Viagens literárias

Eu sou do tempo em que telefone era de disco, computador tinha tela verde e o jeito mais rápido de enviar mensagens escritas era o telegrama. Quando criança, meu sonho máximo de consumo era uma coleção completa da Enciclopedia Barsa. Tenho 36 anos e meus (ainda poucos) cabelos brancos já são testemunha de como a vida mudou com a internet e os smartphones.

Dentre todas as mudanças que eu poderia elencar, e são milhares ficarei com uma: a web pode ser um excelente meio de ampliar a experiência de leitura. Topou com uma palavra desconhecida? Achou uma citação legal e não sabe quem é o autor? Quer detalhes mais precisos sobre a obra que está lendo naquele momento? Não sabe onde fica a cidade onde se passa uma história? Tá lendo no busão e quer saber como é aquela ruazinha mencionada no meio do parágrafo que você acabou de ler? Pois é.

Eu tinha o hábito de fazer consultas eventuais à internet enquanto lia, mas foi com Flush (Virgínia Woolf) nas mãos que me dei conta de como essa possibilidade é fascinante. Bateu a curiosidade e, em menos de um segundo, pude “visitar” o número 50 de Wimpole Street, em Londres, via Google Maps. Pude ver na telinha do celular, no meio do busão em São Paulo, a casa exata onde se passa o icônico romance narrado do ponto de vista de um cocker spaniel.

Desde desse dia, fui colecionando mais alguns outros exemplos para compartilhar com neste post. Inclusive (e principalmente) porque essa possibilidade abre uma discussão interessante. Muito embora possa ser ambientada em lugares reais, a ficção ocorre em outros espaços, existentes apenas no contexto daquela obra. O que é “real” e o que é “invenção” não importa; dentro do romance, em sua verossimilhança interna, tudo é real – até quando o mestre Google diz o contrário.

Portanto, a brincadeira aqui proposta é fruto de mera curiosidade e em nenhum momento pretende fazer um confronto entre a literatura e a cartografia convencional. O mapeamento aqui é outro – inteiramente exploratório, anárquico e ficcional à sua própria maneira. Afinal, e internet à parte, é a relação do leitor com a obra que constrói a realidade do livro.

A casa de Flushscreenshot_2016-08-31-07-34-20
O sobrado número 50 da Wimpole Street, em Londres, é descrito em detalhes por Virgínia Woolf. A rua é retratada como uma ilha de riqueza em meio a uma metrópole cheia de desigualdades, em que a violência ronda a esquina. A dona de Flush era a poeta Elizabeth Barret Browning que, doente, enfraquecida e dominada pelo pai, mal deixava a casa. O livro foi escrito por Virginia Woolf com base em textos publicados ou deixados por Elizabeth em diários e correspondências, em que ela falava de forma recorrente sobre o seu cãozinho. Quase um romance histórico, Flush toma emprestado para sua narrativa o endereço real de seus personagens.

 

 

O Liceu de Elena Greco
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A ida da personagem Elena Greco ao Liceu é um dos pontos cruciais do romance A amiga genial, de Elena Ferrante. Na Itália do pós-guerra, a periferia empobrecida de Nápoles é a casa de pessoas sem esperança, que se comunicam principalmente por meio da violência. Lenù é estimulada a continuar seus estudos numa época em que ninguém via muita serventia numa mulher inteligente. Procurei essa imagem quando dei com o trecho em que ela vai conhecer sua futura escola. Vimos juntas esse edifício enorme e paquidérmico bem no Centro de Nápoles, e que ainda funciona como um Liceu.


A esquina de A Resistência  
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No romance A resistência, uma autoficção, o narrador criado por Julián Fuks retorna ao apartamento da família em Buenos Aires, no cruzamento das Calles Junín e Penã, para caçar referências ao seu passado. Aquele foi o último endereço dos pais e do irmão adotivo do personagem principal antes de fugirem para o Brasil, empurrados pela ditadura de Pinochet. Em uma das esquinas há uma pizzaria – em qual das outras três seria o prédio em questão? Fuks fala que havia dois prédios iguais, lado a lado, mas não o encontrei. Há várias Junín em Buenos Aires, será que acertei? Será que a esquina existe, como descrita, ou é também parte do jogo da autoficção?

