10 livros infantis para encantar adultos

Não tenho e não pretendo ter filhos, mas sou uma consumidora até mediana de literatura infantil e infantojuvenil. De vez em quando me aventuro entre prateleiras baixas, driblando pufes coloridos e estantes em forma de dragão com a certeza de que tem muita coisa boa escondida entre os DVDs da Galinha Pintadinha. Nesse reino, as ilustrações são tão importantes quanto o texto, o que nos dá sempre a possibilidade de encontrar artes belíssimas. Mas o maior barato da boa literatura infantil é quando os autores põem simplicidade e concisão a serviço de histórias complexas, que não tratam seus pequenos leitores como idiotas. É aí que saem ganhando os grandes leitores – aqueles que, como eu, gostam de admirar boa literatura em qualquer formato.

Na semana em que se comemora o Dia do Livro Infantil (18 de abril) o Lombada Quadrada lista as suas dicas. Em tempo, a foto que ilustra esse post é da obra Infância, do escultor João Turin, em cartaz agora na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

1. As tranças de Bintou, de Sylviane A. Diouf e Shane W. Evans (ilustrações)
bintou
O livro da finada Cosac Naify tem como personagem principal uma garotinha de uma aldeia africana que sonha em ter longas tranças. Mas, enquanto não entra na idade adulta, Bintou pode apenas ter quatro birotes amarrando seus curtos cabelos – é o costume da tribo. A Bintou, resta invejar as mulheres mais velhas, que por sua vez a aconselham a aproveitar a infância. As tranças de Bintou são uma alegoria sobre o tornar-se adulto, tão comum na literatura infantil. O trunfo deste livro é fazê-lo a partir da perspectiva africana (a autora é filha de senegalês), de uma forma nada estereotipada. A tradução é do próprio Charles Cosac, dono da editora.


2. O capitão e a sereia, de André Neves
Capitão
Nosso primeiro contato com a obra de André Neves foi por meio da peça homônima do grupo potiguar Clowns de Shakesperare, que vimos na Funarte (SP) para uma plateia de oito pessoas. Deve ter sido destino, porque na verdade fomos achando que estava em cartaz o grupo pernambucano Magiluth. Enganos à parte, O capitão e a sereia foi amor à primeira apresentação. No enredo, o Capitão Marinho é um sertanejo que sonha com as ondas salgadas. Enquanto navegava na sua imaginação, entre mandacarus e solo rachado, faz fama como contador de histórias litorâneas em uma trupe mambembe. Publicado pela Editora Scipione, o livro bebe na tradição do Cavalo-Marinho, belíssimo folguedo natalino do Nordeste. A peça é enriquecida ainda por citações a outras obras, como O velho e o mar, de Hernerst Hemingway. Livro ou peça, não deixe passar: ambos lindíssimos. As ilustrações, incríveis, são do próprio autor.

3. Onda, de Suzy Lee 
OndaNão há palavra na obra da desenhista sul-coreana Suzy Lee. Seus álbuns ilustrados têm narrativas curtas, em que cada página dupla funciona como um quadrinho de uma HQ. Os desenhos minimalistas associados a histórias universais tratados com absoluta sensibilidade fazem o seu trabalho tornar-se interessante principalmente para adultos. Em Onda, uma garotinha brinca na beira do mar, vigiada por um grupo de gaivotas.  O desenho tem apenas preto, branco e azul, em traços grossos e aparentemente displicentes, numa escolha que é realmente genial. Da mesma autora, recomendo também Espelho Sombra, com o mesmo estilo.

4. O compositor está morto, de Lemony Snicket
Compositor
Como fã incondicional de Desventuras em série, sou suspeita para falar de Lemony Snicket. Mas o cara é mesmo foda. Em O compositor está morto, lançado no Brasil pela Companhia das Letrinhas, ele segue com sua pegada sarcástica para falar sobre música erudita para crianças, a partir de uma trama de mistério. Um inspetor é chamado para investigar o assassinato de um compositor e, para desvendar o crime, precisa chafurdar nas entranhas (e intrigas) de uma orquestra. Enquanto ele interroga os músicos, vamos aprendendo a função de cada naipe de instrumentos – cordas, madeiras, metais. A edição é bilíngue e ainda vem com um CD, com música de Nathaniel Stookey sobre narração também bilíngue, do próprio Lemony Snicket em Inglês e de Fábio Góes em Português.

5. Mania de explicação, de Adriana Falcão e Mariana Massarani (ilustrações)
Adriana
Não é sempre que o Lombada Quadrada traz dicas fofinhas, então aproveite. Em Mania de explicação, a personagem principal é uma menina tentando definir o mundo e os sentimentos segundo suas próprias palavras. Daí que solidão vira “uma ilha com saudade de barco”, e angústia “um nó muito apertado bem no meio do seu sossego”. Na edição lançada pela Salamandra, as ilustrações de Mariana Massarani são tão importantes quanto o texto de Adriana Falcão, desenhos excelentes que ajudam a complementar o texto com interpretações nada óbvias.

 

6. Pra brincar, de Manuel Bandeira e Claudia Scatamacchia (ilustrações)
Pra brincarO livro lançado em março de 2016 pela Global Editora seleciona doze poemas do pernambucano Manuel Bandeira inspirados em sua infância no Recife, sendo o mais famoso deles o Trem de ferro (“Café com pão/ café com pão/ café com pão/ Virge Maria que foi isso maquinista?”). O livro vale mais para adultos curiosos pelo recorte da obra de Bandeira do que para crianças efetivamente. Meu conterrâneo não era exatamente conhecido por uma visão otimista do mundo, e esta seleção de poemas vai na mesma pegada – a solidão, sonhos inacessíveis, um passarinho morto são parte deste repertório. A brincadeira que evoca o título está mais no jogo de palavras e rimas, bem sonoras. Estas, mais do que os temas, podem render boas brincadeiras idiomáticas. Curiosamente, a seleção deixou de fora A onda, um dos seus mais belos poemas com essa pegada.

