Um romance e uma elegia a Rosa

2015-11-27 13.53.52.jpgAntonio, de Beatriz Bracher, entrou na minha lista de leituras por indicação do Leia Mulheres. Foi o livro em debate no encontro do dia 24 de novembro de 2015, em São Paulo. Me debrucei na leitura, mas acabei não indo ao debate, por conta de compromissos profissionais. Então, vai aqui minha visão a respeito do romance, publicado em 2007 pela Editora 34, em edição simples e caprichada. A capa seguiu o padrão da maioria dos livros da 34, com grafismos.

Mas vamos ao livro.

Bracher adotou uma estrutura narrativa interessante, arriscada e ousada.

Interessante, porque ela escolheu três narradores para contar a história de uma família a Benjamin, o personagem onipresente que tenta entender o que aconteceu com seu pai, Teodoro, já morto. Benjamin “entrevista” a avó, Isabel, Haroldo, amigo de seu avô, e Raul, amigo do pai, para compor um mosaico que lhe permita entender a trajetória de Teodoro, que abandonou uma tradicional família paulista e se embrenhou no sertão das Gerais.

O risco de Beatriz Bracher era de compor uma história sem liga, pois nada ali é linear. Mas ela consegue habilmente montar um quebra-cabeças que ajuda o leitor a entender os acontecimentos da família mesmo com as idas e vindas no tempo e no espaço. Para quem for se aventurar no romance, um conselho. Paciência. Aos poucos vocês conseguirão ligar os pontos e distinguir personagens, lugares e a cronologia.

A ousadia está nos monólogos dos narradores. A voz de Benjamin jamais aparece ao longo de toda a narrativa. Raul, Haroldo e Isabel conversam com o filho de Teodoro. Fazem pausas, que nos permitem preencher lacunas com as falas de Benjamin. Indagações, comentários, arroubos de raiva diante de descobertas sobre o passado de sua família. Tudo está ali, nas entrelinhas, obrigando o leitor a se tornar um coautor da história, imaginando diálogos, tentando adivinhar as expressões de Benjamin, compondo cenários.

Esses diálogos me lembraram por demais o mestre Guimarães Rosa em Grande sertão:veredas. Para relembrar, no romance de Rosa, Riobaldo conta a história de sua relação com Diadorim a um visitante de quem jamais ouvimos a voz. Destaco aqui uma frase dessa obra-prima que parece ser a singela explicação que o autor dá aos leitores acerca de sua estrutura narrativa:

“Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo.”

Genial, não é? Se tivesse ido ao debate com Beatriz Bracher, no Leia Mulheres, certamente perguntaria a ela se bebeu diretamente nessa fonte ou se foi mera coincidência. E me parece que a fuga de Teodoro para o sertão das Gerais, percorrendo as margens do São Francisco, tem muito a ver com essa referência.

Pra não dizer que não falei apenas de flores, deixo aqui uma sensação negativa em relação a Antonio. As alusões a fatos conjunturais, como ditadura, hiperinflação dos anos 1980, fatos culturais e políticos das três décadas em que a saga da família de Benjamin é contada são demasiadamente didáticas. Em muitos momentos, o narrador para tudo, como se deixasse de se dirigir ao rapaz e falasse com o leitor, para explicar como era o centro de São Paulo em determinada época, ou como eram as comunidades hippies etc. Neste ponto, na minha visão, faltou à autora lapidar a narrativa, para que esses fatos entrassem naturalmente na história. Resumindo: ela não precisava “desenhar” as situações para os leitores. Por conta disso, houve momentos em que quase desisti do livro.

Persisti. Fui até o fim e o saldo é positivo.

Duas notas para o encerramento. (1) Não vou dizer porque o livro se chama Antonio. Seria spoiler. (2) Acompanhe aqui o Leia Mulheres. E leia mulheres.

P.S.: a foto do post é de Cordisburgo, cidade natal de Guimarães Rosa.

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