10 livros de aventura pra curtir as férias de julho

Não sei vocês, mas pra mim férias de verdade eram as de julho. Naquela época distante em que parar duas vezes por ano era tão certo quanto as fases da lua, a pausa do meio do ano tinha realmente cara de descanso. A gente parava o que estava estudando pela metade pra retomar só um mês depois, com uma baita festa no meio – o São João, se você teve o privilégio de crescer no Nordeste – com direito à muita comida, rojões e uma roupa nova. Dezembro, ao contrário, marcava um rito de passagem (de série, de escola) e era muito mais permeado de tensão – principalmente se você vislumbrava aquela festa de Natal com toda a família reunida.

Mas a gente cresce e, se não tem filhos, dificilmente as férias vão coincidir com o calendário escolar. Com ou sem pausa, o Lombada Quadrada sugere 10 livros pra passar o mês de julho com muita aventura literária – aventura no conceito amplo, como você  verá nas dicas. Mesmo que você continue no batente, viaje com os livros. 😉

1. Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
Guia
Como toda boa ficção científica, a série criada por Douglas Adams faz, na verdade, uma crítica ao mundo da atualidade. A diferença é que, neste caso, sua principal arma é o humor. A história começa quando Arthur Dent tenta impedir a demolição da sua casa para a passagem de uma autoestrada, mas acaba sendo surpreendido pela implosão da própria Terra, que estava no caminho de uma via intergaláctica. Salvo por seu amigo Ford Perfect – que então se revela um alienígena – ele passa a vagar pelo Universo pegando carona de nave em nave. Dent passa pelas mais esdrúxulas situações interplanetárias, numa sátira afiada ao mundo de hoje. A série principal tem quatro volumes, publicados no Brasil pela Arqueiro. Ótimo para uma leitura leve, divertida e ao mesmo tempo inteligente.

2. Trilogia Fundação – Fundação e Império – Segunda Fundação, de Isaac Asimov
2773858Confesso que li Fundação há muito tempo, e embora não recorde detalhes da história, lembro concretamente de ter percebido, pela primeira vez, que a boa ficção científica não está na criação de traquitanas mirabolantes, mas na projeção das relações humanas e sociais em um mundo (ou mundos) modificados radicalmente pelo desenvolvimento tecnológico. Ao fazer isso, o bom ficcionista – e Asimov é o melhor – faz sobretudo um comentário sobre o nosso tempo. Pedi ajuda ao Google para poder resumir a trama: num futuro muito distante, a humanidade já expandiu seus domínios para toda a Galáxia, o que significou também  o aumento do poder e da burocracia de um império centralizador. Um cientista alerta que o império está em declínio, e que a única forma de amenizar o período de trevas é preventivamente registrar todo o conhecimento humano. Claro que ele não é levado a sério – e é aí que começa a aventura. A série é publicada no Brasil pela Editora Aleph.

3. Dracula, de Bram Stoker
Dracula
Eu sei o que você vai dizer: Ain, mas essa história é muito batida!. Confie na tia aqui: você não manja nada de vampiros se não tiver lido o clássico escrito em 1897 por Bram Stoker, um dos maiores clássicos da literatura de terror de todos os tempos. É nele que se estabelece toda a mitologia básica dos vampiros, depois copiada à exaustão em outros livros, no cinema, nos quadrinhos, etc. Bram Stoker construiu sua narrativa de forma epistolar, a partir de diários, troca de cartas, documentos e recortes de jornal entre os personagens. A história, portanto, surge de um mosaico de pontos de vista, um quebra-cabeças engenhoso que por si só guarda algumas surpresas. Além disso, é de fato a construção mais assustadora sobre o Conde Dracula já realizada, a despeito das milhares (ou milhões) de cópias que vieram a seguir. A obra já está em domínio público e pode ser baixada sem remorsos na internet. Mas tem várias edições à venda em papel, das mais baratas às mais sofisticadas, incluindo com notas e comentários.

4. Frankenstein, de Mary Shelley
Esse é o outro romance clássico da literatura de terror, precursor do gênero. Escrito por uma garota de 19 anos, ganhou o mundo a partir das adaptações para o cinema e se tornou marco incontornável da cultura mundial, assim como Dracula. Várias das adaptações e citações posteriores, no entanto, perdem algo essencial da obra de Mary Shelley, que é a discussão sobre ética. Ao contrário do que ficou sacramentado no imaginário popular, o Frankenstein do título não é o monstro (que não tem nome), mas o médico que o cria, a partir de partes de dezenas de cadáveres. Assustado com sua criatura, Frankenstein a abandona – e ela retorna para lembrá-lo de que seus atos violentos são de sua responsabilidade. Esse texto também está em domínio público. A minha edição foi a da Penguin, em inglês, mas há várias outras disponíveis em português. Só tenha o cuidado de verificar que se trata do texto integral.

