A quarentena e os hábitos de leitura

Não sei vocês, mas a quarentena teve um impacto enorme sobre meu ritmo de leitura. Para pior. Muita gente adora trabalhar em casa, e eu entendo o porquê, mas definitivamente, não é pra mim. O homeoffice alterou totalmente as rotinas que me permitiam ter momentos certos para leitura ao longo do dia.

Uns anos atrás, escrevi uma lista de dicas sobre como aproveitar o tempo para ler mais, inteiramente baseada na minha própria estratégia de leitura que consiste, basicamente, em ter sempre um livro por perto. Mas agora que eu trabalho o dia inteiro olhando para minha biblioteca, nunca tive tão pouco tempo para usufruir dela.

Em primeiro lugar, perdi a possibilidade de ler no transporte público. Esse sempre foi meu momento privilegiado de contato com os livros, desde a faculdade. E era um importante ritual de virada de chave casa-trabalho-casa na minha rotina. Acordar, às vezes fazer ioga, comer, tomar banho, me vestir e ir ao ponto de ônibus. Escolher a poltrona de apenas um lugar na frente do cobrador (antissocial, eu sou), abrir o livro – um leve, que coubesse na bolsa – e torcer por um leve engarrafamento na Teodoro Sampaio.

Depois, esticar o trabalho até a hora em que o restaurante estaria vazio, sentar numa mesa lá fora, pedir o prato do dia e abrir outro livro – um grande, normalmente clássico, que fica na mesa do trabalho para ser lido especificamente nesse momento. Mais meia hora de leitura, pelo menos. Na volta do trabalho pra casa, novamente o busão e o ritual de abrir o livro guardado na bolsa e descomprimir até chegar em casa.

Nada disso rola mais, há 107 dias.

O fechamento de restaurantes, cinemas, teatros e estádios de futebol também teve seu quinhão de efeitos sobre meus hábitos de leitura. Sempre me programava para chegar mais cedo nesses lugares, meia hora pelo menos, para poder ler enquanto esperava a mesa, o filme, a peça ou o jogo (nesse caso, com um Kindle, já que a PM de São Paulo não deixa entrar livro nas canchas). Zé fini.

O que descobri com tudo isso é que o homeoffice pode ser um triturador de carne humana para quem, como eu, tinha uma vida regrada por pequenas rotinas de deslocamento. Não é que você trabalhe em casa; você acorda, come, toma banho, cuida das plantas, bebe e transa no seu trabalho. Ioga, pilates e exercícios em geral? No meio do trabalho. Cachorro para passear? Entre uma call e outra. Regar as plantas? Debatendo estratégias com o fone de ouvido. Almoço, como é? O prato chegando ao mesmo tempo em que o computador sai da mesa, sem nenhum intervalo entre a elaboração de um relatório e a aterrizagem de uma travessa de arrumadinho.

Eu sei que deveria ter adaptado meus hábitos de leitura à realidade vigente, mas talvez eu ainda esteja apegada às minhas antigas rotinas com a esperança de que elas vão voltar. Fato é: façam o que digo, não o que eu faço. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa quarentena – embora eu ainda não a pratique – é que é preciso criar espaços de respiro no meio do homeoffice. Trabalhar em casa de moletom, chinelo e camisa de bloco de carnaval, com seu cachorrinho fofo aos seus pés, pode dar uma falsa sensação de aconchego que não vale de nada se não houver uma disciplina real a respeito do seu tempo. Workaholics terão dificuldades com isso.

Tenho tentado manter a lógica anterior de livro leve/livro pesado no dia a dia, para ter pelo menos duas leituras em andamento ao mesmo tempo. Então, tento fazer assim:

Hora do almoço – Teoricamente, enquanto Carlos está finalizando o prato do dia, eu deveria já ter tirado o computador da mesa e ido ler na rede. Um livro leve (leve no sentido físico mesmo, fácil de manusear), que pode ser um romance, um livro de contos ou um ensaio. Minha meta pessoal é ler um desses por semana, contando de segunda a sexta. Depois do almoço, se ainda sobrar um tempinho, deveria ler mais um pouco antes de voltar à mesa. Ainda não consegui implantar inteiramente esse hábito, mas continuo tentando me dar os 60 minutos de almoço no dia a dia.

