A literatura psicodélica de Agrippino

“Eu estava começando a leitura de PanAmérica, epopeia de José Agrippino de Paula, quando milhões de borboletas multicoloridas saíram das páginas envelhecidas do livro, formando um redemoinho em torno de mim. Foi aí que senti a força da união das borboletas amarelas em formação de pássaros, erguendo meu corpo e me fazendo voar para fora da janela do quarto em direção à noite escura. O sol brilhava sobre o oceano e eu viajava em direção à Califórnia, para encontrar meus amigos, astros de Hollywood durante um terremoto e um cataclismo que destruiu praticamente todo o território do enorme estado norte-americano. Quando as araras azuis que me transportaram pelos oceanos baixaram o voo, pulei no set de filmagem onde o mega diretor Alfred Hitchcock dava ordens para a próxima cena em que Marylin Monroe seria esfaqueada por um bando de gafanhotos assassinos. Marilyn me viu e deu um gritinho de surpresa, provocando a ira do diretor e dos gafanhotos que estavam preparados para os tiros de revólver. Nesse momento, fui abordado por homens de preto, com óculos Ray-Ban, que se apresentaram como agentes do Departamento de Ordem Política e Social, o temido DOPS. Estavam ali para me prender por atividades subversivas.  Dei um salto ágil e escapei dos bandidos armados correndo pelas ruas de Manhattan até chegar à orla de Copacabana e encontrar meus amigos para tomar uma cerveja e falar sobre minha relação amorosa com Marilyn….”

Se você leu até aqui, saiba que eu não endoidei de vez, mas foi por pouco. Esse texto é meu, mas o universo dos acontecimentos sem pé nem cabeça vem do romance de José Agrippino de Paula, publicado pela primeira vez em julho de 1967 pela editora Tridente. Estávamos nos primeiros anos da ditadura militar, o mundo fervia com rock, a guerra fria, a corrida espacial e a ebulição que daria espaço para o surgimento da contracultura. A juventude, em todo o mundo, vivia momentos de inquietação. No Brasil, os festivais de música eram a coqueluche. E, justamente em 1967, um dos festivais da TV Record foi palco de lançamento de canções que se tornaram clássicas. Havia ali um embate entre o samba e a tradição, a música eletrificada de uns moços baianos e as canções engajadas. Esse universo está magistralmente retratado no documentário Uma noite em 67,  de Renato Terra e Ricardo Calil, que tem sido exibido no Canal Curta.

Desse caldo cultural e das aparições de Gilberto Gil, com Os mutantes, e de Caetano Veloso, com a guitarra da abertura de Alegria, alegria tocada por um argentino, começavam a borbulhar as ideias que formaram o movimento que passaria a ser chamado de Tropicália, a partir do agitado ano de 68. Entre as muitas referências do tropicalismo, estavam as obras de José Agrippino de Paula, de quem os amigos baianos se aproximaram. Se você lembrar, na letra de Sampa, anos depois, Caetano cita o paulista Agrippino no verso “panaméricas de Áfricas utópicas…”

Fiquei anos com esse livro na cabeça e a ideia de que um dia ainda o leria. Até que Renata garimpou em um sebo essa primeira edição, em perfeito estado, com a capa do artista plástico Antonio Dias e o miolo em papel jornal de gramatura alta, que envelheceu com esse tom amarronzado, fazendo um belo contraste com a impressão, que parece toda em negrito.

A epopeia é narrada em primeira pessoa, mas com múltiplas vozes e situações em que o narrador, como se estive em um enorme estúdio hollywoodiano passa de um set para outro, encarnando situações as mais variadas. Começamos com a descrição de como ele está dirigindo a cena de um filme bíblico, com centenas de helicópteros que fazem anjos voar, um enorme oceano de gelatina e milhões de soldados egípcios sendo engolidos pelas “águas” depois da passagem dos milhares de judeus conduzidos por Moisés. Além da grandiloquência da cena, o estranhamento se dá com a reação um tanto blasé do narrador por conta do acidente que mata centenas de figurantes. É aí que cai a ficha de que as próximas 250 páginas serão de puro delírio, uma viagem psicodélica que vai misturar Marilyn Monroe, Joe DiMaggio, o então ainda Cassius Clay, John Wayne, Harpo Marx, Che Guevara, Burt Lancaster, um Frank Sinatra bêbado e bobalhão, políticos americanos, o brasileiríssimo DOPS e uma sucessão nonsense de acontecimentos.

Tal como no meu texto de abertura, Agrippino faz em uma mesma sentença alternâncias de clima ou de geografia, tornando “natural” ao longo da narrativa um encontro com Marilyn que começa à noite e pula para uma tarde ensolarada na praia com sexo ao ar livre, mudando de Los Angeles para o Rio de Janeiro como quem dobra a esquina.

No meio de tudo isso, existe uma crítica evidente à indústria cultural americana, especialmente o cinema. O narrador é um latino-americano que vive uma epopeia em que estão presentes o sexo compulsivo com Marilyn, meninos e meninas, homens e outras mulheres, e uma disputa onipresente com DiMaggio, que havia sido marido da blondie. A briga com o jogador de basebol é violenta e permeia boa parte do romance, simbolizando também uma briga contra o império e a vontade latente do personagem de causar destruição e caos, uma quebra da ideia de perfeição vendida pelo american way of life que no fim das contas é pano de fundo para uma sociedade que cultua a guerra, as armas e a morte, presentes em todos os capítulos do romance. A forma como o corpo de Marilyn é visto como um território a ser invadido é talvez a maior simbologia desse desejo de atacar e destruir o inimigo. Em outra leitura possível, e distanciada pelo tempo, assistimos também a uma briga de dois machos que não se importam em matar e destruir tudo ao seu redor para medir sua potência diante do inimigo. Outra perfeita alegoria da guerra e dos impulsos de morte de líderes mundiais. Podemos substituir o narrador e DiMaggio por Trump e os chineses?

PanAmérica não é um livro fácil e tem cenas que hoje passariam por altas discussões, especialmente aquelas ligadas à objetificação dos corpos no sexo. E também o modo um tanto caricato como os atores e esportistas negros são retratados. Mas foi uma leitura que deu liga com os vários experimentalismos do curto período de ferveção da Tropicália. Caetano e Gil pagaram tributos a José Agrippino, mas acho que é nas obras de Jards Macalé, Jorge Mautner e Tom Zé que o universo do romance mais encontra eco.

Ficou curioso e quer ler? A boa notícia é que a editora Papagaio, do amigo Sérgio Pinto de Almeida e de Denise Natale, relançou o livro e publicou mais duas obras de Agrippino. Você pode acessar o site da editora aqui e comprar diretamente com eles ou escolher sua livraria preferida.

P.S.: na foto, Marilyn e Joe

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