6 pistas para descobrir quem é Elena Ferrante

elena-ferrante-2Elena Ferrante chegou ao Lombada Quadrada pelo boca-a-boca feito nas redes sociais. Alguns amigos falando de sua obra e muita gente em busca da verdadeira identidade, ainda secreta, da autora. Há quem diga que é um homem que escreve os livros sob o pseudônimo de Ferrante. Um jornalista sustenta ter descoberto uma tradutora italiana, de origem tedesca, como a verdadeira Elena.

Claro que a curiosidade é grande. Manter um mistério como esse em plena era das redes sociais é um feito da editora e da autora e só por isso eles já merecem um prêmio.

Mas, mexericos à parte, o Lombada foi à leitura para sacar qual é a de Elena Ferrante e, o que mais importa, se os livros são bons.

O começo foi pelo primeiro livro da tetralogia Napolitana, que anda arrebentando nas listas de mais vendidos.

Mergulhei em A amiga genial, e não conseguia parar. Renata me pegou lendo em pé, caminhando com o livro aberto, aproveitando os últimos segundos de meia luz antes da sessão de cinema, o momento derradeiro para sair do vagão de metrô antes da porta fechar. Ou seja, a prosa de Elena Ferrante confirma o que andam falando. Vicia.

É fácil de entender o porquê.

A linguagem é simples, direta. A narrativa é basicamente linear, sem  experimentalismos formais. E os acontecimentos se encaixam de tal forma que você sempre espera por um desfecho. No entanto, quando uma pequena aventura é finalizada, deixa outras pistas no ar. E você, leitor, cai que nem um patinho na trama. Quer por tudo nesse mundo saber o que vem pela frente. E assim, 330 páginas são devoradas como se não houvesse amanhã. E

A amiga genial é narrada por Lenuccia, apelido de Elena (oh!!!, santa coincidência) Greco, a protagonista da série, em um tom memorialístico. De cara, sabemos que a história é descrita por Lenuccia a partir de suas recordações, quando esta já passou provavelmente dos 60 anos de idade. Ela volta à infância para nos contar como foi sua vida em um subúrbio de Napoli, no pós-guerra. Situa sua família, conta como era a dura vida naquele pedaço esquecido da cidade, apresenta os vizinhos, os amigos e, sobretudo, nos fala de Rafaella, ou Lila, sua amiga mais do que especial. Sua amiga genial.

Se você quer saber mais de Lenu e Lila, de sua amizade inconstante, suas aventuras, leia o livro, pois não verá qualquer tipo de spoiler aqui. Da leitura, ficaram seis pontos fundamentais que podem ser parte da explicação para o livro não ser apenas um best seller com uma história bobinha de duas amigas inseparáveis. Vamos a eles.

  • O pós-guerra: na entrelinhas do texto, Elena Ferrante traça um quadro social, econômico e político de uma Itália em reconstrução, a partir da visão de quem está na periferia de um país dramaticamente marcado pelo fascismo, cujas feridas ainda estão abertas e onde todos tentam sobreviver a um passado recente, que lança suspeitas cotidianas em cima de cada família. A pergunta “o que você fez durante a Guerra?” está presente a todo momento. E o silêncio parece ser a melhor arma para se adaptar aos novos tempos. É o que vemos especialmente nas famílias mais abastadas do pobre bairro onde vive Lenuccia.
  • Uma homenagem ao realismo: durante a leitura de A amiga genial é impossível não lembrar da literatura e do cinema italiano. O realismo da literatura e o marcante neo-realismo do cinema da península estão presentes o tempo todo na prosa de Ferrante. Alberto Moravia, escritor e roteirista, Rosselini e sua Roma, cidade aberta, Os ladrões de bicicleta, de Vittorio De Sica e tantos filmes de Visconti, Rosi e outros diretores levaram para os livros e para as telas os dramas cotidianos de pessoas comuns, às voltas com estratégias de sobrevivência. A escritora emula nas páginas do livro o ambiente político e estético daquele período, em um registro mais simples e direto.
  • Violência cotidiana: a história de Lenu e seus amigos é também a história da violência cotidiana. Insultos, agressões, assassinatos. Tudo isso parece ser natural naquele pedaço de Itália em que não há presença do Estado e no qual impera a lei do mais forte. O agiota é quem detém o poder e dita as regras do bairro. E a desobediência custa caro. O exercício desse poder é familiar. Com a morte do patriarca, são os filhos e a viúva os herdeiros naturais do controle econômico da vizinhança. Em dado momento, a narradora pergunta se “a justiça não se realiza na porrada” definindo em uma pequena sentença o que é viver a violência.
  • O lugar da mulher: menos do que nada. Esse é o papel reservado às mulheres no bairro de Lenuccia. Desde menina ela entende que o espancamento de mulheres por maridos, noivos e irmãos é uma sina inescapável. Só estuda quem tem a permissão do pai. Os namoros são arranjos familiares destinados a tentar uma vida melhor e as meninas são entregues ainda adolescentes a casamentos movidos por interesse. 
  • Educação transforma?: no bairro existe apenas uma escola primária. E a educação é entendida como um luxo para poucos. Para romper essa barreira é preciso combinar um ótimo desempenho escolar com muita sorte, professores amigos e a aceitação dos pais. Lenuccia vê a escola como um lugar além de seu mundo, que pode lhe ajudar a contrariar o destino que lhe foi traçado ao nascer. Conseguirá fazer da educação um trampolim para outra vida? O preço a pagar é passar a não se entender com um mundo que ficará cada vez menor e mais limitado para seus horizontes que nem são tão ambiciosos assim. Poder ler romances, conversar com pessoas cultas e adquirir hábitos civilizatórios são os desejos mais imediatos da pequena Lenu.
  • Alienação e política: na periferia daquela Napoli não se lê jornais, não se tem ideia do que acontece na política e, como já vimos, o poder é exercido por meio da violência. Mas sempre há um operário comunista ou um artesão anarquista para fazer o contraponto. Em A amiga genial a consciência política é para poucos, como sempre costuma ser em qualquer lugar do mundo. Há um interessante debate no livro a respeito do acesso a um código praticamente indecifrável de leitura crítica do mundo, reservado a quem consegue ler em italiano formal e manter conversações que para a maioria são complexas, por não refletir a simplicidade do dialeto e o maniqueísmo da vida cotidiana, que separa quem manda de quem obedece, sem qualquer nuance.

Dá para perceber que você pode ler Elena Ferrante de duas maneiras?

Uma, é o mergulho direto em uma literatura que parece simples e banal. Você segue o fio da meada, se emociona com as descobertas da menina Elena Greco e, ao final do livro, entra na bolsa de apostas para descobrir quem é a autora que está por trás do pseudônimo.

Na outra leitura, você pode fazer tudo isso enquanto vai descobrindo as muitas camadas que o romance propõe ao leitores atentos.

Escolha e faça sua aposta.

 

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P.S.: a imagem que abre é parte de exposição Pling Pling de Cildo Meireles, realizada em 2014 na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

 

4 comentários sobre “6 pistas para descobrir quem é Elena Ferrante

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