Palestina, sonhando com o Estado judeu que ainda demoraria a chegar. Mas a imensa maioria ficou à mercê do horror, das prisões e das deportações para a Alemanha.

Natalia é uma narradora quase oculta nessa saga familiar. São raras as vezes em que fala de si mesma. Entre os tantos acontecimentos de uma família com milhares de histórias, conta com incrível concisão fatos marcantes de sua vida, como o modo como conhece o marido, Leone Ginzburg, famoso ativista antifascismo, o momento em que nascem os filhos, o impressionante e brevíssimo relato da morte de Leone no cárcere, durante a guerra, e a discrição com que relata o início de sua brilhante carreira na editora Einaudi, onde viria a formar trio com Cesare Pavese e Italo Calvino, tornando-se ela uma referência fundamental para a vida intelectual da Itália ao longo do século XX.

Não se trata de um exercício de modéstia. Léxico familiar é um livro de micro histórias do cotidiano, estilo que se tornaria também a marca registrada da obra de um de seus filhos, o historiador Carlo Gizburg, autor, entre outros, do célebre O queijo e os vermes. Em Léxico, escrito e publicado no começo dos anos 1960, Natalia faz desse relato das pequenas histórias de sua família um contraponto à grandiloquência do que acontece na esfera pública daqueles tempos. O fascismo, a guerra, o Estado onipresente confrontados por aquele léxico dialetal de uma família que resiste mantendo suas tradições, fazendo do seu dia a dia um foco de preservação de uma vida “normal”, que educa seus filhos dentro de uma perspectiva humanista. O judaísmo não aparece nesse ambiente agnóstico. O que se vê é a sólida base cultural e política que seus pais e o circulo de amigos e familiares conseguem construir, mesmo com os defeitos hoje imperdoáveis do forte machismo e racismo presentes nos pensamentos e palavras da figura paterna.

Não por acaso, poemas, ditos populares, modos de falar e repetir incessantemente histórias do passado dão o tom da escrita, repleta de frases por vezes chulas e sem muito sentido, mas que fazem parte desse arsenal de familiaridade, uma espécie de repertório de conforto. Isso se releva todas as vezes em que Mario, o irmão mais velho, já morando em Paris e se sentindo um francês, vem a Turim e as conversas e brincadeiras no mais mundano dos dialetos brotam com espontaneidade e com força entre os irmãos, com o pai sempre gritando:

– Já escutei essa história mil vezes! Vocês são todos burros. Burros é que são!

A leitura de Léxico familiar vai nos obrigar a abrir um espaço considerável na letra G das prateleiras de nossa biblioteca. Pois vou ler tudo o que puder de Natalia Ginzburg. E jogou ainda mais luzes sobre a obra de Elena Ferrante e me trouxe o seguinte pensamento: “burrinho, você não sabia nada da série Napolitana antes de ler Ginzburg”.
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