A poética da sobrevivência

O percurso de leituras dos autores deste blog segue algumas linhas, não necessariamente fundadas em uma lógica rígida. Procuramos equilíbrio entre autoras e autores. Temos compromisso com a literatura brasileira contemporânea. Passamos pelos clássicos que ainda não lemos. Lemos os lançamentos das editoras parceiras. A cada ano, fazemos algumas releituras, daquelas que acontecerão várias vezes ao longo da vida. E, por fim, deixamos também que o acaso tome decisões por nós. Seja uma capa de livro atraente, como neste caso, seja uma palestra na Flip com um autor que até então desconhecíamos, como neste romance de Juan Villoro, ou em escolhas aleatórias em uma livraria no exterior, como o excelente e perturbador livro de Diamela Eltit encontrado nas prateleiras da El Ateneo, de Buenos Aires.

ZoobreviverE foi o acaso que nos guiou a Zoobreviver, volume de poesias de Eugênio Ramos Gianetti. Estávamos na Patuscada, espaço de livros, cerveja e boa conversa do incrível Eduardo Lacerda, da Editora Patuá. A ocasião era o lançamento em São Paulo de Quebranto, com os contos fantásticos (em todos os sentidos) do amigo André Balaio. E eis que uma figura de chapéu de palha puxou conversa com a turma de nossa mesa. Sem qualquer cerimônia, sentou-se ao nosso lado, pediu um copo e começou a compartilhar nossa cerveja. E suas histórias. De imediato, Lacerda nos trouxe um exemplar do livro de Eugênio. E com uma passada de olhos, decidimos que era necessário comprar. Um poema só foi lido. E já era suficiente para querer ler tudo.

eu menti.
o tempo não cura nada
nem apaga nada.
às vezes borra com luz
a tela negra da dor.
eu menti.
basta suportar o insuportável
basta tolerar o intolerável
cumprir seu luto
como cor e verbo

A poesia de Eugênio Gianetti tem uma força arrebatadora. São 60 poemas, a maioria em tamanho e estilo de Haikais. Curtos, fortes, ácidos, duros. Não há beleza fácil e nem lirismo barato, como nestes versos em que ele descreve a cidade que tão bem conhece, sua São Paulo.

mistura de aromas
almíscar, sândalo, jasmim
mijo, bosta, gás carbônico
minha querida cidade
puta velha e solitária

A cidade é uma personagem fundamental do livro. Eugênio é um morador de rua. Ou um quase ex-morador de rua. Vive entre abrigos da Lapa e da Barra Funda, onde passa as noites, desde que chegue no horário em que o portão fecha. Durante o dia, ainda vagueia pelas ruas onde por anos dormiu em calçadas, debaixo de marquises, nos vãos de viadutos e, segundo nos contou, até mesmo passando noites em cemitérios. Entregue ao consumo desmedido de álcool, passou por pneumonias  tuberculose e outros males. Apesar de todos os golpes, segue “zoobrevivendo”, aos 65 anos.

Nos poemas desse belo livro dá pra intuir que Eugênio teve, em algum momento da vida, uma ruptura emocional que o levou às ruas, como nestes dois poemas que se conversam na mesma página.

ela era o arco do desejo.
eu era a corda retesada
então o arco se partiu
e a corda rebentou

(…)

não sinto falta de ninguém.
não tento mais unir
o interior com o exterior
minha vida se tornou
uma ponte submersa

Tudo indica que uma relação mal acabada pode ter sido a causa do declínio emocional que levou o poeta às ruas de São Paulo.

A vontade é de publicar cada um dos poemas, compilar aqueles que falam das ruas, das calçadas e noites frias, da violência dessa vida invisível, maldita aos olhos de quem quando enxerga, só vê vagabundagem. Mas o que a gente recomenda mesmo é a leitura. O livro tá lá na Patuscada e pode ser pedido pelo site.

Os poemas de Eugenio Ramos Gianetti expressam vidas partidas, amores rompidos, conexões com o mundo “normal” perdidas. Álcool, esquizofrenia, doenças sociais de uma sociedade doente. Ao ler, imaginamos os momentos e as condições em que foram escritos. Chuva, jatos de água, batidas policiais. Imaginem o quanto já se perdeu da criação desse poeta, que já havia publicado anteriormente outro volume, chamado O rio de o tempo e afirma ter mais de 10 livros prontos para ir ao prelo.

Quanto ao contato pessoal com Eugênio, ficaram algumas impressões. Tomando cerveja com a gente, ávido por uma cachaça, contou histórias fantásticas, algumas certamente imaginárias, indo no embalo das conversas em torno dos contos fantásticos de Balaio. Nas entrelinhas, a percepção de que aquela plateia atenta que formávamos era uma espécie de remédio passageiro para sua solidão. Quando se foi, deixou no ar uma melancolia. Sabíamos que ainda tentaria beber mais. E que, talvez, nem chegasse ao albergue a tempo de passar a noite fora das ruas. Outra forte impressão foi a de que estávamos diante de um personagem tão forte (mas real) quanto o de O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, que resenhamos aqui.

A literatura se entrelaça com a vida de maneira surpreendente.

 

P.S.: no destaque a foto que fiz no local onde a Polícia Militar de São Paulo assassinou à queima roupa o carroceiro Ricardo Teixeira Santos, no dia 13 de julho de 2017. Ouvi da janela de casa o tiro fatal. E me juntei aos protestos dos moradores de Pinheiros. Dedico a ele este post.

2 comentários sobre “A poética da sobrevivência

  1. Triste e real. A literatura é a maneira dele de ter forças para manter-se vivo diante das dificuldades , de botar pra fora tudo o que sente na pele. Gostei muito do seu blog, voltarei mais vezes .

    Curtido por 1 pessoa

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