O sobrado dos libaneses no interior de São Paulo screenshot_2016-09-13-20-20-51

A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf, é o livro de alguém que herdou o desterro – tema que, aliás, tem sido recorrente nas minhas leituras recentes (vide tópico anterior). Nascido em São Paulo, o narrador busca de compreender sua identidade a partir das referências culturais e afetivas de seus antepassados libaneses – principalmente o avô, morto antes dele nascer, mas a quem “visita” no sobrado em que morou em Santa Bárbara D’Oeste, no interior de São Paulo, e à qual se refere com endereço completo. A casa mencionada, palco dessa bela narrativa onírica, é essa aí. Ou não. Veja a resenha completa.


Luanda ao longe
José Eduardo Agualusa não menciona ruas específicas em Teoria geral do esquecimento, mas mesmo assim senti a necessidade de conhecer Luanda, mesmo que de longe, à distância de um satélite. Tendo nascido no Recife, a presença do mar e de sua relação com a cidade pautam quase que integralmente minha percepção do espaço urbano – inclusive pela ausência, como é o caso de São Paulo. Interessante que o livro não faz referência à praia. A Luanda desse romance é claustrofóbica como o cotidiano da personagem portuguesa que se emparada em um apartamento para não ver a revolução. Ou assim me lembro. A resenha completa está aqui.

Luanda 2

O porto de Moby Dick
A ilha de Nuntucket, na costa leste americana, monopoliza todo o início do clássico de Herman Mellville. Via Google Maps, tentei identificar se a vilinha tinha alguma referência direta ao livro. Não achei nenhuma Melville ou Ahab Street, mas tinha uma Whale Street – que pode ser uma alusão não ao texto literário, mas à atividade econômica da ilha quando o livro foi escrito. De qualquer forma, se você não pretende visitar Nuntucket, pode dar um rolê virtual via Google Street View – mas, sinceramente, os primeiros capítulos de Moby Dick entregam uma cidade muito mais vibrante.

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O convento de Mafra
José Saramago dedicou à construção deste edifício um romance inteiro, o  excelente Memorial do convento. Provavelmente, muitos turistas vão à Mafra só por causa do livro – Carlos fez isso e o resultado, segundo ele, foi a visita (compulsoriamente) guiada mais chata da história. Escrevendo novamente sobre o convento em Viagem a Portugal, o próprio Saramago alerta que não vale a pena ir até lá. Safadinho. Então, sigamos a dica do escritor e fiquemos no Google Maps. Além da fachada, claro, descobri com essa busca que a ferramenta também mostra pra gente as plantas baixas de cada pavimento. Fiquei alguns minutos tentando identificar a grande rocha colocada no alpendre.

 

A casa inexistente do leopardo das neves
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Às vezes procuro referências no Google Maps mesmo quando conheço a vizinhança mencionada no livro. Aconteceu com A tristeza extraordinária do leopardo das neves, de Joca Reiners Terron, um romance policial e fantástico que se passa no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo. A casa 905 da rua Talmud Thora é o  foco principal da trama. Aparentemente, o endereço não existe (ou eu sou uma detetive virtual muito ruim). De qualquer forma, o que vale é a ambientação, já que a presença judaica no bairro – cada vez mais coreano – desempenha um papel bastante importante na narrativa. Fiquem então com a sinagoga localizada nessa rua.

 

screenshot_2016-09-28-21-34-04Macondo?
A cidade de Macondo não existe, a não ser na criação de Gabriel García-Marquez em Cem anos de solidão. Mas já que podemos procurá-la com uns cliques, só pra ter certeza, por que não? Achei o que aparentemente é uma localidade no interior da Colômbia (nem dá pra chamar de vila). E só de brincadeira, pedi pro Google marcar como seria o percurso até lá saindo de São Paulo, de carro – o resultado é a imagem em destaque nesse post.

E você? Já fez uma viagem semelhante? Conta aí nos comentários.

 

 

 

 

 

 

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6 comentários sobre “Viagens literárias

  1. Sensacional!!! Eu faço bastante isso haha Lembro que meus primeiros romances a despertar essa curiosidade e usar o google maps foram os de Sherlock Holmes, amava sair pelas ruas citadas nos romances e nos contos e imagina-los andando por lá. Depois disso, virou mania.

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Coincidência ou não, achei seu post ao fazer o mesmo tipo de pesquisa, no meu caso foi com A Amiga Genial.
    Comecei a fazer essas viagens literárias (pena q só virtualmente, por enquanto) com A Sombra Do Vento, em que Barcelona é praticamente uma personagem da história. Quase todos os lugares citados existem, ta tudo lá.

    Curtido por 2 pessoas

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