Sob a sombra de Mordor

Na trilogia de O senhor dos anéis, há um não-lugar, uma grande escuridão que ameaça as florestas élficas, a Terra Média e todos os reinos adjacentes. Mordor é o nome dessa grande e poderosa sombra que pode a qualquer momento tragar, como em um  vórtice, toda beleza e alegria do mundo. Pois é sob a ameaça de uma grande escuridão que o escritor Joseph Roth escreveu nos anos 1930 as crônicas do pequeno e perturbador livro Judeus errantes, que ganhou uma ótima edição brasileira em 2016 pela Editora Âyiné, de Belo Horizonte.

São relatos dos costumes, da religiosidade, do pensamento, dos medos, dos muitos medos, dos judeus do leste europeu, os chamados “asquenazes”. O prefácio do autor já dá o tom do que vem pela frente ao afirmar que

“Este livro dispensa aclamação e aprovação, mas também a discordância e mesmo a crítica daqueles que ignoraram, depreciam, odeiam e perseguem os judeus do Leste. Não se dirige aos europeus ocidentais que, por terem crescido com elevador e vaso sanitários, conferem-se o direito de fazer piadas de mau gosto sobre piolhos romenos, percevejos galicianos e pulgas russas.

(…)

O autor alimenta a tola esperança de que ainda existam leitores para os quais não é necessário defender os judeus do Leste; leitores que têm respeito pela dor, pela grandeza humana e pela sujeira que em toda a parte acompanha o sofrimento…”

E então começam as crônicas, que abordam a situação dos judeus do Leste no Ocidente, relatam a vida nas cidadezinhas judaicas perdidas na imensidão dos lugares que hoje são Ucrânia, Bielorussia, Polônia e outros países do Leste, mostram as condições de sobrevivência nos bairros judaicos de Viena, Berlim e Paris. Roth também fala daqueles que emigram para os Estados Unidos e dedica o último capítulo para os que ficaram na Rússia soviética, onde ele afirma que o “antissemitismo era um meio de  governar”.

Joseph Roth nasceu em Brody, hoje parte da Ucrânia. Migrou para Viena e Berlim. Jornalista, sentiu-se ameaçado pela ascensão do Nazismo e exilou-se em Paris, onde morreu, jovem, em 1939, em meio à depressão e o alcoolismo. Ele vivenciou a chegada de Hitler ao poder, sentiu na pele a forte perseguição e intuiu o que viria com a Guerra, que não chegou a presenciar. Mas seus escritos foram um prenúncio de que os tempos que já eram sombrios ficariam ainda mais terríveis. Dele, o Lombada já resenhou o ótimo Jó – romance de um homem simples.

A leitura de Judeus errantes revela um prosador habilidoso, que lança mão do humor judaico em várias passagens, é irônico e implacável com as fraquezas e capitulações dos próprios judeus diante do antissemitismo crescente. Ele revela as divisões internas das comunidades judaicas urbanas, detecta o preconceito de sefarditas contra os asquenazes e faz uma crônica de costumes afiada. Comidas, roupas, hábitos de higiene, condições de moradia. Nada escapa ao seu olhar, compondo um mosaico da diáspora.

Em todas as crônicas, aparece o tema do trabalho e das profissões mais comumente exercidas pelos judeus nessa longa e sofrida etapa de sua errância pela Europa do pré-guerra. A imprensa, os livros, os rabinos e as diversas correntes religiosas mostram um povo disperso pelo continente, multifacetado, mas movido já pelo sionismo e pela “vontade de alguns milhões de pessoas como suficiente para formar uma nação, mesmo que esta não tenha existido antes”, a prenunciar a força que o movimento teria depois dos traumas da guerra e do Holocausto, inspirado pelas ideias de Theodor Herzl.

O dilema entre deixar a aldeia e fugir da sombra da morte e o apego à terra também aparece nas crônicas sobre as pequenas cidades do Leste. No ambiente urbano, surge com mais força a violência do preconceito. Bairros segregados que já são um anúncio dos guetos, os obstáculos para exercer determinadas profissões, o bloqueio à vida pública, em contraste com a facilidade para os negócios, para o acúmulo de capital e a montagem de redes de solidariedade que garantiam emprego para os recém chegados.

E se um judeu sabe muito bem qual o peso do preconceito, há uma passagem na crônica sobre os Estados Unidos que mostra existir uma vantagem, que vai garantir aos judeus americanos uma assimilação, enquanto

“…do outro lado existem judeus ainda mais judeus, quais sejam, os negros. Lá um judeu é um judeu, mas o que importa é ser branco. Pela primeira vez na vida sua raça lhe oferece uma vantagem.”

Esse reconhecimento de que a vida na diáspora é ainda mais pesada para os negros contrasta com a forte presença de pensamentos racistas e preconceituosos entre muitos judeus da atualidade, que conseguem até mesmo apoiar candidaturas francamente baseadas na ideia de exclusão e preconceito, o que seria impensável para um povo que sofreu séculos e séculos de perseguições.

Judeus errantes, lido agora, traz de novo o pesadelo de Mordor, em um momento no qual nosso planeta passa por uma onda de revival dos movimentos de cunho fascista, em que se procura legitimar e normalizar a censura, a exclusão, a agressão ao meio ambiente, o desrespeito pela vida.

É preciso achar o anel e destruí-lo, antes que um novo Sauron apareça para jogar sua escuridão sobre todos nós.

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5 comentários sobre “Sob a sombra de Mordor

    1. Obrigado pela visita. Recomendo também Jó – Romance de um homem simples, também de Joseph Roth, com temática semelhante, mas no campo da ficção. Tem link pra resenha no post .

      Curtido por 1 pessoa

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