Blade Runner: o livro que deu origem aos filmes

Tomei um susto quando vi Harrison Ford dando entrevista ao Fantástico ao lado de Ryan Gosling, dias atrás, sobre o lançamento de Blade Runner 2049. Eu não tinha a menor ideia de que este filme estava sendo feito, menos ainda de que já estava pra ser lançado. É claro que a novidade me causou comoção. O Blade Runner original, de 1982, é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos – pra que mexer com que já tava bom? Mas aí a curiosidade falou mais forte e encarei a continuação com boa vontade. Não me arrependi.

androides.jpgSe não é tão incrível quanto o primevo, Blade Runner 2049 também não faz feio. Pra completar, teve o grande mérito de me estimular a rever o filme original de Ridley Scott e – aqui entramos no tema deste blog – a ir atrás do livro que deu origem a ambos: Androides sonham com ovelhas elétricas?, do americano Philip K. Dick (1928-1982). Lançado em 1966, o romance teve muito de suas premissas preservadas no filmes. Já outras outras foram abandonadas sem dó nem piedade pelos diretores, em especial por Ridley Scott.

As escolhas do diretor, a depuração e aprofundamento que ele fez a partir da base proposta por Dick, ajudam a explicar porque Blade Runner se tornou um ícone do cinema de todos os tempos, embora o livro não tenha conseguido a mesma reverberação na literatura de ficção científica.

Neste post, o Lombada Quadrada apresenta semelhanças e diferenças entre as obras, para ajudar a situar fãs e curiosos interessados em entender a gênese de ambas. Afinal, essa é das coisas mais belas da criação artística – nunca terminada, ela se alimenta e retroalimenta da visão de outros artistas para criar novos sentidos. Assim, a leitura de Androides sonham com ovelhas elétricas? é altamente recomendada a quem gosta dos filmes.

[A partir deste ponto, o texto contém spoilers]  

 

A base narrativa é comum, com diferenças mínimas
No ano de 2019, na costa oeste dos Estados Unidos, o caçador de recompensas Rick Deckard é convocado pela polícia para localizar e aposentar (=exterminar) androides que voltaram à Terra depois de fugir de colônias em outros planetas, matando pessoas no processo. Nesse futuro projetado, os replicantes são força de trabalho essencial para a colonização do espaço, sendo utilizados como escravos. Os que fogem são do modelo Nexus 6 – humanoides aperfeiçoados a partir de modelos anteriores para raciocinar de forma mais parecida com os humanos, o que inclui a expressão de alguns sentimentos.

Para identificar quem é ou não androide, e evitar erros, os caçadores utilizam um método chamado Voight-Kampff, que testa as reações do indivíduo a partir de situações do cotidiano. Embora inteligentes, os androides se embananam quando o que está em jogo é a experiência ou códigos sociais. A fim de ter mais informações sobre o modelo Nexus 6 e calibrar seu teste, Deckard procura o fabricante. Aqui começam algumas pequenas diferenças: a Associação Rosen do livro vira Tirell Corporation no filme. Aparentemente banal, a mudança introduz à trama o elemento interesse comercial na exploração interplanetária.

Na sede da companhia, Deckard é recebido por Rachael Rosen, sobrinha do dono (no livro), ou simplesmente Rachael, assessora do proprietário (no filme). Ela se submete ao teste e Deckard descobre se tratar de um androide. Nessa cena, Ridley Scott manteve na íntegra um dos diálogos do livro, entre os personagens de Harrison Ford e Sean Young:

– Ao ler uma revistas você se depara com a foto de página inteira de uma garota nua. – Fez  uma pausa.
– Esse teste vai determinar se eu sou uma androide ou se eu sou lésbica? – perguntou Rachael, mordaz.

É neste ponto que o filme trilha um caminho ligeiramente diferente do livro; são mudanças às vezes sutis e que, no entanto, terminam trazendo à película a complexidade que o romance não alcança.

