A última noite de José Wilker

Outro dia postei um story no Instagram com a pilha de livros que eu tinha conseguido ler pouco mais de dois meses depois de defender o mestrado. Depois, como quem não quer nada, abri uma caixinha perguntando qual deles deveria ser o próximo livro resenhado pelo Lombada Quadrada. E esse aqui ganhou de lavada: A última noite de José Wilker, livro de contos do escritor recifense André Balaio, que já é habitué aqui do blog (dele, resenhamos Quebranto e a transposição para história em quadrinhos de Assombrações do Recife Velho).

Balaio é um dos criadores do site O Recife Assombrado, que já há mais de vinte anos divulga a cultura do terror da capital pernambucana. Seus dois livros anteriores são classificados como literatura de terror, mas depois de ler A última noite de José Wilker fiquei pensando um pouco sobre esses rótulos. Pois o que mais me impressiona nos textos de Balaio, desde Quebranto, é a forma como as pessoas comuns em situações triviais são retratadas, em detalhes invisíveis na pressa do dia a dia. Se no meio das narrativas curtas algo fantástico acontece e a isso chamamos de terror, tudo bem – mas não é o essencial. Às vezes, o pior desconforto vem justamente do cotidiano.

Nesse sentido, a leitura me lembrou um pouco a de Las cosas que perdimos con el fuego, da argentina Mariana Enriques (já resenhado por Carlos) que eu havia lido um pouquinho antes. O conto que abre o livro de Balaio, Exposição, é um grande exemplo disso: o funcionário de um escritório vai de stalkeado a stalker de um novo colega de trabalho por quem acaba desenvolvendo uma afeição homoerótica que ele reluta em reconhecer. A sequência final o leva a encontrar o amigo em um canto escuro da exposição de animais do Parque do Cordeiro. Nada de sobrenatural acontece no conto – se é que podemos considerar assim a descoberta tardia de uma sexualidade dissidente na idade adulta em meio a uma sociedade preconceituosa. Enquanto observa as pessoas indo e vindo na exposição, o personagem pensa sobre os outros o que, depois, percebemos se referir a ele próprio: “talvez seja caro o passeio de pônei, talvez seja triste a espera de alguém; eu sinto pena dos ignorados, daqueles que giram, giram e terminam sós“.

Gabriel, o conto seguinte, reforça essa impressão. A família de um menino é chamada à escola porque ele parece ter a estranha (será?) obsessão de se desenhar de mãos dadas com um demônio. A mãe acha normal, mas o pai ultra cristão, não. A mãe sai para trabalhar em uma clínica e quebra os óculos acidentalmente; o toque de terror vem do som da TV, ligada em um canal evangélico que transmite o culto em que um pastor expulsa o demônio do corpo de uma criança.

Os dois contos seguintes flertam mais diretamente com a fantasia. Em Ruas e rodas, os veículos marcados com um raio vermelho parecem ter vida própria, dominando seu dono; em O arremate, um jovem vai encomendar um terno a um alfaiate que foi jogador de futebol; e depois de várias idas ao seu ateliê e de longas conversas sobre o jogo, descobre que o cidadão havia morrido fazia cinco anos. Ainda que a premissa seja um pouco batida, por razões extremamente pessoais curti a mistureba inusitada entre costura e futebol.

Além de dar nome ao volume, o último conto (ou novela) A última noite de José Wilker é como uma síntese do livro, trabalhando tanto sobre questões comuns quanto incorporando uma sequência fantástica mais direta. Nesse caso, o tema central é o medo da morte: ao ver as notícias sobre a morte do José Wilker, o personagem principal entra em parafuso e tenta reproduzir todos os passos da última noite do ator em busca de entender o que lhe aconteceu – e talvez, fugir do mesmo destino. Wilker morreu em casa, de madrugada, de um infarto absolutamente inesperado. Na noite anterior, havia tido um jantar agradável em seu restaurante preferido no Rio de Janeiro e, até onde se sabia, estava bem de saúde.

Hipocondríaco, professor universitário, morador de Olinda e filho de um militar – a antítese dos personagens de Wilker, como ele conclui – ele viaja ao Rio de Janeiro para perseguir essa obsessão. Balaio manobra bem o texto entre um tom que é cômico e ao mesmo tempo melancólico: enquanto o personagem é atormentado pelo medo de uma morte que pareça “um filme interrompido no meio”, é impossível não achar graça de sua tentativa meio desastrada de entender o que não tem explicação.

A última noite de José Wilker é, além disso, um conto sobre o período recente e terrível da história brasileira em que parte da população sentiu que tinha licença para destilar preconceitos como se fosse mera questão de opinião. A certa altura, o personagem concorda em um jantar a quatro, com um casal de amigos e uma terceira pessoa que lhe seria apresentada como possível pretendente – uma médica loira, conservadora e partidária da expulsão dos colegas cubanos trazidos ao Brasil para atender em lugares onde – ora, vejam – os médicos brasileiros não queriam trabalhar. Ao levantar de propósito uma questão sobre pessoas trans, ele consegue tirar a criatura do prumo, no que é uma das melhores descrições da perda da razão por quem já não tinha muita:

Pareceu a Vitória da Samotrácia, escultura de pernas carnosas e retesadas do Museu do Louvre, os músculos desenhados pela raiva. Bela, esvoaçante e sem cabeça.

Curtiu? A última noite de José Wilker foi publicado pela editora Caos & Letras, de Nova Lima, Minas Gerais, e pode ser comprado direto com eles.

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