O fantástico do cotidiano

A literatura fantástica é um rótulo em que cabe muito coisa, das séries arrasa-quarteirão com vampiros adolescentes a trabalhos sérios e com uma intenção estética consciente – quando não sociológica, caso do clássico Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre. Quebranto, livro de contos que André Balaio vem lançar dia 12/5 em São Paulo, está no segundo grupo, e faz pensar o lugar do fantástico em um mundo que está cada vez mais pra ficção científica.

WhatsApp Image 2018-05-05 at 20.30.19O tema não é novidade para Balaio, fundador do projeto O Recife Assombrado, que há 18 anos trouxe para internet, de maneira pioneira, os causos fantasmagóricos e as lendas urbanas da minha cidade natal. O Recife, para quem não sabe, é a capital universal dos boatos, uma característica que assume ora a feição de um esporte coletivo, ora de uma grande piada interna a serviço da reafirmação da identidade local. Basta dizer que na minha primeira manhã de estágio no Diario de Pernambuco, no longínquo ano de 1999, uma das pautas do dia era a recorrente aparição de um lobisomem na periferia da cidade.

Obviamente, não tinha lobisomem nenhum, mas – e ninguém jamais admitiria publicamente – o barato coletivo era agir como se houvesse: a polícia foi acionada, BOs foram preenchidos, depoimentos foram coletados, caçadas foram feitas, matérias foram publicadas em papel e na televisão. O frisson desses arroubos sempre dura o tempo de perder a graça ou até arrumarmos outra lenda urbana para ocupar nossa fértil imaginação recifense. Esta é uma característica que aparece com certa frequência na produção cultural da cidade – diretor de Aquarius O som ao redor, Kleber Mendonça Filho tem ao menos dois curtas-metragens anteriores baseados em causos fantásticos  (clique nos links para assistir Vinil verde A menina do algodão).

Quebranto até se refere à lenda urbana da menina do algodão e à aparição de um lobisomem na periferia da cidade (que pode ou não ser uma alusão àquela pauta do meu primeiro dia de estágio), mas o conjunto de contos publicado por André Balaio difere totalmente da intenção de Gilberto Freyre, por exemplo, que registrou os causos populares da cidade. Os contos deste volume são criações originais com narrativas inseridas no cotidiano contemporâneo – mas sem deixar de beber, reverentemente, no passado. O grande trunfo de Quebranto é o equilíbrio: nem há saudosismo, tampouco a ânsia de parecer absolutamente atual, que faz alguns livros coalharem de referências à internet e à vida mobile.

São 13 contos, dos quais marquei cinco como preferidos – quatro deles estão juntos no miolo do livro e são os que melhor apresentam o equilíbrio que mencionei, entre eles Quebranto, que dá o título ao livro. Neste, uma mulher se apresenta como repórter num fazenda do interior alegando querer entrevistar seu proprietário, um homem com hábitos de coronel. Quando uma doença inexplicável o deixa paralisado no fundo de uma rede, a moça recorre a uma rezadeira para tentar salvá-lo, quando então é revelada a verdadeira ligação entre eles – e a possível causa dessa doença.

O ambiente que rescende a casa grande também aparece em Eu sou o filho do homem, em que um usineiro contemporâneo rejeita o filho nascido com Síndrome de Down. Já Prata da casa Terra úmida têm em comum personagens principais introvertidos, que acabam chacoalhados de alguma forma por acontecimentos macabramente reais. Os quatro contos também são convergentes ao investir na construção psicológica das narrativas, colocando os personagens (e os leitores) continuamente em dúvida sobre o que é uma realidade narrativa e o que é apenas imaginação e loucura advindas de situações extremas.

Balaio também acerta no equilíbrio de uma linguagem que tem sua poesia sem tentar ser forçadamente estetizada, e que guarda a cor local sem maneirismo; em ambos os casos, o resultado é simplesmente honesto, como na melhor tradição de Edgar Allan Poe, Murilo Rubião ou José J. Veiga. Dessa forma, o autor que há quase duas décadas trabalha na preservação e difusão das assombrações do Recife inclui na lista suas próprias criações nesta biblioteca fantástica.

Gostou? O livro está a venda no site da Editora Patuá. Neste link, você também pode ler o conto Quebranto. E no dia 12 de maio, a partir das 19h, o autor estará em São Paulo para o lançamento do livro no bar e livraria Patuscada – Rua Luis Murat, 40, Pinheiros. Nós do Lombada estaremos lá. 🙂

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