Por que ler Elena Ferrante?

Sim, o Lombada Quadrada sucumbiu à #FerranteFever.

Primeiro foi Carlos a ler A amiga genial de uma tacada só (confira a resenha aqui), emitindo “ah’s”, “oh’s” e “tu precisa ler isso!’s” a cada 10 minutos mais ou menos. Então – que jeito? – li o primeiro número da Série Napolitana na maior má vontade, provocada, é claro, pelo hype global. Achei meio naïve, mas de qualquer forma divertido; legal no conjunto, mas nada de extraordinário. Então foi desarmada, mas ainda não convencida, que parti para A história do novo sobrenome, e depois emendei quase direto História de quem foge e de quem fica. Aí a coisa mudou de figura.

img_20170118_202140592A chave do sucesso da Série Napolitana é sua aparente simplicidade. Linguagem cristalina, enredo de telenovela e twists de roteiro dignos de qualquer sucesso ficcional. Porém, é um texto que também enseja múltiplas camadas de leitura, cujo alcance vai depender do conhecimento prévio do leitor sobre determinados assuntos. Se você só quiser ler o novelão, ele está lá sentado no seu colo. Se estiver de antena ligada para os efeitos da Segunda Guerra Mundial na sociedade europeia,  vai encontrar inúmeras referências. Se está interessado no embate entre fascismo e comunismo, divirta-se. E se estiver a fim de se imbricar nas questões do feminismo… menina, nem te conto.

Pra quem ainda não sabe, a série acompanha a vida de duas garotas criadas na periferia de Nápoles desde a infância, no pós guerra, até a velhice, nos dias atuais. Depois da leitura do segundo e terceiro livros da série, entendi que a aparente ingenuidade de A amiga genial faz parte da construção da história: a frivolidade do texto funciona como um espelho da infância e adolescência de Lina e Lenu. À medida em que elas crescem, os livros vão ficando também mais complexos, mas sempre carregados com a visão de mundo e com as dúvidas das personagens em seus diferentes momentos de vida.

Assim, Elena Ferrante passa bem longe do didatismo que poderia enfraquecer a obra e subestimar o leitor. Ao mesmo tempo, sua técnica permite uma visão multifacetada dos assuntos tratados no livro pois, embora tenham a mesma origem humilde, os destinos de Lina e Lenu se separam na juventude. Suas histórias pessoais e temperamentos vão definindo a forma com que apreendem o mundo a seu redor, e é pelo olhar delas que enxergamos os embates sociais e ideológicos que contextualizam os momentos de suas vidas.

[Spoilers de leve a partir deste ponto]

Essa construção é muito clara com relação, por exemplo, à questão de gênero. A intempestiva Lina tem uma visão empírica bastante acurada das desigualdades entre homens e mulheres, sem que tenha discutido ou lido sobre o assunto. Já Lenu, que segue nos estudos e desenvolve vida acadêmica, aprende sobre o feminismo a partir dos livros, das conversas com as colegas e da participação em rodas de discussão, ainda que sua própria experiência também seja recheada de misoginia. Por vezes, ela precisa aprender de outros as coisas que para a amiga são muito óbvias, ainda que Lina não as elabore.

O mesmo acontece com relação às condições de classe operária. Enquanto Lenu e seus amigos estudantes militam em organizações de esquerda, mesmo levando uma condição que está mais pra burguesa, Lina vive a opressão patronal na pele e encontra meios só seus de enfrentá-la. Assim, o livro nos oferece o conflito entre prática e teoria dentro do contexto da história, evidenciando as diferenças entre a aquisição da consciência política das duas personagens, sem nenhum academicismo. Ao mesmo tempo, reafirma algo importante sobre o caráter de cada personagem e sobre a amizade controversa que elas mantém.

[Fim dos spoilers]

A Série Napolitana traz também uma dezenas de histórias paralelas de personagens secundários, alguns tão interessantes quanto Lina e Lenu. A vida de cada um deles tem algo a acrescentar ao panorama dessa Itália (e desse globo) em rápida transformação. O leitor cresce e muda junto com todos esses, numa obra que justifica plenamente toda a reverência que tem recebido no mundo inteiro.

Se interessou? Comprando pela Amazon nesse link, você ajuda a manter o Lombada Quadrada: Série Napolitana de Elena Ferrante.

Anúncios

3 comentários sobre “Por que ler Elena Ferrante?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s