Confesso que jamais havia prestado atenção ao nome de Ali Smith, escritora escocesa que já tem vários livros de grande sucesso pelo mundo afora. Descobri Como ser as duas coisas, romance de 2014, que chegou às livrarias brasileiras em 2016, pela Companhia das Letras. Resolvi arriscar.Como ser as duas coisas.JPG

Valeu a pena.

Primeiro, porque Ali Smith construiu duas histórias em um romance só e as interligou de forma surpreendente. Usou a arte como ponto de contato entre um jovem pintor e uma estudante, separados por mais de 500 anos de história. E colocou vários elementos perturbadores. Tanto nas quebras da linearidade da narrativa, quanto em situações com as quais as personagens se deparam e que dão muito o que pensar.

Tudo começa no século XV, na cidade italiana de Ferrara, onde um jovem, filho de um oleiro, demonstra aptidão artística. E consegue ser aceito como aprendiz por um dos mais cotados mestres da pintura de afrescos. O jovem pintor do romance de fato existiu. É na figura de Francesco del Cosso que Smith baseia sua narrativa. Este pintor, um entre muitos dos que se destacaram no renascimento italiano, foi autor de parte dos afrescos da famosa “sala dos meses”, no Palazzo Schifanoia, em Ferrara. A autoria só lhe foi atribuída no século XX, quando uma carta em que pedia ao mecenas, construtor do palácio, uma remuneração maior por conta de seus afrescos terem saltado aos olhos de toda a cidade e se tornado populares e muito admirados. Del Cosso fez três dos 12 meses da sala. E são justamente os três meses da primavera, assim como alguns dos signos do zodíaco também pintados por ele, aqueles que mais chamam atenção pela beleza e complexidades das cenas retratadas.

Mas Ali Smith não conta essa história de uma forma linear e, por vezes, coloca os personagens de ambos os séculos frente a frente, em situações de estranheza. Faz um intrincado jogo de palavras, narrando passagens da vida do jovem pintor, juntando com pensatas, poemas e digressões interessantes sobre técnicas de pintura, que vão construindo um mosaico do que seria a vida de um artista em pleno renascimento.

E (atenção, não se trata propriamente de um spoiler, já que a orelha do livro entrega a situação) a escritora resolve mudar substancialmente a identidade de gênero desse jovem pintor. Talvez influenciada pelo fato de que durante o renascimento pintura era uma atividade praticamente exclusiva dos homens, Ali Smith nos revela que Francesco é na verdade uma menina. E quem faz dessa menina um jovem rapaz, é o próprio pai. Aqui, uma situação interessante. Este pai, oleiro renomado, viúvo, pintado no livro como um homem tosco, mas sensível à beleza artística, percebe que o talento da garota só terá lugar para aflorar caso ela se transforme em Francesco del Cosso, para que possa ser aceita pelos mestres e pelos mecenas. Feito menino, acompanhamos a vida deste pintor se desenrolando nas obras dos palácios, mas principalmente nos bordéis, onde Francesco pinta retratos das prostitutas, transformando-se no xodó de muitas delas, que vendem joias e usam suas economias para se verem retratadas pelo talentoso artista.

A segunda parte de Como ser as duas coisas se dá em pleno século XXI, na Inglaterra. Georgia, conhecida por todos como George, está na adolescência. A mãe, jornalista e ativista digital, teve recente morte súbita. O pai, mergulhou no alcoolismo. E George, mocinha de cabelo curtinho e aparência andrógina, além do nome ambíguo, está às voltas com os cuidados dispensados ao irmão mais novo, a vida escolar e as lembranças da mãe. Entre as lembranças, está a viagem que mãe e filhos fizeram pouco menos de um ano antes. Foram a Ferrara, para conhecer o Palazzo Schifanoia. Para a mãe de George, conhecer a obra de Francesco del Cosso era uma necessidade urgente. É mais um ponto de contato entre a menina do século XXI e a menina do século XV. George deixa de ir à escola e passa a pegar diariamente um trem para Londres. Vai a uma sala da National Gallery e ali fica durante horas diante de uma tela de del Cosso. Tentando entender toda a complexidade e a beleza que a mãe enxergou em sua obra.

Precisei contar tanto do livro para poder situar as temáticas que enxerguei na narrativa de Ali Smith. E não são poucas. A arte, como diz o título do post, aparece como tábua de salvação, ou pelo menos de transformação, de duas meninas cuja vida teria pouco a oferecer. A jovem do século XV, órfã de mãe, fadada a cuidar do pai e dos irmãos oleiros até conseguir se casar, para então cuidar também do marido. É salva desse abismo pela arte e pela transformação de gênero. A garota do século XXI, igualmente órfã de mãe, começa a encontrar na arte a possibilidade de fuga do mesmo destino. Cuidar de um pai derrotado pelo álcool e pela viuvez precoce. E de seu irmão mais novo. O destino de Francesco está definido. Sabemos que morreu cedo, provavelmente de tuberculose. A vida de George fica aberta ao final do livro. Mas é certamente o despertar pelo olhar encantador das artes que a salvará e permitirá que seus desejos pela melhor amiga do colégio possam ser realizados.

Como ser as duas coisas aborda fortemente a questão de gênero. A (o)pressão social para que mulheres desempenhem papeis predeterminados pelo patriarcado está ali, presente no cotidiano de duas meninas que querem ar para respirar e caminho próprio para seguir. Também estão nas entrelinhas do romance a homoafetividade e a busca de carinho e cumplicidade, contrapostas ao modo bruto como homens ao longo dos séculos fazem sua iniciação sexual em bordéis, ainda jovens, muitas vezes levados por pais ou irmãos mais velhos, fazendo da sexualidade uma relação de força, poder e dinheiro que se reproduz nas relações que terão ao longo da vida.

É um livro também sobre a ambiguidade. Sobre como ser duas, ou muitas, coisas em um mundo que muitas vezes exige papeis definidos, posições irrefutáveis. Um mundo que tem uma paleta de cores com poucas variações de cinza. Francesco é o artista das cores exuberantes, da diversidade, da ousadia. George também quer esse caminho para si.

Comecei 2017 pelo romance de uma autora que jamais havia lido. Como em 2016, estas novas descobertas literárias são estimulantes para novos mergulhos dos autores recém adquiridos na estante. E geram mais estímulo ainda para sair da mesmice e buscar mais novidades boas como essa.

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