Novela mexicana, sí señor

ArrecifeTony Góngora é o narrador de Arrecife, livro do mexicano Juan Villoro, que devorei recentemente. O sobrenome do personagem não é um acaso. Estamos diante de um romance gongorista por excelência.

Se formos ao Houaiss, vamos descobrir que gongorismo é o “estilo literário que se enquadra dentro do Barroco e que tem como seu maior expoente o poeta espanhol Luis de Góngora y Argote (1561-1627), caracterizado por um hermetismo deliberado, emprego de palavras eruditas, afetação levada ao extremo, inversão da frase e abundância de figuras de linguagem, especialmente a metáfora”. Se você pensou em Gregório de Matos, acertou na melhor definição de gongorismo em língua portuguesa que temos ao alcance dos olhos.

Arrecife tem tudo isso. Pra começar, conhecemos dois personagens, amigos de infância, que foram integrantes de uma quase célebre banda de heavy metal chamada Los Extraditables. A banda fracassa. E eles perdem o contato. Até que se reencontram em La Pirámide, um resort gigantesco – senão não seria um resort – no lado caribenho do México. Mario Müller, gerente do empreendimento, resgata seu amigo Góngora do submundo das drogas e o contrata para criar música ambiente em aquários, elevadores e restaurantes do resort (Ah, essa vida sem sustos dos grandes hotéis all inclusive…).

Mas La Pirámide não é um resort comum. Mario Müller (que saudades do trema!!!!) entretém os milhares de hóspedes com simulações de sequestros e tiroteios, conflitos falsos entre traficantes e outras “brincadeiras” que brindam milionários de várias partes do planeta com a experiência da proximidade da morte. Até que descobrimos que nem tudo é fake nesse mundo de faz-de-conta.

Somos enredados em uma trama de assassinatos, tráfico de drogas, destruição ambiental e especulação imobiliária que gira em torno dos resorts daquele pedaço de mar verde e peixes coloridos. Metáforas, alegorias, fortes doses de sarcasmo com a vida política mexicana e a relação com os “gringos”, compõem os elementos gongóricos de uma história que caberia como uma luva no Brasil. Afinal, estamos irmanados com os mexicanos na desigualdade social. Assim como los hermanos do Norte, somos reféns do crime organizado. Por aqui, como lá, as drogas mantidas na ilegalidade são o motor da indústria de lavagem de dinheiro, corrupção política e empresarial. E nossa praias também são tomadas pelo avanço especulativo de hotéis e torres em paraísos à beira mar.

Se você levar Arrecife ao pé da letra, terá lido uma novela policial de quinta categoria, com detetives suados, portando os indefectíveis óculos Ray Ban, assassinatos de folhetim e personagem picarescos.

Para entender que Villoro escreveu um grande romance é preciso ligar o detector de ironia no modo Master Pro. Aí você saberá que está diante de literatura refinada. E poderá perceber que este é um livro sobre amizade. Por que Mario Müller e Tony Góngora são, acima de tudo, amigos, cujos destinos estarão incondicionalmente ligados na cena final.


P.S.: chegamos a Arrecife ao conhecer Juan Villoro na Flip de 2014. Compra por compulsão, que valeu muito a pena. Nossa edição, em espanhol, é da coleção Narrativas hispânicas, da editora catalã Anagrama. O livro foi lançado em português pela Cia. das Letras. Então, fica a dica!

P.S.: leio bem em espanhol. Mas o espanhol mexicano, assim como o português brasileiro, tem palavras e expressões locais, muitas das quais com influência indígena. O dicionário e também Mr. Google foram importantes nesta leitura.

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