Paulo Freire, necessário e atual

Como diria Carlos Heitor Cony, “leio nas folhas” que em plena pandemia pais e mães de uma escola de elite paulistana, que cobra R$ 12 mil mensais para supostamente oferecer um ensino revolucionário, estão revoltados. Acusam a tal escola “novaiorquina” de não oferecer aulas regulares a distância durante o período de isolamento social. Mais do que isso. Dizem que foram levados a matricular seus filhos pelo encantamento do discurso de que ali, naquele ambiente seleto, seus ilustríssimos filhos teriam “networking” garantido para um futuro brilhante e promissor como líderes das finanças mundiais. Para usar uma linguagem que lhes é cara, conseguiriam um ROI vantajoso ao fim de um ciclo escolar baseado em “projetos” e trabalhos em equipe, sem o convencionalismo do currículo nacional, com professores e alunos em dinâmicas de grupo, deixando de lado a hierarquia e a tradicional relação mestre/aluno. Todo mundo aprendendo junto.

Parece que deu ruim, porque a escola, como todas as outras, foi pega pela pandemia, ao que parece, precisou recorrer ao convencionalismo e à estrutura vertical para transmitir conteúdos via internet e sequer concedeu descontos para as famílias revoltadas. A aflição de pais e mães é compreensível. Mas a ação da escola também. Todos fomos pegos de supetão pela chegada avassaladora da pandemia. Ninguém estava preparado e basta um pouco de reflexão para entender que aulas a distância no ensino básico não surgem do dia pra noite e que não se trata um aluno do ensino fundamental com o mesmo método daquele que está no ensino médio.

A pandemia também vai causar estragos no já enorme abismo que existe entre o ensino privado e a escola pública, já que nesta, parte significativa dos alunos não têm meios para acompanhar aulas online, isso quando elas acontecem. O sistema público é desigual, resultado de décadas de descaso com a educação em nosso país.

Todo esse introito é para falar de Paulo Freire.

Quis o acaso que nos primeiros dias da pandemia, em março, eu estivesse relendo Pedagogia do oprimido, uma das obras mais importantes e conhecidas do pernambucano que ganhou o mundo com seus conceitos, influenciando educadores e tornando-se uma referência para escolas públicas e privadas em todos os continentes.

Tive a honra de trabalhar na gestão municipal de São Paulo, entre 1989 e 1992, na área de comunicação, e acompanhar dezenas de reuniões de secretariado da prefeita Luiza Erundina, onde brilhava o professor Paulo Freire, secretário municipal entre 89 e 91. Também fui agraciado com a oportunidade de entrevistá-lo para vídeos institucionais da PUC-SP, onde lecionava desde a volta do exílio. E pude me aprofundar em sua obra quando trabalhei como editor do programa Escola Viva, da TV Cultura, em 1994, que era dedicado a pesquisar e divulgar boas práticas educacionais. Tive um mínimo de leituras sobre educação que me permitiram entender o tamanho da obra de Paulo Freire e seu diálogo com as melhores ideias e projetos, não apenas para ensinar pessoas – crianças, jovens e adultos – a ler e escrever, mas para formar cidadãos.

E é disso que se trata a Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. O livro, que já está na 79ª edição brasileira, foi escrito nos anos 1960, publicado em outros países ainda naquela década, mas, no Brasil, só teve sua primeira aparição nas livrarias em 1974, depois de ficar proibido pela ditadura militar. Freire estava no exílio, no Chile, quando o escreveu. Tinha seus direitos políticos cassados desde 1964 e foi duramente perseguido pelos militares, que achavam a experiência de alfabetização de adultos iniciada no Rio Grande do Norte e aprofundada na gestão do governador Miguel Arraes, em Pernambuco, coisa de comunista.

Aliás, essa “acusação” é feita até hoje por quem não consegue entender o alcance da obra de Paulo Freire, reverenciada pelo mundo, com ideias adotadas por sistemas públicos e privados de educação em todos os continentes e nos mais insuspeitos países capitalistas, EUA inclusos. Ele é o acadêmico brasileiro com maior número de citações em obras científicas em todo o planeta e também o maior detentor de títulos de doutor honoris causa em universidades.

No Brasil, curiosamente, as ideias de Paulo Freire são mais acolhidas por escolas privadas do que pelo sistema público, tal como a citada escola de elite do começo do texto, com boas e honrosas exceções, o que certamente explica a indigência de nossa educação pública e a desigualdade impressionante que existe em relação ao ensino particular.

Mas voltemos à Pedagogia do oprimido. A obra é uma continuidade do primeiro livro de Freire, Educação como prática da liberdade, que lançou as bases de seu pensamento para o mundo, rendeu convite para realizar estudos avançados e lecionar em Harvard, aquele antro comunista dos Estados Unidos, e um projeto educacional realizado no Chile e em outros países latino-americanos na segunda metade da década de 1960. O educador pernambucano faz um contraponto permanente entre dois projetos distintos de ensino.

De um lado, o que ele chama de “educação bancária”, em que professores, detentores do saber, de forma vertical, “depositam” conhecimentos na cabeça dos alunos, em uma relação hierárquica, aferindo a eficácia de seu método através de avaliações sistemáticas, apurando o quanto de conteúdo foi decorado e assimilado pelos seguidores, sem reflexão e sem contexto em relação à vida e a à realidade de cada comunidade escolar. É o caminho das cartilhas de alfabetização e de políticas educacionais planificadas e repetidas sistematicamente, em série, como em uma linha de montagem industrial. De outro lado, temos o que Paulo Freire chama de educação libertadora e dialógica, em que a relação professor aluno é horizontal, comunitária. Vem daí uma das frases mais lindas que já li sobre ensino, que conheci ainda nos tempos de militância na adolescência:

“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.

E é nesse postulado de Paulo Freire que talvez resida a incompreensão e a resistência aos seus métodos e ideias. Porque Freire propõe uma educação revolucionária, sim. Com base em correntes filosóficas distintas, inclusive o marxismo. Mas sempre com a ideia de liberdade, democracia e construção de uma sociedade igualitária a partir da tomada de consciência das classes populares pela educação, pelo diálogo e pela compreensão da realidade social, econômica e política, que faz de educadores e educandos protagonistas de uma verdadeira transformação.

Paulo Freire é mais atual do que nunca, em um país no qual se questionam os valores democráticos. Vivemos um período infeliz de aprofundamento das desigualdades sociais e de um ataque sistemático às boas experiências educacionais, públicas ou privadas. Nos últimos anos, movimentos antidemocráticos pregaram perseguição a professores e professoras que propõe a seus alunos uma educação libertadora. Escolas privadas de elite foram acusadas de comunistas por promover ensino reflexivo, distante da educação bancária. Sistemas públicos foram atacados e, desde o último ciclo eleitoral, as escolas militares e o ensino confessional passaram a ter apoio oficial, em detrimento de uma ideia mais avançada e republicana de ensino laico.

Há uma tentativa sistemática de banir Paulo Freire, patrono da educação brasileira, das escolas de seu país, enquanto, pelo mundo, sua vasta obra continua em destaque, ganhando estudos, reedições, influenciando novos educadores e dando o tom em sistemas públicos e particulares de ensino. Paulo Freire vive e deve ser lido e relido, compreendido e adotado entre nós para, quem sabe um dia, a educação seja uma prioridade nacional de fato, para construção de um país melhor e justo.

Pedagogia do oprimido, assim como toda a obra de Freire, é publicada pela Editora Paz e Terra, que hoje pertence ao Grupo Editoral Record. Não é uma obra fácil, mas é uma leitura necessária.

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