O cão sem plumas de Deborah Colker

(Foto em destaque: Cafi/Divulgação)

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) era notório pela economia de palavras, pela crueza e solidez de suas imagens. Adaptá-lo para qualquer coisa traz em si o desafio de respeitar essa lírica árida, e que é também  socialmente preocupada. O que esperar, então, da transposição de um poema seu para a dança, pela coreógrafa mais midiática do Brasil? Confesso que foi com desconfiança que comprei meu ingresso para Cão sem plumas, espetáculo da Companhia Deborah Colker baseado no poema quase homônimo. Ao mesmo tempo, não podia deixar de ir: esse é um dos textos mais fortes de João Cabral, e o meu preferido.

Deborah Colker conquistou público e mídia com um repertório vigoroso de movimentos acrobáticos, exibidos em cenários com os quais os bailarinos interagem: a parede de escalada em Mix, a roda-gigante em Rota ou o emaranhado de cordas em Nó. Não é mera coincidência que ela tenha sido chamada para coreografar o Cirque du Soleil e a abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Não me entendam mal, não quero passar a impressão de que acho seu trabalho ruim. Mas tem uma primeira camada de apelo fácil e eu (confessando todo o meu bairrismo) tinha medo de que a essência de João Cabral ficasse perdida em meio aos malabarismos.

No entanto, o resultado não me decepcionou. Recomendo muito Cão sem plumas, que acabou de passar por São Paulo, mas ainda cumpre temporada pelo País. Se você pretende assistir o espetáculo, mas ainda não conhece o poema, aqui vai uma lista de referências que podem ajudar a entender o que se passa no palco.

1. O rio que é a alma do Recife.
Dividido em quatro partes, o poema O Cão sem plumas trata do Capibaribe, rio icônico para o estado de Pernambuco por atravessá-lo desde o agreste (quando não passa de um fio d’água intermitente) até desaguar sinuoso e caudaloso no Recife. O rio tem importância cultural, econômica e ambiental para todas as cidades que corta a partir do ponto em que se torna permanente. Mas, na Capital, essa relação é simbiótica: não há Recife sem Capibaribe. Tudo ou quase tudo que se faz ou que se pensa naquela cidade está influenciado pela maneira como ela se relaciona com as águas.

Mas João Cabral trata o Capibaribe como um intestino onde é despejado tudo o que o corpo da cidade refuga. Não só a sujeira e o esgoto, mas também as pessoas pra quem o rio é morada e sustento. Estamos em 2017 e ainda hoje há pessoas que pescam no Capibaribe quase morto; nos anos 1950, quando o poema foi escrito, muitas mais famílias dependiam do que seus mangues ofereciam, principalmente caranguejos. É sobre esse Recife que fala O cão sem plumas. 

2. Na verdade, são dois poemas.
Apesar do nome, o espetáculo criado por Deborah Colker bebe muito de outro poema de João Cabral sobre o Capibaribe – rio, no qual percorre toda a sua paisagem e geografia humana, desde o interior, onde ainda é intermitente. Para montar sua coreografia, Colker e seus bailarinos fizeram uma imersão de vários dias em Pernambuco, durante a qual tomaram contato com o rio e gravaram, sob direção do cineasta Cláudio Assis, as cenas que são projetadas em preto e branco ao fundo do palco durante o espetáculo. A maior parte do espetáculo se desenvolve sob a narrativa d‘O rio – do leito totalmente seco, aos poucos vamos vendo no fundo do palco suas primeiras águas estagnadas e escuras. A passagem pelos canaviais mecanizados é marcada não só pelas imagens, mas pela cenografia que invade o palco momentaneamente, na forma de faixas de tecido branco que pendem do teto e balançam sobre o movimento dos bailarinos, como palha de cana. Em momentos lindos da coreografia, os bailarinos fazem dueto com si próprios, projetados no fundo do palco.

3. É sobre o Recife e é sobre as desigualdades do Recife.
Os bailarinos entram no palco quase nus e inteiramente cobertos de lama, indistintos. É praticamente impossível dizer quais deles são brancos ou negros e é difícil até distinguir homens de mulheres. Essa indistinção evoca claramente uma das intenções de João Cabral com O cão sem plumas, a de chamar a atenção para a massa de pessoas marginalizadas e, por isso, invisíveis, ainda que vivendo e trabalhando aos olhos de todos, nas lamas do Capibaribe.

