Arqueologia da diáspora

Você certamente já se pegou pensando em suas origens, certo? É humano, demasiadamente humano, cultuar os ancestrais, buscar explicações para a existência no planeta e tentar saber de onde viemos. E se não for por motivações tão elevadas, no mínimo queremos conhecer a história de nossos avós e dos avós deles, tentando viajar para o passado mais longínquo possível. Não é à toa que árvores genealógicas são montadas e viram um bom negócio para pesquisadores. Em muitos casos, para comprovar o pertencimento a estirpes “nobres”, dando aos pobres mortais do presente a compensação de pertencimento a uma casta, mesmo que decadente. Que o digam os “quatrocentões” paulistas, que de nobres não tem muita coisa, mas se arvoram como “donos” de uma terra na qual, em geral, estão presentes há no máximo três gerações.

Esse imenso nariz de cera, que ainda não vai terminar aqui, me veio à cabeça enquanto lia Talvez Esther, da ucraniana Katja Petrowskaja. E foi reforçado pelas conversas, no último fim de semana, com o amigo potiguar Rilder Medeiros e com Renata, na mesa da Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. Rilder foi atrás de suas origens e viajou muito no tempo, descobrindo ser descendente de uma família de judeus sefaraditas que chegou em Pernambuco no século XVI e teve como expoente uma figura conhecidíssima na história da ocupação do litoral do nordeste, Branca Dias. Cavocando no aplicativo Family Search, Renata também conseguiu se aproximar das mesmas origens, em uma região que efetivamente é ocupada por gerações e gerações de descendentes dos primeiros colonizadores/invasores lá pelos idos de 1550.

Tudo isso pra lembrar que essa busca pelo passado pode ter contornos de curiosidade histórica, resgate da trajetória de uma família e reafirmação de identidade. Mas, o que fazer quando a volta ao passado revela dores imensuráveis?

20190906_124211[1]Pois é a partir daqui que começo a falar desse incrível romance de Katja Petrowskaja, que podemos chamar de uma biografia familiar, recheada de ótima prosa e inventividade literária pra ninguém botar defeito.

Nascida em 1970 na cidade de Kiev, então capital de uma Ucrânia que pertencia às repúblicas que formavam a União Soviética, ela cresceu com a crença de ser uma cidadã desse mundo que se opunha ao Ocidente capitalista. Mas sua história familiar era repleta de lacunas, silêncios e pontos de contato mal explicados com o período da Grande Guerra, que o ocidente chama de II Guerra Mundial.

Heróis de guerra, pessoas desaparecidas, presas e mortas em campos de concentração. Havia de tudo naquela família, mas com uma sombra sobre a real origem de seus avós e bisavós. Já adulta, formada em teoria literária, na Ucrânia livre e na Rússia dos tempos atuais, Katja decidiu se estabelecer em Berlim. Casou-se com um nativo, desenvolveu uma sólida carreira jornalística, adotou o alemão como língua de expressão e foi atrás da história de seus antepassados.

Nessa arqueologia ela se deparou com o judaísmo, a verdadeira origem de grande parte de sua família. No romance, fazemos com ela o percurso das buscas, que passa pela Polônia, especialmente pelo Gueto de Varsóvia e pelos campos de concentração espalhados pelo Leste europeu. Kiev está sempre presente nessa narrativa, pois é o ponto de atração dos sobreviventes que garantiram a continuidade da família. Na Áustria, mais campos de concentração, na Hungria, aniquilação. Em todos os lugares visitados, a difícil tarefa de encontrar vestígios de um povo que a fúria assassina de Hitler quis apagar da História.

Nessa busca, ela percebe o acaso como aquele “detalhe” que permitiu a alguns de seus antepassados a sobrevivência. Libertados de campos às portas da câmara de gás, resilientes, suportando situações extremas de frio, fome, maus tratos e doenças, foram poucos os que não sucumbiram. São casos que religiosos atribuiriam a escolhas de deus. Mas que a pesquisa histórica e um bocado de bom senso simplesmente explicam que essas pessoas não se tornaram números por mera conjunção de fatores, uma vez que a política era de extermínio total. Petrowskaja, em dado momento, diante dos relatos dos massacres em série problematiza a questão dos números de mortes e de como eles podem se tornar frios e inumanos:

 “algo que é incontável – será por causa de como morreram, ou será catorze um número que ainda somos capazes de compreender, depois do qual nossa matemática desmorona? A partir de que número o ser humano desaparece?”

As histórias contadas por Petrowskaja são particulares e universais. Particulares, porque orbitam em torno de sua família e seu interesse específico em reconstruir o fio de sua ascendência. Universais, porque narram um dos maiores eventos de terror construído pela humanidade ao longo da História partindo de vidas comuns.

A escritora faz belíssimas e profundas reflexões sobre a linguagem, especialmente nos informando o porque passou a escrever e pensar em alemão, que pode ser vista como a língua dos opressores, mas também é sua nova casa. Ela se detém em palavras e seus múltiplos significados, aqui dialogando diretamente com a obra de Grada Kilomba, buscando mostrar o peso da linguagem na construção simbólica das narrativas sobre o horror. Uma forma de dizer que a linguagem jamais é neutra.

As cidades e as paisagens do presente, visitadas por ela na reconstituição dos passos de seus parentes são objeto de reflexões acerca da memória, do esforço soviético para apagar determinados pontos da história, da forma como os judeus do leste foram varridos do mapa. Campos de concentração, hoje visitados por turistas, o antigo Gueto de Varsóvia, remodelado e gentrificado, Kiev, uma cidade que assistiu a ao massacre de Babi Yar, um dia em que os alemães fuzilaram em poucas horas mais de 33 mil judeus, homens, mulheres e crianças. Kiev que hoje, assim com Varsóvia, parecem não querer lembrar que foram duas das cidades com maior população judaica em toda a Europa antes da ascensão do nazismo.

Talvez Esther é um romance necessário em um tempo no qual se tenta relativizar o nazismo, deslocando inclusive sua matiz ideológica, e  em que também vemos lideranças políticas patrocinando uma tentativa de reconstrução farsesca do que foi a imensa diáspora negra provocada pela escravatura e do que ainda representa essa diáspora na onipresença do racismo em todas as instâncias das sociedades ocidentais.

E não faltam, no romance, os momentos de lirismo, centrados nas descrições das lembranças que Katja tem de suas tias, sua avó, as canções da infância, o conforto das comidas, muitas das quais ela só foi descobrir adulta que tinham origem nos costumes judaicos. A busca pelo verdadeiro nome da família, a reconversão do irmão ao judaísmo e a estranha familiaridade com o alemão, que no fundo está atavicamente presente em sua vida no íidiche falado pelos seus antepassados e silenciado sob os domínios alemão e soviético mostram que a arqueologia familiar alterou sua percepção de identidade.

Foi um dos melhores livros do ano, com edição da Companhia das Letras e ótima tradução de Sergio Tellaroli.

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