Os três Jabutis

Tem gente que torce o nariz para prêmios literários por considerar absurdo o enquadramento de trabalhos artístico-intelectuais em uma competição tipo olimpíadas, em alguns casos com direito a notas de classificação, critérios de desempate, desavenças no júri, duplos mortais carpados e tudo o mais. Eu os acho o maior barato.

Os prêmios fazem uma seleção anual da produção contemporânea, ajudando a colocar em evidência escritores da atualidade. Aos vencedores, as batatas – ou os holofotes da mídia, que podem significar um lugar privilegiado nas prateleiras das livrarias, o apoio da editora para o próximo livro ou mesmo a confirmação da carreira, caso dos estreantes.

Pra mim, pouco importa quem ganha no final – o verdadeiro ouro é a lista de indicados. Dependendo do prêmio, estarão em cada pré-seleção cerca de 10 livros considerados entre os melhores do ano em suas categorias. E os protestos pelos que ficam de fora geram outra lista, até mais interessante de explorar.

Se você é um leitor voraz como eu, deve também viver em angústia pela impossibilidade de ler tudo, pois sempre haverá mais livros do que tempo disponível para devorá-los. Os prêmios e todo o frisson em torno deles, portanto, acabam servindo como um guia de leitura contemporânea, dentre vários possíveis – este blog, por exemplo. 😉 

Fazendo as vezes de guia do guia, o Lombada Quadrada comenta os três livros vencedores em 2015 na categoria Romance do Prêmio Jabuti, o mais antigo e um dos mais relevantes do Brasil. Já tinha lido os três antes de saber o resultado e tive o privilégio de encontrar todos os autores em rodas de conversa de eventos literários, o que tornou a experiência da leitura ainda mais rica.

Se você ficou curioso em função do resultado, aqui vai um resumo do que você vai encontrar em cada um:


3º. Os piores dias da minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Editora Record)

IMG_5341Evandro Affonso Ferreira não é para os fracos. De verdade. Se você busca leituras que correspondam a um passeio no parque, melhor ir ler outra coisa. Mas se topar o desafio, terá nas mãos um livro denso, em que a erudição é matéria-prima para tratar das perturbações interiores do ser humano. Aqui, Evandro bebe em Antígona, personagem de Sófocles que se insurge contra o governante pelo direito de enterrar seu irmão. À beira da morte, uma moradora de rua invoca Antígona como carpideira, enquanto rememora suas andanças pelas ruas de São Paulo em meio à loucura (dela e da cidade) e à saudade de um amigo escritor morto. Tirando algumas pausas para citações à Antígona, o livro vai numa tacada só, sem parágrafos, acompanhando o delírio ininterrupto da personagem. Evandro também experimenta com a linguagem, praticamente abolindo os artigos no início das frases, e inserindo marcas de oralidade de forma engenhosamente refinada. Como ele mesmo costuma dizer: “quando escrevo, dou tudo de mim. Se o leitor também não dá tudo dele, não me interessa”.  Paradoxalmente, Evandro é um cara engraçado, e seus livros idem. Mas nem essa graça vem de graça, com o perdão da infâmia. O leitor tem que estar atento às surpresas e aos não-ditos neste que, para mim, foi um dos melhores livros do ano – um “romance da desesperança”, como ele escreveu em sua dedicatória no meu exemplar.

Quem é naturalmente desaparelhada de benefícios se espavorece diante da bem-aventurança, desacolhe de pronto o propício. Seja como for, ao contrário de deusas incautas, não trocaria jamais a imortalidade pelo amor de homem nenhum. Vida toda me abstive do entre aspas conforto.


