O perigo do esquecimento

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Li na edição para Klindle, da Editora Rocco, com tradução de Herbert Daniel e Cláudio Mesquita e excelente pósfácio de Bernardo Ajzenberg
Se você já leu mais de um livro de Patrick Modiano, sabe do que se trata. Se leu três ou mais, sabe ainda melhor. Modiano vai ambientar seu romance durante a segunda guerra, embora a guerra, em si, não esteja presente. Haverá personagens de origem judaica. E o holocausto não será tratado de forma explícita. Mas é um tema a pairar sobre toda a narrativa. Falando assim, parece que estamos tratando de um escritor sem ideias. Pois, é justamente essa obsessão do escritor por esse período da história mundial, e da França ocupada pelos nazistas, em particular, que lhe dá um incrível repertório de ideias. E de livros que nada tem de parecidos entre si.

As ruas de Roma é o terceiro romance que li do Nobel de 2014, Patrick Modiano. Meu primeiro contato com a obra do francês foi com Ronda da noite, um dos livros mais famosos de Modiano. Leitura que me levou a  Avenidas periféricas um impressionante retrato noir do período da guerra.

A surpresa em Ruas de Roma está na presença absolutamente marginal do tema da guerra. E para entender que o personagem principal pode ser de origem judaica você precisa de um certo esforço. Não se trata de um spoiler, porque esse é um dado absolutamente dispensável na trama. Estamos falando de um livro que trata de memória. Ou do risco da ausência, do esquecimento.

E não é necessário passar do primeiro capítulo para entender que o protagonista da história é um sujeito que sofre de uma apagão de memória, daqueles que faz com que o todo o passado seja varrido. E uma nova vida tenha de ser construída.

É o caso de nosso narrador. Guy Roland construiu uma nova identidade ao ser acolhido por Hutte, um prestigiado detetive particular parisiense, no começo dos anos 1960. O romance começa quanto Hutte fecha seu escritório para viver a aposentadoria em Nice. É neste momento em que Guy, agora sozinho na capital, vê sua crise de identidade vir à tona. Até então, dedicado a auxiliar o detetive, sofria lampejos de aflição por não conseguir lembrar do passado e, essencialmente, ser um homem sem história, sem laços familiares, sem amigos. E a obsessão por conhecer sua origem, entender quem foi até o possível trauma que lhe zerou o HD cerebral, torna-se central e Guy parte em busca dos rastros que sua figura alta e marcante deve ter deixado no passado.

Não tem pistas, exceto por alguns flashs, que trazem à superfície nomes, ruas e situações. Mas parte para a investigação, usando os contatos e os conhecimentos adquiridos no tempo em que foi assistente do velho detetive que o acolheu. E ainda conta com a ajuda deste e de sua rede de espionagem.

Seguindo as pistas, Guy Roland, vai nos guiando por um labirinto de referências. Parte de uma foto, que mostra pessoas em uma festa de imigrantes russos, para chegar à figura de um tal de Pedro McEnvoy, funcionário da embaixada de um país centro-americano, que ajuda pessoas perseguidas pela Gestapo a conseguir passaportes falsos para fugir da França. Também chegamos a Jimmy Stern, igualmente ligado aos esforços para a fuga. Sendo que este, com sobrenome evidentemente judaico, também busca fugir, não sozinho, mas na companhia de uma misteriosa namorada.

É o mistério, aliás, que marca forte presença nas histórias de Modiano. Personagens que perambulam pelas noites escuras, nos cantos mais escuros das cidades, em uma narrativa francamente noir. São pessoas sem um trabalho definido, que parecem sempre estar em fuga. Seja porque fugiram das perseguições no leste europeu, seja por terem se tornado párias em um país ocupado pelos nazistas.

Uma rua de Roma é essencialmente um livro sobre o perigo do esquecimento. A busca de Guy (Ou Pedro? Ou Jimmy?) pelos fios de lembrança que podem reconstituir seu passado é também um alerta para que não nos esqueçamos do que aconteceu durante a II Guerra.

Se o holocausto, como disse, não está explicitamente citado, paira sobre toda a obra. E se a questão judaica não aparece diretamente, é a perseguição a Stern e seus amigos que mostra o peso do extermínio que está em curso naquele momento da narrativa.

Modiano também parece deixar sempre um alerta, inclusive para os que como ele são judeus. Não esqueçam o que aconteceu. E jamais reproduzam a perseguição e o preconceito. Recados que muitos, hoje, em Israel, não parecem entender. Sem falar daqueles judeus que acharam “normal” levar um notório facista para dentro de seus clubes e entidades. Está aí o perigo da perda da memória. Ou do uso cada vez mais frequente da memória seletiva.

Outro traço comum aos livros de Modiano é o incrível detalhismo geográfico inserido em suas narrativas. Os percursos dos personagens são detalhados com precisão. Nomes de ruas, paisagens, prédios. Basta dar um clique e conferir no Google Maps. E está tudo lá, transportado das ruas francesas dos anos 1940 para os mapas de hoje. Isso lembra o post de Renata sobre viagens que fazemos através dos livros.

Já cheguei ao terceiro Modiano. E logo voltarei aqui para contar sobre os próximos. Há quem o considere um autor sombrio e hermético. Seus romances são curtos, mas difíceis. Exigem do leitor uma atenção constante aos detalhes. E, embora tenham uma linearidade, há sempre um jogo com o tempo, como é o caso de Uma rua de Roma, em que as andanças de Guy Roland são constantemente interrompidas por regressões temporais, pensamentos aleatórios. Como se estivéssemos junto com o personagem montando o intrincado quebra-cabeças que é seu passado apagado da memória.

Um livro para lembrar que não podemos esquecer.

P.S.: a obra que ilustra o post é Qual a matéria do sonho?, de Gustavo Rezende, que fotografei em setembro de 2017 no MAR – Museu de Arte do Rio.

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