Memória é tudo
No filme, Deckard leva muito mais tempo do que o normal até chegar à conclusão de que Rachael é uma androide. Ela não sabe, e pensa que é humana. Reservadamente, Tyrell explica que ela é o exemplar mais avançado do modelo Nexus, no qual introduziu uma novidade bastante relevante: memórias implantadas. As lembranças introduzidas no cérebro biônico da replicante fazem com que ela emule experiências que não viveu, respondendo melhor a interações humanas complexas. Quando descobre que não é humana, ela fica devastada e, em dúvida sobre o resultado do seu teste, procura Deckard.

No livro, Rachael também é a androide mais avançada de sua geração e é igualmente submetida ao teste, porém ela tem plena consciência dessa condição. Os implantes de memória são uma novidade inteiramente criada para o filme, que então coloca grandes questões existenciais: se os replicantes são tão perfeitos em sua biologia, tão indistintos dos humanos e até capazes de expressar sentimentos, por que eles não poderiam ser considerados como tal? O que faz de um humano um humano, e o que lhe dá direito de explorar e exterminar outro ser vivo sensiente, ainda que artificial?

Não é que o livro passe ao largo dessas questões, mas Dick propõe essa discussão a partir da reafirmação da humanidade dos próprios humanos. Ridley Scott, por outro lado, faz a abordagem a partir dos replicantes, o que traz uma salutar ambiguidade à narrativa. A partir do momento em que se introduz a discussão sobre sua humanidade, é inevitável enxergar os androides como uma minoria explorada, discriminada e perseguida.

Aliado a isso, a postura deslocada dos replicantes atrai a identificação da plateia. Eles não sabem exatamente como agir e, tentando imitar o que vêem outras pessoas fazerem, se saem de forma totalmente desajeitada (quem nunca?). Pra mim, é especialmente tocante a forma meio tosca como Roy e Pris tentam se acarinhar.

Viver a vida
Outro avanço crucial do filme é a razão pela qual os replicantes voltam à Terra quando conseguem fugir do espaço. No livro, os replicantes constroem uma rede de apoio a outros replicantes, de forma a que vários deles conseguem se inserir socialmente e passar despercebidos. No filme de Ridley Scott, os androides vivem no máximo quatro anos. Inconformado com sua “morte” iminente, o líder da fuga, Roy, decide voltar à Terra para confrontar seu criador e tentar arrancar dele uma forma de aumentar sua longevidade.

Viver é o que move Roy e, se ele não tem memórias implantadas, tem suas próprias experiências de andanças interplanetárias, ainda que como escravo e num curto espaço de tempo. No excelente monólogo final do filme, é a isso que o personagem de Rutger Hauer alude – a essas experiências únicas, individuais, que bem ou mal moldaram sua personalidade e serão perdidas quando sua curta vida de replicante chegar ao fim. A fala de Roy cai sobre Deckard como uma epifania e ele volta pra casa decidido a fugir com Rachael, mesmo sabendo que ela é uma androide e que também não viverá por muito tempo.

A dimensão espiritual/religiosa
O encontro de Roy com Tyrell é uma invenção do filme – uma até bem óbvia, se lembrarmos que o confronto criatura x criador é arquetípico nas artes narrativas. Em Blade Runner, este encontro introduz muito suavemente uma alusão religiosa (Tyrell é o deus dos replicantes, por assim dizer), mas uma que se realiza extra-tela, na interpretação da plateia (ou da pentelha da blogueira).

Por outro lado, a espiritualidade e a religiosidade são itens essenciais de Androides sonham com ovelhas elétricas?. Dick descreve que a grande diferença comportamental entre humanos e androides é a capacidade daqueles de sentir empatia, de se identificar com a dor do outro. Em linha, a religião do futuro se baseia no sentimento de empatia amplificada a partir de um aparelho eletrônico. Usando o tal aparelho, as pessoas sentem a experiência de um mártir perseguido, enquanto compartilham suas dores e alegrias com outros humanos conectados no mesmo momento.

