‘Carapaça escura’ e o terror que vem do Recife

“O mistério continua conosco, homens do século XX, embora diminuído pela luz elétrica e por outras luzes. Por que desconhecê-lo ou desprezá-lo em dias tão críticos não só para certas fantasias psíquicas como para certas verdades científicas, como os dias que atravessamos?” 

A frase de Gilberto Freyre encerra o prefácio à primeira edição de Assombrações do Recife Velho, publicado em 1955. Setenta anos depois, continua atualíssima. Não é à toa que Bacurau intriga plateias de todo o mundo fazendo uso justamente do insólito, do não-explicado, para atacar a bizarria da nossa atualidade política. O que pouca gente se dá conta é de que o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles não está e nunca esteve sozinho: há uma consistente e longeva produção cultural em Pernambuco que usa o mistério como motor.

O próprio Kleber Mendonça filmou histórias de terror em seus primeiros curtas-metragens. Há quase 20 anos, o blog O Recife Assombrado se dedica a divulgar o imaginário do gênero em Pernambuco. Mais recentemente, o podcast Toca o Terror vem discutindo a produção de horror no mundo sob o olhar recifense. Aqui mesmo no blog já falamos dos trabalhos de André Balaio (um dos fundadores d’O Recife Assombrado) e de João Paulo Parísio, ambos autores de excelentes livros de contos do gênero. E hoje acrescentaremos mais um à lista: Frederico Toscano, que lançou este ano seu primeiro livro de ficção, Carapaça escura, pela Editora Patuá.

Toscano tampouco é um desconhecido aqui do blog. Gastrônomo e historiador, já resenhamos dele os livros À francesa: a belle époque do comer e do beber no Recife, dissertação de mestrado que conquistou terceiro lugar do Prêmio Jabuti na categoria Gastronomia; e O terceiro homem, ensaio sobre o fotógrafo amador Ivan Granville, que registrava cenas do cotidiano e edifícios históricos do centro do Recife nas primeiras décadas do século XX.

20190910_091452Curiosamente, na resenha d’O terceiro homem destaquei justamente o fato de que grande parte dos lugares registrados por Granville não existem mais; o Recife de hoje, portanto, seria uma cidade fantasma. De certa forma, é a esse tema que ele recorre em boa parte dos dez contos de Carapaça escura: o assombro vem, em primeiro lugar, de uma tensão causada pela decadência do espaço; de um ambiente que existia e se foi, mas permanece como uma memória incômoda a lembrar que o hoje é também produto da ruína.

O hoje também aparece na clara intenção de comentar questões sociais contemporâneas, como o machismo, a violência contra a mulher e a permanência de uma certa atitude “casa grande” entre personagens da elite, que se recusam a abandonar velhos hábitos do passado que aparecem como símbolos de um poder irrestrito já não tão possível (de novo, a ruína que assombra).

É assim desde o primeiro conto, em que um militar aposentado desce de seu apartamento à beira mar para pescar na praia de Boa Viagem com iscas vivas, desprezando os pescadores que usavam iscas artificiais. Mais do que um purismo técnico apenas, a atitude do coronel revela o apego à possibilidade de dispor da vida de outros, como se apenas cumprisse um desígnio natural, o que lhe desculpa todas as demais violências que serão reveladas até o fim do conto – “[os peixes] engoliam comida de verdade e por ela pagavam com suas vidas. Como havia de ser”.

Em Carapaça escura, que dá título ao livro, aparece claramente o trabalho do autor-historiador. Ambientado no começo dos anos 1960, o conto narra a angústia de um escafandrista empregado no Porto do Recife, um trabalho mal pago e em condições que a todo o tempo colocam a sua vida e a dos seus colegas em risco. A reconstrução do centro do Recife nesta época de pós-guerra é incrível; como moradora da cidade, perceber aquilo que permanece e assinalar o que não existe mais é um exercício como folhear as fotos de Ivan Granville. E do ponto de vista do insólito, um artifício sensacional: as águas escuras do Rio Capibaribe são abismo e portal para outros mundos, mas bem no coração da metrópole, sob a indiferença de todos os que cruzam as pontes apressados. Um recurso que gera identificação com o lugar e, portanto, potencializa o suspense proposto pela história.

Em muitas ocasiões, os contos de Carapaça escura são também veículos de vingança – é o que acontece em Cabidela, o meu preferido, e aquele no qual Toscano usa também sua formação como gastrônomo. Casada com homem que só bebe e a trai, uma cozinheira da periferia recifense transpõe toda sua raiva de forma sobrenatural para os corpos das galinhas que degola. Sua especialidade é justamente a cabidela, em que a ave é cozida lentamente no próprio sangue. Enquanto está tomada pela ira, as galinhas sem cabeça permanecem de pé e correndo, batendo desorientadas contra os móveis, às vezes por horas. No auge da raiva, as panelas se batem no fogão. O fim deste conto é duplamente macabro, pois o desfecho bizarro é construído aos poucos e facilmente dado a entender ao leitor, que espera impassível que a história tome o rumo mais violento possível.

Já em outros contos Toscano se aproxima dos registros das assombrações de Gilberto Freyre, como em Menino sem olhos. Aqui, o personagem principal não é uma pessoa, mas o oitão de uma casa antiga. Oitão, para que não sabe, é o corredor estreito lateral que margeia externamente casas coloniais. Quase um túnel, cercado de muro de um lado e parede fechada do outro, o oitão é um canto inóspito, em geral sombreado, e sempre passível de abrigar um fantasma ou dois. Nessa história, um menino solitário brinca de jogar bola nesse lugar, e o brinquedo misteriosamente é jogado de volta para ele. Não deixa de ser um clichê do gênero, mas o ritmo faz toda a diferença: o conto é inteiro marcado pela batida da bola no chão e na parede, quase musicalmente.

Em outro dos meus contos favoritos, o personagem principal é Azeviche, um gato preto que trafega entre dois mundos, protegendo uma criança humana de criaturas sobrenaturais – um exercício interessante sobre o comportamento peculiar dos felinos (se você é gateiro, vai adorar). Carapaça escura tem um ponto fraco, que é o conto Brinca comigo, no qual brinquedos antigos se rebelam contra crianças que os abandonam para jogar em tablets e celulares. Perto dos outros, a história acaba tendo um certo purismo ingênuo, uma quebra na forma como a contemporaneidade aparece no restante do livro.

De toda forma, é um trabalho que confirma o talento de um escritor que sabe trafegar entre gêneros completamente diferentes com um texto igualmente fluido. Diz que já tem outro livro pronto. Aguardamos ansiosamente.

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