Simpatia pelo demônio

“O maior problema do trânsito são os outros motoristas”, disseram os ingleses em uma pesquisa não muito recente sobre o tráfego londrino. Provavelmente os condutores britânicos não se deram conta da ironia contida em sua percepção: se os outros são realmente o problema, não se pode esquecer que cada um de nós se insere no conjunto “os outros” de todo o resto do mundo. Daí que essa inocente pesquisa sobre o trânsito tem como resultado praticamente uma reinterpretação pós-moderna da célebre frase “o inferno são os outros”, do filósofo francês Jean Paul Sartre, que então se referia à tensão provocada pela impossibilidade de controlar as liberdades daqueles que nos rodeiam, ao mesmo tempo em que essa liberdade é absolutamente necessária à condição humana.

É essa tensão com relação ao outro que está no cerne de Simpatia pelo demônio, novo romance de Bernardo Carvalho lançado pela Companhia das Letras. Um livro que pode ser lido em duas camadas principais: a primeira, a história superficial do funcionário brasileiro de uma agência humanitária que relembra os momentos de sua paixão por um neurocientista mexicano enquanto está às voltas com uma missão secreta para resgatar um refém desconhecido no Oriente Médio.

unnamedRato, o personagem narrador, está na meia idade e ainda não consegue lidar com as consequências desse relacionamento tóxico, um dos motivos que lhe fazem aceitar a tal missão misteriosa, ainda que ela lhe pareça suicida. As rememoração desse turbulento passado recente se dá enquanto ele se depara com uma ameaça de bomba (de verdade) durante seu trabalho – uma metáfora bem óbvia, reforçada por outras duas igualmente pouco sutis. Rato se especializou em terrorismo a partir do estudo do Mal; já seu amante tóxico estuda a disseminação do amor e dos bons sentimentos através do olhar.

No entanto, Simpatia pelo demônio pode ser lido em outro registro, bem mais complexo, e mais próximo do dilema sartriano. Rato – este é o apelido que lhe dá seu amante mexicano – é só ressentimento pelo que considera a manipulação sofrida ao longo desse relacionamento, ao mesmo tempo em que sente uma atração incontornável pelo rapaz. Este, por sua vez, mente, simula sentimentos que não tem, e age como um espelho do outro, projetando imagens rasas de expressões que não são suas, vazias e ainda assim atraentes ao objeto do reflexo. Rato, afinal, está vendo apenas a si próprio, como um narciso diante da iminência de afogar-se no lago.

A narrativa de Bernardo Carvalho nos dá acesso apenas aos pensamentos do Rato, e a conclusão mais simples é considerar seu amante um crápula. Aí reside a beleza da literatura e das possibilidades múltiplas de leitura. No fundo, o Rato não é muito diferente dos motoristas britânicos que consideram que o problema do trânsito são os outros. Ele, aliás, era casado com uma mulher quando começa a namorar o mexicano que, por sua vez, mantém (e continua) um relacionamento estável com um alemão. Mas as chaves para perceber as contradições do personagem não estão facilmente ao alcance de um leitor desatento, que tenderá a esta conclusão mais direta.

Pra começar, o grande personagem do livro não é um nem outro, mas a relação entre os dois, um terceiro ente formado por este encontro de contradições. Em dado momento, o Rato se ressente ao observar que seu amante parecia ser uma pessoa diferente com o seu companheiro oficial. Às vezes, ele tenta entender essas diferenças pela chave geracional, pois o mexicano é mais jovem, enquanto ele está entrando na meia-idade. Lá pelas tantas, descobrimos que essa tese é apenas cortina de fumaça – o mexicano é poucos anos mais novo, mas certamente não de outra geração.

“A intenção do texto literário não tem nada a ver com nossa experiência”, pensa o Rato em um dado momento, no que parece ser uma mensagem do escritor para os leitores. Não consegui chegar a uma conclusão muito clara sobre qual seria o recado, mas acredito que ao negar a relação entre o livro e a experiência pessoal do leitor, Carvalho parece alertar que sua história manipula os leitores a simpatizarem com o personagem que sofre por amor, rechaçando o outro como a própria personificação do Mal.

Mas, afinal, conclui o próprio Rato: “as contradições são sempre maiores que a consciência das contradições”. Ele se refere ao amante, mas a frase pode ser aplicada a si próprio e a nós, leitores.

Se simpatizamos com o demônio, quem, afinal, é o demônio?

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