O monstro Karina Buhr

image2Levei logo um pito no post anterior: “cadê as poetisas nessa lista?”. É, minha gente. Poesia não é meu forte e, vergonhosamente, não tinha nenhum livro de mulher poeta nas nossas estantes até a última terça-feira.

Mas eis que depois de um longo e tenebroso inverno (traduzindo: atraso da bixiga no prazo de entrega) finalmente chegou em casa o pacote com o novo disco (Selvática) e primeiro livro de Karina Buhr, Desperdiçando rima.

Não tinha como não ler de imediato depois da bronca do leitor e, especialmente, dessa semana epifânica que colocou o país inteiro a discutir o machismo.

Karina tem a carreira marcada por atitudes de questionamento ao espaço feminino na sociedade contemporânea. Ela reluta em assumir o feminismo (talvez num rechaçamento geral a qualquer tipo de rótulo), embora suas atitudes quase sempre o sejam (sobre isso, Karina contestou no comentário abaixo – vejam no final da página). Na capa do disco Selvática, ela aparece de peito nu, em foto tabacudamente* censurada pelo Facebook. E é e de peito nu que se apresenta nos shows da turnê, num desafio à censura contra o corpo feminino.

Desperdiçando rima tem um pouco disso e um pouco de uma penca de outras coisas. É um livro de poesia sim, mas também tem prosa. Tem frases soltas e tem desenhos. Karina desenha, quase sempre mulheres nuas. Tenho um de seus originais na parede de casa e um par de copinhos de cerveja com as mulé, como ela chama.

Karina passeia pela violência urbana, por assuntos aleatórios, pela política mundial, pela sensação de desterro, pelo Cais José Estelita e por momentos de non sense total. As mulé não são necessariamente seu tema mais recorrente, mas me marcaram muito no contexto dessa semana louca.

Mas a forma como elas aparecem no livro está longe de óbvia. Não é romântica, mas também não deixa de ser, em sua vontade de afeto. Denuncia o machismo, mas não os seus sinais mais claros. O machismo que a poesia de Karina expõe é o mais sutil, o mais difícil de identificar e de nomear.

A voz feminina dos poemas de Karina é como a personagem de Era uma vez eu, Verônica, do filme de Marcelo Gomes (quem tem música dela na trilha, inclusive), uma mulher forte que se sente desconfortável no exercício do convívio com seus parceiros.

Quando aparecem em Desperdiçando rima, os relacionamentos são sempre incômodos. Nas sutilezas da desigualdade de forças entre homem e mulher, a  personagem feminina dos poemas é, sobretudo, puta consigo mesma. Ao se perceber numa dinâmica de diminuição de seus quereres em prol da manutenção dessa quimera chamada amor, ela reage:

E a pessoa você era um monstro, mas por que cargas, eu, minha própria monstra de mim, permitia essa vacilação, perda de horizonte, de chão, essa mesquinhez tosca diária. Por que deixava o veneno meu me corroer e ser seu adubo? (Em Por merecimento).

A violência do machismo nos versos de Karina é assim, quase sempre simbólica, uma violência sutil que condiciona as ações e pensamentos dos personagens no interior de seus poemas. A mulher que emerge deles percebeu essa dinâmica e grita contra ela, percebeu seu próprio papel na manutenção do status quo, mas anda um pouco desiludida nessa busca por equilíbrio, e talvez não veja muita saída desse ciclo:eu fabrico você que me fabrica“.

Desperdiçando rima foi esse livro pra mim, essa semana especificamente, mas pode ser vários outros, dependendo da vibe momentânea de quem lê. É um retrato incrível da vida na metrópole e um exercício fascinante de poesia concreta e jogos com palavras. Internamente, ele não se divide por temas, formatos ou qualquer outra espécie de classificação.

De repente, pula na frente da gente um pedaço de música, verso solto no meio de um texto, e pulam textos que estão ali, pedindo pra ser música, mesmo quando são poema concreto:

image1

Desperdiçando rima 
é muitos monstros, que se transformam segundo o monstro-leitor que o lê naquele determinado momento.
***
*Tabacudamente (do Pernambuquês; advérbio de modo). De forma tabacuda, boba, infantil, idiota, imbecil.
 
FOTO: Da apresentação com o Som na Rural no Largo do Paissandu, em São Paulo, em frente à Galeria Olido.
 
 
 
 

4 comentários sobre “O monstro Karina Buhr

  1. Oi Renata, que massa o texto, obrigada! Só tenho uma observação. É que você falou “ela reluta em assumir o feminismo “, mas não reluto de jeito nenhum, sou feminista desde pequenininha 😉

    Curtir

    1. Olá, Karina, obrigada pela leitura e pelo comentário – é uma honra. 😀

      Sobre o ponto que você comentou, vou acrescentar ao texto um update sobre sua observação.

      E me explico: vi recentemente uma entrevista em vídeo na qual você fala disso e que gerou essa minha interpretação – de que você não encara o feminismo como uma bandeira, mas que a luta é necessária (obviamente, com outras palavras).

      Infelizmente não lembro onde foi, nem achei de novo o link pra entender porque fiquei com essa impressão. :/

      Anyaway, mea culpa – e post atualizado!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s