Retratos em branco e preto

O convite de Ronaldo Entler para o lançamento de Diante da sombra, sua estreia como escritor de ficção, aguçou minha curiosidade. Amigo de longa data, contemporâneo do curso de jornalismo da PUC-SP nos já longínquos anos 1980, Ronaldo enveredou pela fotografia e pela pesquisa de linguagens visuais, tornando-se referência para uma geração de fotógrafos e pesquisadores, entre eles o saudoso amigo Alexandre Severo. Antes de saber do que tratavam os contos, já tinha a quase certeza de que a ficção de Entler estaria entrelaçada com a fotografia. Logo que peguei meu exemplar devidamente autografado, coloquei-o na frente de uma longa lista de leituras. E valeu a pena.

O autor poderia ter enveredado por um caminho distante de seu ofício, o que seria compreensível. Mas era também natural que tomasse sua própria produção fotográfica e seus estudos no campo da linguagem como ponto de partida para as narrativas. E assim o fez, para sorte dos leitores.

Diante da sombra 2Cada um dos contos de Diante da sombra é ilustrado por fotos instigantes, em sua maioria, de autoria de Entler, salvo por algumas montagens feitas a partir de trabalhos clássicos da fotografia, fotos anônimas ou fotogramas de cinema. Elas servem como mote e inspiração para cada história. Em alguns contos, há um diálogo harmônico entre a fotografia e as palavras. Mas há também momentos de tensão e contrastes. A simbiose e também o conflito revelam um autor capaz de criar com palavras imagens poderosas.

A prosa de Entler também dialoga com o tempo, como nas duas versões de O encontro, meus contos preferidos. A primeira, mais calcada nas fotos, com um texto minimalista e altamente poético. A segunda, em uma narrativa mais extensa. Em ambas, um homem e uma mulher passam pelas mesmas ruas, separados por décadas, mas unidos pela sensação de que há alguém que os segue além de seus cotidianos. Ela, presa a um casamento fracassado e a uma vida medíocre. Ele, solitário, ávido colecionador de fotos antigas. Uma ruptura na vida da moça será causadora da (im)possibilidade do encontro. Tudo se liga quando ele descobre em um antiquário um antigo álbum de casamento com fotos rasgadas, nas quais o noivo foi extirpado da memória, jogado para fora do tempo.

No jogo de luzes e sombras, próprio da fotografia, temos o conto em que o narrador, um fotógrafo, encantado com as inúmeras imagens-clichê que pode obter na frenética Grand Central Station, em Nova York, fotografa um sujeito que lê e toma um café, talvez à espera de seu trem. Até que um passante lhe confidencia que aquele alvo das fotografias é ninguém menos do que Paul Auster. Mas será mesmo o famoso escritor, ali, dando sopa? A narrativa segue carregada de dúvidas, um tanto de mistério, pois não será Paul Auster o próprio passante pregando uma peça no jovem fotógrafo? Até o fim do conto, Ronaldo maneja com habilidade a dúvida e a curiosidade do leitor.

Os paradoxos e paranoias da burocracia estão no divertido e breve conto Bertilhonagem, uma história que seria surreal se a própria burocracia não o fosse. E por mais absurda que pareça, a saga do narrador tem total verossimilhança. Em Sala dos retratos, o aluno de uma escola católica é levado à sala do padre diretor para receber um castigo. Mas o maior dos castigos é ter de lidar com os retratos sisudos e aterrorizantes da coleção de padres diretores, cada um parecendo jogar sobre o garoto um caminhão de penitências. Ponto de fuga traz uma forte e comovente perspectiva de uma pessoa em estado de coma. Preso ao leito, tratado por uma enfermeira, o narrador percebe o que se passa ao seu redor, mas perdeu a consciência de quem é de quem foi. O retrato de um casal de meia idade colocado ao lado da cama e uma velha caixa de marchetaria são objetos que deveriam ter significado para ele. A única certeza que lhe assalta é a de que está preparado para a eternidade, que a morte já não lhe assusta e de que vai morrer sem entender quem é aquela pessoa da fotografia, que um dia, ao que parece, foi ele.

No conto Dois quartos, sala, cozinha e banheiro, entra em cena o fenômeno contemporâneo da perda da privacidade. Em um mundo no qual somos constantemente vigiados pelos algoritmos, mas no qual também nos submetemos à superexposição nas redes sociais, encontramos Tereza, uma executiva quarentona, bem sucedida, recém separada, em busca de um apartamento. E também de experiências. Nessa busca, o encontro com Júlio, um jovem corretor de imóveis, noivo, ansioso por “subir na vida” e também por experiências. A relação entre os dois acaba por acontecer, começando por transas em apartamentos vazios e muitas fotos comprometedoras nos celulares de ambos. Logo, Júlio é apresentado ao círculo de  amizades de Tereza, onde há um frisson pelo jovem garanhão e um choque evidente de universos culturais. Até que o celular de Tereza é roubado. E vem à tona o tormento do possível vazamento das fotos. O conto é carregado de tensão e de reviravoltas surpreendentes. Mais uma vez, Entler revela habilidade para guiar a curiosidade do leitor.

A última narrativa é o conto que encerra o livro. Nele, “o último indivíduo da espécie acaba de morrer” e é nessa história que Entler faz o desfecho e amarra a reunião de contos de seu livro, dando ao leitor uma reflexão final sobre o poder das palavras e também das imagens. É um texto sobre literatura e fotografia. Mais do que isso. É uma ode à narrativa, à arte de contar histórias, que, segundo o autor, torna

“o narrador mais livre do que Deus: ele pode ser igualmente onisciente e onipresente. Mas, em nome da narrativa, pode ser imperfeito, ignorante, passional. Pode ser parcial, colocar-se em certo ponto de vista, pode enxergar apenas uma fração das coisas. Pode se deixar surpreender. Pode fazer o tempo ir e voltar. Ou, como acontece agora, diante destas imagens, pode ficara preso num instante em suspensão, que, no entanto, segue movendo a narrativa.”

E não deixando de lado o ofício, o autor fecha o livro com uma provocação que certamente é cara aos profissionais e artistas do visual: “no princípio, era a imagem.”

A edição de Diante da sombra é da Confraria do Vento. Um livro que traz belas fotos exigia o capricho e a qualidade que a editora conferiu à obra, com projeto gráfico de Lorota e Pranayama Design. Importante destacar, nestes tempos de demonização do investimento público em cultura, que a publicação teve apoio do ProAC, programa de fomento da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de São Paulo.

 

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