6. Contos maravilhosos, infantis e domésticos, dos Irmãos Grimm e J. Borges (ilustrações)
Grimm
Os Irmãos Grimm fizeram fama por pesquisar, transcrever e publicar histórias orais correntes na Alemanha pré-Alemanha, como parte do projeto nacionalista de unir o País pelo idioma. Algumas dessas histórias deram origem aos chamados contos-de-fadas, adotados pela Disney como matéria-prima para diversos de seus sucessos – em versões bem amenizadas, diga-se. Alguns dos contos, conforme originalmente registrados, não têm nada das mensagens edificantes presentes na maior parte dos desenhos animados. As histórias são pródigas em violência, ambição e muito nonsense,  não sendo raras as decapitações, membros decepados e “morais da história” que premiam os malfeitores. E, ainda assim, algumas são extremamente engraçadas. Na edição mais recente publicada pela Cosac Naify com uma estética de panfletaria popular, os contos são acompanhados por xilogravuras artisticamente luxuosas do pernambucano J. Borges. 

7. Doze Reis e a moça no labirinto de vento, de Marina Colasanti
Marina
E seguimos na pegada contos-de-fada com um livro de Marina Colasanti claramente inspirado na tradição dos Grimm. Doze reis e a moça no labirinto de vento, editado pela Global, traz treze histórias inéditas que se passam em tempos, lugares e situações oníricas,  que servem ao debate de questões humanas atemporais a partir de simbologias. Diferente dos contos recolhidos pelos Grimm, Marina imprime uma coerência ética às suas histórias, abordando principalmente sentimentos positivos como o amor, a liberdade e a solidariedade. As gravuras que ilustram o volume, em preto e branco, são da própria autora.

8. A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick
CAbretPublicado em 2007, este é o livro que deu origem ao filme homônimo de Martin Scorsese, sucesso de público e crítica em 2011. A história criada por Selznick, que também assina as ilustrações, se passa na Paris dos anos 1930. O personagem principal, que dá título ao livro, é um órfão que vive escondido nos relógios de uma estação de trem em Paris. Ele passa o dia catando peças e sucata para tentar consertar um autômato deixado por seu pai, relojoeiro, enquanto foge de um mal-humorado mecânico de brinquedos. O livro acaba nos levando de forma vertiginosa à história dos primórdios do cinema mundial e de um de seus maiores criadores, o cineasta e inventor Georges Méliès, autor de Viagem à Lua. Não deixe de ler o livro só porque você já viu o filme e conhece a história. As ilustrações de Selznick são um espetáculo à parte: ele as utiliza quase como uma história em quadrinhos, montando sequencias em dezenas de páginas sem texto como trechos do enredo. Ele usa também fotografias e fotogramas de filmes, numa sensacional edição de imagens.

9. Amanhecer Esmeralda, de Ferréz e Rafael Antón (ilustrações)
AmanhecerFerréz ficou conhecido com o romance adulto Capão Pecado, sobre o cotidiano violento de jovens do Capão Redondo. Com Amanhecer Esmeralda, ele se aventura pela literatura infantil sem abandonar seu locus principal. A personagem Manhã é uma menina negra moradora de favela, que se angustiava com a perspectiva de que seu único futuro seria tornar-se empregada doméstica, como sua mãe. Quando ganha um vestido novo de um professor e aparece bonita em casa, Manhã estimula seus pais a promoverem melhorias em seu barraco. Com um barraco arrumado, os vizinhos pintam os seus, e logo se unem para melhorar a rua. O livro é uma bonita alegoria ao dito popular de que a mudança começa em nós. Publicado pela Editora DSOP, o livro conta  com ilustrações belíssimas de Rafael Antón.

10. O Mundo é Mágico, de Bill Watterson
O mundo é mágico
Criada para as sessões de quadrinhos dos jornais americanos, a dupla Calvin & Haroldo é garantia de boa leitura. O garoto irrequieto e seu tigre de pelúcia, que ganha vida quando estão sozinhos, discutem a vida em o mundo com uma pegada filosófica que ao mesmo tempo mantém a ingenuidade dos personagens. Diferente de Mafalda, que é uma adultinha disfarçada (sorry, não gosto), Calvin pensa e age conforme sua idade, mas seu atrevimento e imaginação são usados habilmente pelo autor para que as tiras tenham sempre uma possibilidade de leitura mais profunda. Acho que Watterson foi muito além do que Charles Schulz conseguiu com os Peanuts, inclusive no que diz respeito à arte: ele subverteu as normas do setor ao produzir tiras dominicais impossíveis de cortar; até então, a regra era a de enxertar quadrinhos inúteis que poderiam ser limados, caso o jornal precisasse reduzir o espaço. Recomendo aqui O Mundo é Mágico, mas quaisquer das edições da Conrad em formato horizontal (lombada no lado mais curto) são incríveis.

3 comentários sobre “10 livros infantis para encantar adultos

  1. Que dica valiosíssima!
    Os poucos que li da lista são encantadores em sua totalidade, buscarei com certeza a leitura dos demais. Obrigado! :*

    Curtido por 1 pessoa

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