Fim de semana – Embora ainda sobre muito trabalho para o sábado e o domingo, aqui eu consigo separar mais o casa/trabalho. E como não há outras opções de fruição cultural para competir com os livros além da TV (a que eu assisto muito pouco), consegui estabelecer um ritmo ótimo de leitura de clássicos aos sábados e domingos. Dentro dessa quarentena, terminei Dom Quixote (post aqui), Anna Kariênina e Duna. Acabei de começar Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, de Ariano Suassuna, e estou pensando em pegar Crime e Castigo logo depois. Ponto pra mim.

Tenho visto que outras pessoas também tiveram o impulso de se voltar aos clássicos durante a pandemia. A audiência do blog aumentou consideravelmente desde o início da pandemia, mesmo que a gente não tenha aumentado a frequência dos posts. E os livros mais procurados são justamente esses. Talvez busquemos um pouco de permanência nessa sandice toda.

Entre uns e outros… – Desde o ano passado me propus a ler mais poesia. Então, entre um romance ou ensaio e outro, eu cato um livro de poesia. Em geral são livros mais curtos, embora mais densos, e servem como um respiro de humanidade concentrada nesse cotidiano doido. Infelizmente, ainda tenho pouca segurança para escrever sobre o gênero em posts mais longos. Mas posso mencionar que gostei muito de alguns dos últimos que li: Quadro de força, de Fabio Weintraub (Editora Patuá); Watsu, de José Juva (Cepe Editora); 13 Nudes, de Adelaide Ivánova (Edições Macondo); e o acachapante A mulher submersa, de Mar Becker (Editora Uratau), que veio numa dica preciosa de Micheliny Verunschk.

Minha meta para este ano é de ler 65 livros. Cheguei aos trinta no final de junho, o que não é de todo mau – mas preciso confessar que minha expectativa quando a quarentena foi instaurada era de dobrar a meta. C’est la vie. Em vez disso, estou tentando manter a sanidade e não adoecer de Brasil nesse fatídico ano de 2020 em que descobrimos, da pior forma possível, que o poço não tem fundo.

Mas e vocês? Como estão conseguindo ler e lidar com essa realidade bizarra? Conta aqui pra tia, nos comentários.

11 comentários sobre “A quarentena e os hábitos de leitura

  1. Eu estou passando por um processo assustador: de leitora compulsiva a quase não leitora – para os meus padrões. Ainda que o tempo disponível não colabore (não sair de casa tem feito o trabalho remoto e as tarefas domésticas se desdobrarem quase ao infinito), fico achando que a narrativa distópica em que nós estamos mergulhados, acrescida das bizarrices do desgoverno, ocupam quase todo o espaço que antes era prazerosamente preenchido com livros! Em resumo: ainda tentando me adaptar e já é julho, deosmeo!!

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  2. Até que estou conseguindo ler bastante,mas tem dia q vc quer ler bobagem…li coisas q normalmente não leria,aquele tipo de coisa descartável,pra não pensar mesmo…tipo …relendo Harry Potter…um pouco de fantasia faz bem.

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  3. Sempre li muito em tempos de transporte público. Para minha sorte, porém, de 2017 para 2018 houve um mudança brusca em minha rotina e passei a ter mais dias em casa que na rua. Na época, passei a tentar reservar uma ou meia hora antes de dormir para ler. E agora tive de retomar esse hábito. Não é a mesma coisa, definitivamente. Depois de um dia exaustante, a gente não consegue ler muito nesse momento. Mas é o que me resta e é, também, o que me relaxa.

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  4. Meu ritmo de leitura está como uma montanha russa, estou no último ano da faculdade então sabia que ia ler bem menos por conta do TCC, mas mesmo assim teve meses que não li nada, teve um mês que eu li dez.
    Quanto a realidade crises de choro, literatura, Ioga e aquarela de vez em quando, me ajudam a manter a sanidade.

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  5. Eu tinha um excelente ritmo de leitura, com estratégias para ler clássicos, contemporâneos intercalados por YA para descansar a mente. Nessa pandemia não estou conseguindo ler nada, nem os livros mais bobinhos da biblioteca.
    Vejo as minhas estatísticas no Goodreads e me dá uma angústia profunda. Não ler como outrora é mais uma tristeza nesse 2020.

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  6. Eu também sentir o impacto da quarentena, parece que estando mais em casa temos menos tempo que antes. Eu por exemplo gasto bem mais tempo com as tarefas de casa e o resto é levado por outras distrações, o estranho é que eu realmente gosto de ler mas recebo tanta informação ao longo do dia que fico saturada, e me sinto cansada para fazer qualquer outra coisa mesmo se tratando de passatempos. Porém ainda tento ganhar tempo e reservo mesmo que curto período para ler e escrever.

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