Joel e o sentido da vida

Joel é um menino desajustado. É que o descobrimos logo nas primeiras páginas da leitura de Cancún, primeiro romance de Miguel Del Castillo, brasileiro, recém publicado pela Companhia das Letras. Castillo tem carreira no mercado editorial e publicou contos elogiados e premiados até se aventurar pela primeira vez no formato.

Joel está às portas da adolescência. Vive com a mãe em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O pai acaba de voltar de forma abrupta de uma temporada de residência em Cancún, o balneário fantasia mexicano, criado pelos grandes resorts “all inclusive” para atender  a uma clientela com dinheiro para queimar e ávida por quantidades industriais de comida e drinques coloridos regadas a massagens da moda, programas “animados” para grupos e excursões para falsas aventuras, em um ambiente cercado de pobreza e violência ocultadas pelos altos muros dos hotéis. Nada muito diferente do cenário em que o garoto vive, na Barra dos condomínios e malls.

Ele convive com o sobrepeso e com uma inadequação no ambiente escolar. Tem poucos amigos, muitas vergonhas e uma timidez quase incurável. Transita entre o mundo evangélico de sua mãe, recém convertida, e o pai bon vivant, que coleciona namoradinhas, mudanças de endereço e as reminiscências daquela obscura temporada de negócios no Caribe mexicano.

A prosa vai se construindo em um vai e vem temporal. Capítulos que alternam a voz narrativa e viajam no tempo. O Joel menino é narrado na terceira pessoa. Quando se dá o salto para os dias correntes, o Joel adulto fala com o leitor em primeiríssima pessoa, criando uma quebra de estilos que faz um interessante jogo de pontos de vista. É como se o Joel adulto relatasse a vida de menino e adolescente com um distanciamento e uma perspectiva crítica de quem conseguiu enfim compreender o que sentia e vivia naqueles tempos que parecem distantes e um tanto enevoados por memórias que vão ficando opacas. Ele tem lembranças escassas dos primeiros cinco ou seis anos de vida e sentimentos confusos sobre o período seguinte, até a entrada na adolescência.

O Joel adulto é jornalista, repórter especial do caderno de cultura de um grande jornal. Casado com Juliana, faz seu relato durante o período em que o casal espera pela chegada do primeiro filho. É quando morre seu pai, depois de uma sequência de AVCs. É quando também o testamento começa a revelar partes de um passado obscuro. Joel se vê diante de uma boa herança. Tem um quase irmão, enteado do pai. E a assistente pessoal do velho, que recebe uma pequena parte, mas é para o filho natural que a maior parte dos bens é direcionada. Durante esse processo, descobre que o pai foi doleiro e movimentou fortunas de seus clientes em paraísos fiscais, daí a mudança para Cancún.

Na lembrança do menino Joel, a última viagem de férias para o balneário, interrompida repentinamente, com o pai ferido e assustado levando o garoto para o aeroporto deixa uma lacuna. O que terá sido aquela fuga? Por quê o pai jamais voltou ao México?

Cancún

Prestes a ser pai, Joel arruma uma série de desculpas no jornal, compra um conflito com a mulher grávida de 7 meses e parte só para Cancún, disposto a preencher as muitas lacunas daqueles anos. Conhece a cidade dos resorts, mas à medida que investiga o passado, como bom repórter, vai descobrindo o lado sombrio de uma cidade voltada para um turismo predatório e para a exploração de mão de obra barata e dependente. É nos bairros periféricos que descobre os vestígios da presença do pai, duas décadas antes. E experimenta o sabor amargo da violência agregada a um quadro de degradação social. As informações são inconclusivas, deixando mais dúvidas que respostas. Mas é nessa busca que Joel enfim parece se encontrar. Aquele garoto tímido, de difícil convivência social ainda habita o adulto que logo vai ser pai.

Cancún é um romance de formação absolutamente contemporâneo. A questão da religiosidade e da presença evangélica, que raramente é tratada pelos nossos ficcionistas, aparece carregada das contradições de um movimento que ganha cada vez mais espaço entre os brasileiros, mudando o perfil do voto e dos valores morais, notadamente conservadores. Joel tem um período de forte adesão à igreja, logo substituída por um afastamento e uma certa dose de ceticismo.

O romance faz parte de uma safra curiosa nas minhas leituras recentes, recheada de personagens com desajustes sociais, dificuldades de convivência no ambiente escolar, distanciamento dos pais e o mergulho na internet e nos games como parte de um alheamento que é também um escudo protetor.

A escrita de Del Castillo tem uma linguagem direta, muitas vezes descritiva em detalhes de situações cotidianas, como a parada para comprar hamburgueres em uma rede de fast food ou uma final de Champions League que Joel assiste ao lado do pai. Ao ambientar a trama entre Cancún e a Barra da Tijuca, coloca em cena os lugares de uma determinada faixa de gostos e escolhas das classes médias latino-americanas, revelando os contrastes entre a miséria extrema e a ostentação brilhante dos condomínios, centros comerciais e hotéis de veraneio.

Leitura boa e um autor para seguir.

Gostou? Comprando na Amazon por este link, você ajuda a manter o Lombada Quadrada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s