2º. Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza (CosacNaify)

IMG_5340Este foi o segundo livro que li de Carrascoza e, se tão pouco serve de amostra, percebi que sua escrita é marcada pelo sentimento na linha de frente. Seus enredos não giram em torno de ações, mas de emoções. E se elas não são exacerbadas, a profusão com que aparecem podem dar a impressão de um texto piegas, especialmente para leitores que preferem construções mais sutis. De qualquer forma, Caderno de um ausente é um ótimo livro sobre a relação de um homem com a filha que acaba de nascer. O personagem projeta como será seu futuro entre outras pessoas, possíveis dores e possíveis felicidades, enquanto revive as memórias da própria infância e de sua relação com o pai. Assim como no seu romance anterior, Aos 7 e aos 40, o personagem de Carrascoza é um homem que exibe sua fragilidade. Sinal dos tempos?  O projeto gráfico primoroso da CosacNaify levou em consideração um recurso que o autor inventou para o texto: para amplificar os momentos de pausa quando sentiu que a acentuação não seria o suficiente, deixou longos espaços entre as palavras. A Cosac então editou o livro em papel salmão e transformou estes espaços em lacunas brancas, em alguns momentos a metáfora física da ausência indicada no título (saiba mais no nosso post sobre a Cosac).

(…) os objetos te apresentam aos outros, derretem posições ideológicas e, então, Bia, saiba que, muito além dos objetos, está o que os configura nos campos do vazio, aquilo que o verbo, incontinenti, designa sobre todas as coisas, como por exemplo:         Filho: planta em solo de vidro. Vidro: areia e sol. Sol: luz de fora. Fora: luz de dentro. Dentro: estado bruto do silêncio (…). 


1º. Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende (Alfaguara)

IMG_5342“Veterana desbanca Chico Buarque”, foi uma das manchetes após o anúncio de que Maria Valéria Rezende vencera a categoria Romance do Prêmio Jabuti. Ela reclamou, com razão: além de ter a mesma idade de Chico, mesmo ganhando, tornou-se invisível. Num ano em que as mulheres venceram praticamente todos os prêmios literários nacionais e, além disso, se uniram em um protesto generalizado e permanente contra o machismo nosso de cada dia, ela estava certíssima. Aliás, não esperaria outra coisa desta freira-escritora que dedica a vida à promoção da igualdade social, em todos os campos. No Festival da Mantiqueira de 2014, Maria Valéria deixou a plateia passada com sua contestação ao conceito de analfabetismo, lembrando que a literatura está mais presente nas casas dos agricultores nordestinos iletrados do que na de muita gente que “foi à escola aprender a decifrar uns simbolozinhos”. “Por onde andei, no interior, as pessoas me chamavam na casa delas para ler o Lunário Perpétuo. Eu era só a máquina que decifrava os simbolozinhos”.

Bastante coerente, então, que o livro Quarenta Dias tenha uma carga forte desse engajamento por um mundo mais igualitário, inclusive dentro do núcleo familiar. A personagem do romance é Alice, uma senhora aposentada cuja filha adulta mora no Rio Grande do Sul. Quando a moça inventa de ser mãe, decide também que Alice deve se mudar para assumir o posto de avó em tempo integral. Ela vai a contragosto, abandonando sua casa, sua praia, seu sol e toda a sua expectativa de curtir a aposentadoria na paz. Deslocada em uma cidade que não conhece e cujo clima não entende, Alice se deixa perder pelas ruas estranhas e vaga sem rumo por quarenta dias, registrando tudo em um caderno escolar com uma Barbie na capa, à guisa de diário. Os registros são por vezes fragmentados, o que traz ao livro alguma experimentação com a linguagem. Além da questão inicial sobre o envelhecimento da mulher em nossa sociedade, o romance toca também na situação de moradores de rua, favelados e outros personagens com quem Alice topa em suas perambulações, uma grande viagem interior pelas ruas de uma metrópole. O livro é incrível e a autora, mais ainda. Prêmio merecidissímo.

Nada disso lhe interessa, não é,  Barbie?, você é oca e indolor, e eu aqui escrevendo à toa, só pelo gosto de escrever, chorando as pitangas do passado 
       Por hoje chega. Ainda há trinta e nove dias pela frente pra eu contar ou desistir de contar. Vou fazer umas comprinhas, continuar a me acostumar com sair à rua e voltar pra casa. Eita!, eu disse “pra casa”. Reparou? Acho que foi a primeira vez que chamei de casa este tabuleiro de Xadrez.  

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s