5. As aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol
AliceA primeira coisa que você precisa saber sobre Alice é que se trata de um livro MUITO louco. Apesar de ser tomado como literatura infantil, é de uma sagacidade absurda, e um deleite para qualquer adulto que goste de ser surpreendido não só pela narrativa, mas pelo uso pouco usual da linguagem. A história, todos conhecem: Alice é atraída por um coelho branco usando colete e cai numa toca, uma passagem para um mundo mágico em que animais, plantas e objetos falam e interagem entre si. O texto é repleto de sátiras e referências culturais, matemáticas e principalmente jogos de lógica, alguns nem um pouco óbvios. Alice é uma obra com múltiplas interpretações, uma das mais comuns é a de que se trata de uma alegoria à passagem da infância à adolescência, com toda a confusão implicada. O texto também está em domínio público. Mas para quem quer entender todas as referências, recomendo uma edição comentada – a Zahar tem uma bastante festejada – e com as ilustrações originais.

6. O Hobbit, de J.R.R.Tolkien
hobbit
Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar recomendando O Senhor dos Anéis, mas cravei O Hobbit. Por que? Acho que O Hobbit é um excelente livro de aventura independente da trilogia posterior a que deu origem. É extremamente divertido e funciona como uma ótima introdução à obra de J.R.R. Tolkien. O hobbit do título é Bilbo Bolseiro, que estava lá tranquilão em sua toca quando é surpreendido por um grupo de anões, que o convocam para participar de uma jornada para recuperar o tesouro roubado por um dragão. É no meio desta aventura que Bilbo encontra o anel que será fundamental à trilogia principal, mas que aqui é apenas um detalhe nessa aventura fantástica pelo mundo medievalesco da inexistente Terra Média. O grande forte d’O Hobbit é sua leveza, que não se repete em O Senhor dos Anéis. Assim, é um livro com vida própria. A edição brasileira é da Martins Fontes.

7. Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Moraes
Às vezes a realidade passa um chapéu na ficção, e a história consegue ser mais absurda do que qualquer invenção. É o caso da trajetória do paraibano Assis Chateubriand, o primeiro magnata da comunicação do País. Com os Diários Associados, ele espalhou seu império por todo o Brasil à base de muito conchavo, corrupção, chantagem e mesmo violência. Não dá pra entender a mídia nacional sem conhecer a história de Chatô, que trouxe a televisão ao País numa aposta arriscada, criando toda a estrutura da TV Tupi e realizando a transmissão inaugural antes mesmo de haver aparelhos de TV à venda no País. De quebra, foi o criador do Museu de Arte de São Paulo, o MASP, cuja história também não está despida de alguma polêmica. Minha edição é do finado Círculo do Livro e tem mais de 200 erros de revisão, segundo me contou o próprio autor. Mas a atual é da Companhia das Letras, com versão impressa e digital.

8. Corações Sujos, de Fernando Moraes
coraçoesEssa é outra história real que dá um nó na ficção. No Brasil do pós-guerra, grupos de imigrantes nipônicos se recusaram a acreditar na derrota do Japão – afinal, foram educados para o fato de que o imperador seria sempre invencível. Organizados em torno da associação nacionalista chamada Shindo Renmei, eles atuavam para intimidar e perseguir os conterrâneos que se conformavam com a “falsa” rendição, principalmente em São Paulo e no Paraná. Fernando Moraes teve o primeiro contato com o nome Shindo Renmei enquanto fazia entrevistas para Chatô, mas só conseguiu mais detalhes anos depois, com um dos filhos da artista plástica Tomie Othake, partindo daí para pesquisar a história a fundo. O livro é curto, ricamente ilustrado, uma delícia para quem aprecia fatos pouco conhecidos da história do Brasil. A edição também é da Companhia das Letras.

9. A viagem do Elefante, de José Saramago
SaramagoBaseado em uma história real, um dos últimos romances de José Saramago narra a jornada do elefante Salomão entre Lisboa e a Áustria no século XVI, como um presente de um rei para o outro. Nessa viagem a pé por metade da Europa, bem ao estilo de Saramago, a aventura se desenvolve não apenas no caminho percorrido, mas na análise da natureza humana dos diferentes personagens. O próprio elefante é escrutinado dessa maneira, como um contraponto ao humano, mas que na verdade acrescenta novas camadas às relações sociais. O texto leva a marca de Saramago – frases longas e quase-rebuscadas, quase-coloquiais, de um jeito que só ele conseguia fazer. Considero uma ótima introdução à obra de Saramago. A edição é da Companhia das Letras.

10. Watchmen, de Alan Moore
watchmenPra terminar a lista, vamos em um clássico dos quadrinhos. Publicada originalmente em 12 partes curtas, Watchmen é facilmente encontrável compilada em um livro único, editado pela Panini. A história se passa nos Estados Unidos durante a Guerra Fria, em uma sociedade que apostara todas as suas fichas nos super-heróis. Após alguns excessos, eles são obrigados a se registrar no governo. Alguns seguem a nova diretriz, enquanto a maioria prefere se aposentar e se acomodar no ostracismo. Mas o assassinato de um deles coloca um antigo grupo de volta à ativa, numa trama que discute questões éticas e filosóficas relacionadas ao poder e à responsabilidade. Hoje recorrente nas HQs e no cinema (vide Guerra Civil, do Capitão América), a premissa de Watchmen foi inovadora na época do lançamento, pois subia vários degraus na maturidade da discussão sobre os super-heróis que, embora fictícios, funcionam como uma metáfora às pessoas e instituições que concentram poderes.

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