Menino no presente

Menino sem passado, o primeiro volume das memórias de Silviano Santiago, romancista, poeta, crítico literário e professor de literatura, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras. Um catatau de 458 páginas que aborda os primeiros 12 anos da vida de Santiago, passados entre Formiga, sua cidade natal, e Belo Horizonte, capital do Estado. E aí fica a pergunta: porque diabos queremos saber como foi a infância de um escritor? A resposta vem na leitura e, claro, no manejo que esse escritor fará da narrativa.

Na capa, bela reprodução de um desenho de Jean Cocteau

Não vamos enfrentar uma sucessão de datas e acontecimentos banais em uma sequência cronológica e autorreferente, sem interesse algum para qualquer leitor que não seja da família do autor. O que vem pela frente é uma profunda reflexão humanista, que mistura cinema, HQs, música, literatura e filosofia com os acontecimentos que chacoalhavam o mundo entre 1936, ano de nascimento de Santiago, e 1948, quando esta primeira parte da narrativa se encerra, com pequenos avanços temporais para o tempo em que o jovem Santiago fazia mestrado em literatura francesa na Sorbonne, em Paris.

Silviano faz duas apostas ousadas para narrar sua infância. A primeira é criar um narrador que se distância de seu “menino”. Em terceira pessoa estabelece uma barreira a voz narrativa e o menino de sua infância. E escolhe o presente do subjuntivo para falar do passado falando de um menino sem passado, porque toda sua prosa decorre no tempo presente, como se estivéssemos acompanhando cada passo do garoto e de seus familiares em tempo real.

Nessa viagem, Santiago nos transporta à geografia da pequena cidade do oeste mineiro. O traçado sinuoso das ruas do centro de Formiga e a lenta vida na província são o pano de fundo para uma colcha de retalhos que vai se compondo a cada capítulo, com idas e vindas temporais e repetições sistemáticas de pequenas histórias da infância de Santiago que ganham novas camadas de informações a cada vez que aparecem. E não tem nada de monótono nessas repetições que parecem circulares mas formam uma espécie de espiral evolutiva a cada novo enxerto narrativo, que espelha, na prosa de Silviano o mesmo capricho com que seu pai, em certa altura da vida forminguense cuidou de roseiras que enfeitavam a entrada da vistosa casa no número 31 da rua Barão de Pium-i, onde a numerosa família do menino viveu a primeira parte da infância do escritor.

Era um casa movimentada, por vários motivos. Chegou a abrigar pai, mãe, depois madrasta e 11 filhos, 7 do primeiro casamento e 4 da segunda união do patriarca, que provocava ainda mais movimento por ter seu concorrido consultório odontológico na parte frontal da propriedade.

Muito cedo, com pouco mais de um ano de idade, o menino perdeu a mãe, morta em decorrência de complicações no parto do sétimo filho. Eclampsia, uma palavra que assombraria a vida por anos a fio. Nessa casa agita, um pai rígido nos costumes e severo na educação, mas incapaz de dar atenção a tantos filhos, vai se formando uma pessoa introspectiva e reflexiva. Silviano vai crescendo erraticamente à base de leite de cabra, consumo desenfreado de gibis de aventuras e sessões de cinema nas matinés com filmes que traziam o esforço de propaganda estadunidense para o grande evento que mobilizava o planeta naqueles tempos: a 2ª Grande Guerra.

Santiago recheia a narrativa com referências à cultura dos quadrinhos e a obsessão pelos heróis da guerra. Em uma das passagens da narrativa, narra com incrível emoção a partida de jovens formiguenses que iriam se juntar aos expedicionários na campanha da Itália. Entre eles, um primo distante e rejeitado pela família. Aliás, é a partir desse relato que vamos descobrindo as origens e ligações da família com o mundo da política e da cultura. Avôs de sangue desconhecidos, avôs de estimação mais próximos. Um casamento forjado quase na base de um rapto de uma moça casada em outra cidade mineira, o que levou a história da família à Formiga natal de Silviano, uma madrasta vinda de longe, com a marca de uma grande falência familiar em um dos centros de produção de café do Sul de Minas, devastado pela crise de 1929 e pelos atropelos de um fazendeiro tresloucado.

Irmãos, meio-irmãos, uma figura feminina servindo de mãe postiça entre a viuvez e o segundo casamento do patriarca, uma casa intensamente povoada mas marcada pela ausência de comunicabilidade. Todos os perrengues de uma infância em uma família de posses modestas, mas tradições políticas arraigadas em várias regiões do interior mineiro. E, nas poucas amizades da vida em Formiga, destaca-se a presença de um futuro craque do Clube de Regatas do Flamengo, até hoje o terceiro maior artilheiro da história centenária do time, Henrique Frade.

A infância do menino sem passado vai chegando ao fim quando a família se muda para Belo Horizonte, onde o pai empreenderá abrindo uma famosa loja de produtos dentários. Ali, começa a transição do garoto amuado e circunspecto para um rapazote que entrará na adolescência fascinado pelos cineclubes, por filmes europeus e por literatura francesa, já adiantando cenas dos próximos capítulos, ou, na verdade, do segundo volume, que deve trazer as memórias a partir do ano de 1948, onde acaba esta primeira parte.

Entre as muitas qualidades literárias, Menino sem passado faz uma infinidade de conexões da vida do garoto com referências culturais que formarão o futuro escritor e crítico literário. O misterioso e louco tio Mário, em narrativa paralela com Mário de Andrade, exemplifica o jogo de espelhamento que Santiago vai fazendo em toda a obra, obrigando o leitor a ficar atento a citações que permeiam o livro.

Menino sem passado é mais um dos volumes de memorialística que caíram em minha lista de leitura um tanto por acaso nos últimos anos, mostrando que o gênero produz obras de grande potência literária, a começar pelo fascinante Léxico familiar, de Natália Ginzburg, o melhor de todos, passando pelos Diários de Emílio Renzi, do genial argentino Ricardo Piglia, o incompleto e ainda assim incrível Um esboço do passado, que revela as entranhas da criação literária de Virginia Woolf e terminando, nas leituras recentes, nos diários de um grande procrastinador, no tijolaço de 680 páginas de Mario Levrero e seu Romance luminoso. São, todos, exemplos de que memórias não precisam vir recheadas de fofocas e histórias desinteressantes feitas para lustrar o ego de seus autores. São pura literatura.

P.S.: na foto que ilustra a resenha detalhe de uma das reproduções de HQ que Silviano lia em sua infância formiguense.

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