Amazônia em dois tempos

Por esses acasos da vida, no intervalo de poucas semanas, dei de ler dois romances situados na Amazônia. E sem qualquer intenção prévia, o tema apareceu para mim semanas antes da região ter entrado no noticiário internacional por conta das queimadas criminosas patrocinadas, ao que tudo indica, pela sanha do mau agronegócio, com incentivo explícito da autoridade máxima do país.

A primeira leitura foi de Órfãos do Eldorado, do manauara Milton Hatoum. Alguns livros depois, apareceu Boa noite, amazona, do paulista Manoel Herzog. Romances situados em tempos distintos, sem pontos de contato que não sejam o cenário amazônico, mas que acabam por dialogar ao retratar as histórias de dois homens um tanto perdidos, um outro tanto desiludidos, e muito influenciados por aquele sertão das águas.

A história de uma paixão e a saga de uma família

Me interessei por Órfãos do Eldorado após acompanhar palestras de Milton Hatoum na Biblioteca do Parque Villa-Lobos, em São Paulo, e na prévia da Flip 2019, no Sesc. Do autor, já tinha lido Relato de um certo oriente e Dois Irmãos, ambos retratando sagas familiares de descendentes de libaneses na Manaus do começo do Século XX, em meio ao rápido auge e decadência do ciclo da borracha. E, mais recentemente, li e resenhei aqui o romance A noite da espera, primeira parte de uma trilogia de formação de um jovem arquiteto em meio à ditadura de 1964-1985. A primeira edição de Relato é de 2008 e comprei a 8ª reimpressão, feita pela Companhia das Letras em 2017.

Órfãos

O romance, na verdade mais uma novela de 107 páginas, é estruturado a partir de uma narrativa oral. Um jovem passante, em uma cidade ribeirinha, senta para aproveitar a sombra de um jatobá e acaba por ouvir o relato de um senhor que é tido como o doido da cidade. E então vamos conhecendo as desventuras de Arminto Cordovil, filho de um rico comerciante e fazendeiro que fez fortuna com a movimentação econômica trazida pela exploração das seringueiras. Estamos no começo do século XX e Manaus é uma cidade fervilhante.

Arminto é órfão de mãe e a relação com a figura paterna é distante e complexa. Em meio a tudo isso, o jovem conhece Dinaura, uma paixão insana, que lhe trará devaneios, destemperos e desatinos que marcarão sua vida. E assim a história de uma relação impossível e de um desaparecimento misterioso vai se misturando ao contexto social, econômico e político de uma cidade que vê a opulência desparecer quando os ingleses levam a produção de borracha para o oriente.

Arminto se depara diante da responsabilidade de administrar os negócios do pai, depois de uma vida errática, uma faculdade feita e pouca disposição real para os negócios e para o trabalho. Se enreda em dívidas ao apostar o que tem e o que já não tem mais em uma companhia de navegação, tendo, é claro, os capitalistas ingleses como ferozes credores.

A história tem contornos oníricos, penetra nas lendas amazônicas, mistura os traços culturais nativos às ideias europeizantes dos imigrantes que ali chegaram de todas as partes do mundo. Retrata uma Manaus empobrecida, caótica, cidades ribeirinhas abandonadas, populações relegadas à pobreza e a ameaça constante às tradições das populações indígenas. O desmatamento, essa sombra que nos persegue até hoje, aparece ali, de escanteio, na fazenda da família que avança sobre a floresta. Arminto é parte de uma saga de pessoas que enxergaram na Amazônia um novo Eldorado. Gerações que enfrentaram o calor, as febres, as longas distâncias, a vida dura no meio da mata cerrada para enfim se tornarem órfãs de um sonho não realizado. Não está entre meus preferidos de Hatoum, mas é uma leitura boa de se fazer, um tanto melancólica, como é a visão que o autor tem de sua terra natal.

As contradições de um falso esquerdista

Boa noite Amazona, publicado em 2019 pela Alfaguara, do Grupo Companhia das Letras, chegou ao Lombada pela parceria que temos com a editora. Sigo o autor pelas redes sociais e me divirto com seu tom ácido, humor sarcástico, uma ironia rasgada e opiniões sinceras que não perdoam ninguém.

Amazona

E esse é o tom que o autor levou para seu romance. O narrador é um economista de meia idade, que acaba de pedir demissão de um grande banco privado. Com formação marxista, o sujeito se acha um grande militante de esquerda, mesmo que em sua carreira no banco, como analista de crédito, seja implacável com os inadimplentes. Humanista de boutique, participa de toda sorte de confrarias, lojas maçônicas e afins. No sítio em que passa os finais de semana, explora o caseiro, negando-lhe direitos trabalhistas.

Pois encontramos com a criatura no momento em que, recém divorciado, de certa forma ainda abalado com a perda de um filho durante a gravidez da ex-mulher, ele parte para uma jornada de descobrimento de si mesmo, se é que isso será possível.

Cada capítulo do livro é baseado em uma das cartas do Tarô. E é no jogo de cartas que uma vidente lhe aponta a Amazônia como o caminho para o que Eduardo Suplicy chamaria de “encontro do eixo”.

E lá parte nosso anti-herói rumo a Manaus. Entre hospedagem em meio a gringos em hotéis na floresta, tentativas malogradas de pegar as moças da excursão e incursões pelos puteiros de Manaus, ele vai falando de política, futebol, com reminiscências dos grandes craques dos anos 70 e 80, lembranças das ditaduras latino-americanas e encontrando pessoas dos mais variados matizes sociais, econômicos e políticos.

Pretensamente safo, é vítima ingênua de um “boa noite cinderelo”. No fim das contas, a viagem de descoberta é na verdade uma longa bad trip narrada com um misto de leveza e também com um toque de melancolia que conecta Boa noite, amazona a Órfãos do Eldorado.

Duas visões, dois tempos de uma Amazônia que parece ter mudado muito pouco. E que ainda perde porções preciosas de sua biodiversidade com o avanço do fogo criminoso.

Que ainda haja tempo de salvar esse mundo.

P.S.: o clique do encontro das águas foi tomado por Daniel Jovchelevich Carvalho em viagem a Manaus com a turma da escola em agosto de 2019.

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