Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros

Benjamin Abrahao_baixaCachaça fosse em vez de livro, Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros seria daquelas doces, irresistíveis, de beber aos golinhos até a completa embriaguez. A biografia que Frederico Pernambucano de Mello fez do sírio malandro e cineasta é saborosa, dá água na boca, imenso prazer de ver impressas num livro de história palavras como “chamego”, “catimbó”, “quefazeres” e tantas outras com gosto de  sertão.

A história de Abrahão eu já conhecia do filme O Baile Perfumado. Mas a escrita de Pernambucano de Mello, não. E descobri que, como Gilberto Freyre, ele faz do ofício acadêmico também um exercício literário, pra deleite de quem lê e felicidade da História, essa vestuta com H maiúsculo que bem merecia ser tratada assim o tempo inteiro.  

A pesquisa que embasa o texto é quente, vem das conversas do autor com quem viveu pra lhe contar pessoalmente quem era o tal do “turco” que chegou a secretário de Padre Cícero e como foi aquilo dele se embrenhar pelo meio da caatinga atrás de filmar o bando de Virgulino Ferreira.

Benjamin, esperto que só, queria saber de ganhar dinheiro e tinha até merchandising da Bayer pra bancar a aventura. Nunca conseguiu lançar seu filme, não sobreviveu aos anacronismos do Estado Novo, mas deixou pra gente alguns dos minutos mais impressionantes do cinema brasileiro até hoje – imagens tão enraizadas em nosso imaginário que parecem já um sonho coletivo.

PS. Um golinho pra quem ficou curioso:

“Devolvido à presença dos primos, recebe finalmente a matrícula por que verdadeiramente ansiava: a de auxiliar de comércio. Não o de balcão de loja, o caixeiro fixo, passarinho de gaiola preservado de riscos por um cotidiano de rotina, submetido à jornada diária de trabalho que podia chegar às dezesseis horas naquele início de século. O sonho era outro. Viveria solto. Sem peias. Ao modo de um cometa, que outro nome não se dava à época ao caixeiro-viajante. Ao mascate que riscava hoje aqui, amanhã, bem longe”.

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