4. O rio como metáfora de um corpo (doente?)
Em sua passagem pelo Recife, onde entra em contato com todas as mazelas da pobreza, o Capibaribe é descrito por João Cabral como as entranhas da cidade. É nele que são despejados o esgoto e as pessoas que a sociedade considera inservíveis. O rio é descrito “como o ventre de um cão”, sua lama como mucosa. O Capibaribe é Liso como o ventre/ de uma cadela fecunda e tem um parto fluente e invertebrado como o de uma cadela. Ele é denso, morno, estagnado e, principalmente, espesso – esta é uma das palavas-chave do poema, tratado por Deborah Colker no repertório de movimentos rígidos criados para o espetáculo.

5. Até tem um pouco de acrobacia sim.
Mas só um pouco. O que eu temia, que isso fosse usado como muleta, não rolou. Os gradis de madeira que permaneceram todo o espetáculo em cena, nas laterais do palco, são referência às palafitas e servem como suporte para alguns movimentos mais acrobáticos, que são a marca de Deborah Colker. Os bailarinos pulam e se equilibram sobre os engradados de madeira, e também se espremem dentro deles – aqui, a coreógrafa vai um passo além de João Cabral ao evocar a desigualdade que se reproduz dentro dos presídios. Ao mesmo tempo, é a partir da relação com essas estruturas que os bailarinos, em apenas dois ou três momentos em todo o espetáculo, se erguem eretos – alusão, talvez, ao nascimento de uma consciência sobre a condição degradante que seus personagens enfrentam.

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6. Os homens-Caranguejo – de João Cabral a Chico Science a Deborah Colker
O cão sem plumas é uma denúncia contra as condições de vida das populações ribeirinhas. Enfiados na lama até as coxas, e encurvados para encontrar os bichos em suas locas, homens e mulheres involuntariamente emulam a postura dos caranguejos. O que foi sugerido por João Cabral em seu poema foi descrito depois pelo geógrafo Josué de Castro no livro Homens e caranguejos, seu único romance, sobre a pobreza e a desigualdade enfrentada pelas populações ribeirinhas dos manguezais. Josué de Castro, por sua vez, foi base para o manifesto Caranguejos com cérebro, lançado junto com o primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da lama ao caos. Esse álbum remete em tudo à estética d’O Cão sem plumas e dos trabalhos de Josué de Castro, seja nas letras, seja nos movimentos e nas referências visuais – os chapéus de palha, os braços imitando as patolas dos caranguejos, o clipe gravado no manguezal, com os músicos sujos de lama, para toda a MTV ver. O homem-caranguejo estava assumido como identidade subvertida. E os homo-crustáceos dos anos 1990 mandaram sinais para o mundo: dessa lama e dessa desigualdade faremos música. Não por acaso, a trilha sonora do espetáculo é dirigida por Jorge du Peixe, integrante da Nação Zumbi, com participações de Lirinha (ex-Cordel do Fogo Encantado) e Karina Buhr. O resultado é contemporâneo, local e, ao mesmo tempo absolutamente universal (uma pena que não esteja disponível para venda ou audição).

Além da música, os homens-caranguejo são evocados em todo o vocabulário de movimentos criados por Deborah Colker, seja pelos bailarinos individualmente, seja quando se unem no centro do palco para criar um enorme caranguejo de corpos humanos.

7. Apenas leia.

(…)
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a lama;
onde começa o homem
naquele homem.
(…)

O poema não é curto, mas também não é muito longo. Você pode lê-lo completo aqui.

Ou… 

Você pode também encontrá-lo em algumas coletâneas de João Cabral de Melo Neto, como Serial e antes, que também tem O rio. Comprando na Amazon pelo link a seguir, você ajuda a manter o Lombada Quadrada: Serial e Antes.

 

2 comentários sobre “O cão sem plumas de Deborah Colker

  1. Ótimo texto Renata. Me parecia algo inusitado misturar a poesia do JCMN com dança, mas pensando bem sobre como ele perseguia a tangibilidade, acho que faz sentido cruzar os dois. O espetáculo parece incorporar isso com criatividade. Gostaria de poder assistir. Essa semana mesmo publiquei algo sobre o JCMN. É bom ver que o velho pernambucano continua afiado.

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