41 anos depois de Zero

IMG_4584Embora seja fã de Ignácio de Loyola Brandão, demorei a ler Zero, seu livro mais conhecido. A oportunidade veio esse ano com o Desafio dos 52 livros: cheguei à letra B da literatura nacional e voi-là – acomodado entre O beijo não vem da boca, Veia bailarina, O verde violentou o muro e Não verás país nenhum, entre outros, Zero era o único de Loyola Brandão que eu não tinha lido ainda.

Nosso volume é o da Global, comemorativo aos 35 anos da publicação da primeira edição, na Itália. Produto da Ditadura, Zero foi publicado na Europa antes de ganhar uma edição nacional, que depois foi proibida por vários anos enquanto o livro seguia sendo traduzido mundo afora – um grito de denúncia que também deu sua contribuição para o fim do regime.

Explicar o enredo não é fácil. E não vou nem tentar, porque o grande lance de Zero é sua narrativa fragmentada em trechos cujo encaixe nem sempre é possível. Um quebra-cabeças teria uma solução, findaria em um todo reconhecível. Zero, não.

São marcantes as referências a uma burocracia labiríntica e paralisante que, se não me falha a memória, aparecem também em Não verás país nenhum. Nesse contexto, os personagens são pessoas comuns, sem perspectiva em seus subempregos, numa sociedade reprimida pelo militarismo e na qual o sexo, o crime e a guerrilha urbana aparecem como formas de catarse. A confusão e a violência deles estão também fisicamente presentes na confusão e na violência do texto.

O livro era também uma viagem gráfica, com cacos inseridos em colunas à margem da página, poesia concreta, desenhos e recortes que reforçavam visualmente a fragmentação do texto. Mas no fim das contas, Zero é um livro datado (inclusive graficamente), que só pode ser compreendido no contexto em que foi criado. Nesse sentido, a edição comemorativa é incrível: traz um vasto material analítico e iconográfico que contextualiza com exatidão o porquê de sua importância na década de 1970. Os textos do próprio autor sobre o livro são reveladores, com destaque absoluto para sua relação com os tradutores para várias línguas, em especial para o alemão (o mesmo Curt Meyer-Clason que traduziu Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa).

IMG_4579Interessante inclusive perceber como Loyola Brandão parece ter sido traído pela própria memória. Em algum dos textos introdutórios, ele diz que o enredo do livro se passava em cidade não identificada, o que seria uma forma de tentar burlar a censura. De fato, o nome São Paulo não aparece em momento nenhum – mas os nomes de bairros e outras referências muito próprias à cidade se repetem com bastante frequência.

“Esse livro tem mais história que livro”, diz Carlos. Não sei se chega a tanto. Zero é ótimo, é importante e é uma leitura instigante. Mas não entrou na lista dos meus preferidos do autor.

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