Mas claro que não é tão simples assim
A rede de androides fugidos atua para desacreditar o mártir como uma fraude, numa tentativa de minimizar a empatia como parâmetro de humanidade. Ao mesmo tempo Rick Deckard conhece outros humanos destituídos desse sentimento – e esta é a nota de ambiguidade do livro: se os replicantes não conseguem se comportar como humanos, o que dizer dos humanos que se comportam como replicantes? Se isso é possível, o que diferencia um de outro? Como já referenciei antes, filme e livro acabam chegando ao mesmo ponto por caminhos diametralmente opostos.

E as ovelhas elétricas? 
Animais são raridades no futuro divisado pelo livro e replicado nos filmes. A Terra então estará submersa numa nuvem de poeira radioativa que torna grande parte de sua superfície inabitável. Os poucos animais que sobrevivem à extinção são disputados a tapa entre colecionadores. Quem não tem condições financeiras de acessar esse mercado precisa se contentar com animais elétricos. O Deckard do livro tem uma ovelha artificial, mas sonha em comprar um animal de verdade. Os replicantes, ao contrário, não conseguem entender o valor da vida animal. Essa dicotomia, absolutamente marcante no livro, encerra qualquer possibilidade de problematizar a humanidade dos androides.

Os filmes passam ao largo dessa discussão, que se torna desnecessária frente a outras formas pelas quais a ambiguidade alcança a telona, mas as referências a animais elétricos são mantidas – a cobra de Zhora, a coruja da Tyrell Corporation, o cachorro no segundo filme.

Quem inventou a palavra replicante?
Ridley Scott, para o filme. No livro, Philip K. Dick se refere a eles como androides.

Deckard era um replicante?
No livro,  não há qualquer indicação a esse respeito, a não ser que se queira fazer uma interpretação ampla do título. Já que Deckard é obcecado por animais, ele seria o maior candidato a sonhar com ovelhas elétricas, mas Dick não persegue essa possibilidade. Mesmo no primeiro Blade Runner, essa teoria só ganhou força de verdade após o lançamento da versão “corte do diretor”, em que um policial aparentemente consegue acessar os sonhos de Deckard, indicando que ele poderia ter memórias implantadas. Mas o filme é totalmente aberto a interpretações.

Blade Runner 2049 meio que mata a parada. Se Deckard sobreviveu mais 30 anos e até envelheceu, caem as chances de que ele fosse um replicante.

A propósito…
… Rick Deckard é casado com uma humana em Androides sonham com ovelhas elétricas?.
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4 comentários sobre “Blade Runner: o livro que deu origem aos filmes

  1. No filme 2049 o diálogo com o Niander sobre ser a chave para a reprodução do replicante indica para mim que ele era um replicante.. A réplica era biológicas então sofreria ação do tempo… Adorei o texto, parabéns

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  2. Muito boa dica! Eu vou ler o livro. Amo o filme original, e também gostei da sequela. Você já viu? Eu fiquei muito animada quando eu vi o trailer do segundo filme no ano passado. A verdade sempre acompanhei a saga, e quando li aBlade Runner resumo amei. Mais que filme de ficção, é um filme de suspense, todo o tempo tem a sua atenção e você fica preso no sofá. Esse é um filme que se converteu em um dos meus preferidos. É algo muito diferente ao que estávamos acostumados a ver. Recomendo!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Um ponto de vista: no filme original, quando Deckard decide fugir com Rachael, há referência que ela é aprimorada e poderia viver muito mais tempo que os demais replicantes Nexus 6. A mesma consideração poderia ser aplicada a Deckard. Logo, é equivocada a afirmação que “[…]Blade Runner 2049 meio que mata a parada. Se Deckard sobreviveu mais 30 anos e até envelheceu, caem as chances de que ele fosse um replicante.”

    Se ele tem memórias implantadas como Rachael, ele poderia durar muitos anos, e o fato de envelhecer, não há referências sobre como a pele sintética dos andróides/replicantes se comportava no tempo no filme original e tem o comentário da Amores Burlescos muito oportuno sobre o Blade runner 2049.

    Renata Beltrão, adorei sua resenha. Parabéns!!! Fiquei fã do Lombada Quadrada.

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