As pedras de Cerbère

CerbèreVoltei ao meu primeiro Saramago. Embarquei novamente na Jangada de Pedra, 25 anos depois da primeira leitura. Em 1990, fui introduzido na obra do gênio ribatejano por Rita Fontanez, colega de trabalho, que me emprestou seu exemplar comprado no Círculo do Livro. Lembro dela me dizendo ter “descoberto” um certo autor português que escrevia de modo diferente. E que isso era a “minha cara”. Acertou em cheio. Embarquei em Saramago para daí em diante ler toda sua obra. Muitos livros geniais, outros, nem tanto. Certamente, um dos autores marcantes, para todo o sempre.

Janeiro de 2015: eu e Renata a pesquisar para onde viajaríamos nas férias que se aproximavam. Barcelona foi o lugar. E pensamos que seria interessante girar pela Catalunha, de carro, para conhecer lugares pequenos, escondidos, fora do circuito tradicional do turismo. E eis que chegamos à fronteira de Espanha e França, pelo lado francês, no litoral. Os Pirineus a fazer a divisa natural entre os países. E a memória daquele livro voltou com força, pois “Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar…”.

Não houve dúvida. Era preciso ir até o ponto perdido no litoral mediterrâneo, apinhado de cidades milenares, com 2, 3 mil habitantes. Para ver de perto a praia pedregosa que marca o começo da narrativa de Jangada. Fomos. Uma tarde de sol e frio. Vento, uma cidade vazia, na hora da sesta. Não havia nada. Nada para ver, nada para acontecer, na cidade adormecida à espera da temporada de verão.

Mais do que ver o lugar no qual começa o romance, descobrimos que Walter Benjamin atravessou a fronteira, perseguido, atormentado, desesperado, durante a Segunda Guerra, para morrer de forma obscura em Port Bou, já no lado espanhol. E que por ali passaram milhares de combatentes socialistas da Guerra Civil Espanhola, enfrentando montanhas, neve, frio e as tropas de Franco.

E voltei a viajar em Jangada, em uma edição capa dura, da Record, papel de imprensa que agora voltou a dormir em nossas prateleiras, acompanhada da pedra que trouxemos de Cerbère. A impressão que Saramago me causou em 1990 continua viva.

Por que os livros que amamos nos levam a viagens sem fim.

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