#leiaobrasil

Que o Brasil tem sérios desafios a superar para a construção de uma sociedade de leitores ninguém duvida, mas quando autobiografia do torturador Carlos Alberto Brilhante Ulstra apareceu na lista dos mais vendidos da semana a gente percebe que a coisa está mesmo bem feia. O que explica, numa nação de não-leitores, que logo um livro como este figure na lista dos mais vendidos?

Sofremos Síndrome de Estocolmo? Padecemos de um inexplicável impulso de masoquismo coletivo? Ou seria o brasileiro um concorrente direto do peixinho Dory no quesito memória curta?

Diante da notícia estarrecedora, divulgada em primeira-mão pelo site Publish News, o Suplemento Pernambuco lançou a campanha #leiaobrasil nas redes sociais e convidou escritores e leitores a postar fotos com indicação de livros que de alguma forma se articulem com a identidade do País.

O Lombada Quadrada dá aqui sua modestíssima contribuição na forma deste post, com uma pequena lista composta por poucos clássicos e muitos contemporâneos que nos estimulam a pensar e repensar o que é ser brasileiro – não sob a ótica de quem um dia tentou impor uma identidade artificial a todo custo (e deixou filhotes tentando fazer o mesmo), mas sob os preceitos da diversidade e da liberdade.  

Antes de começarmos, é importante informar que imagem em destaque é da obra Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Cédulas (1970-1976) de Cildo Meireles, fotografada em Inhotim (MG) em abril deste ano.

1. Os Sertões, de Euclides da Cunha

O que começou como uma reportagem terminou como obra 20160607_094753seminal da literatura Brasileira. Publicado originalmente n’O Estado de São Paulo, o texto de Euclides da Cunha é um relato da Guerra de Canudos, ocorrida no interior baiano no final do século 19. Milhares de pessoas reunidas sob a liderança do religioso monarquista  Antonio Conselheiro resistiram durante meses às ofensivas do Exército Brasileiro, até que foram dizimadas sem dó sob o pretexto de proteção da República. No fim, sobrara um velho, uma criança e dois homens contra 5.000 soldados. Euclides da Cunha denuncia aqui, pela primeira vez, a arbitrariedade do Estado contra a  população vulnerável que deveria proteger. A atualidade do livro é a atualidade do problema em si: passaram-se mais de 100 anos, e o Brasil ainda trata a desigualdade social como caso de polícia. Minha edição é a de bolso da Martin Claret (ruinzinha que dói), mas o texto já está em domínio público.

2.  Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Esta talvez seja a obra mais dolorosa de toda a literatura 20160607_094810brasileira, mas não pelos motivos que os não-leitores imaginam. Vidas secas começa e termina com a família de Fabiano fugindo da estiagem, mas o miolo do livro se desenvolve em um período de chuvas, em que o agricultor Fabiano, tornado vaqueiro pela necessidade, sofre com a opressão do proprietário das terras e de um sistema de poder que o torna invisível. A estiagem de que trata o livro, portanto, é menos climática e mais (muito mais) social, embora a seca ainda exerça sua mítica na imagem do Nordeste para o resto do Brasil. Os capítulos curtos funcionam como contos isolados, em especial o dedicado à cachorra Baleia que, acabada pela fome e pela doença, morre sonhando com um céu cheio de préas. Choro sempre, e ridiculamente, e muito. A minha edição é uma bem velhinha, da Record.


3. Clara dos Anjos, de Lima Barreto

20160607_094836Este é provavelmente a primeira obra literária brasileira a abordar de forma contundente  a questão racial e a situação da mulher no Brasil. Clara dos Anjos, uma jovem mulata, é seduzida por um rapaz branco e de riqueza decadente. Nada de bom pode resultar dessa relação, mas Clara, apaixonada, segue seu coração até chegar ao abismo. De forma nada panfletária, Lima Barreto contextualiza os mecanismos nefastos que fazem de Clara uma moça para dormir, mas não para casar. A edição de bolso da Penguin & Companhia das Letras tem notas esclarecedoras de Lília Moritz Schwarcz e Pedro Galdino sobre o contexto social do livro.

 

 

4. Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre

20160607_094851Indicar Casa Grande & Senzala seria uma baba, então resolvi apontar este livro aparentemente sem consequências de Gilberto Freyre. Em sua coletânea de causos sobre malassombros da capital Pernambucana, Freyre expõe como questões sobre colonização e racismo também se expressam por meio das crendices populares. Assim, o demônio ruivo que persegue mocinhas pode muito bem ser uma interpretação do invasor holandês do século 17. Por outro lado, fantasmas residentes do Recife são misteriosamente avistados em outras partes do País quando a migração nordestina se intensifica. O livro deu origem à excelente peça homônima do grupo Os Fofos Encenam, a que tive o prazer de assistir duas vezes. E irei quantas mais ela voltar a ser apresentada. Edição linda, ilustrada e com capa dura, da Global editora.

5. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão

20160607_094830Misto de romance policial e ficção científica, este livro projeta a São Paulo de um futuro não muito distante, onde o calor e a falta d’água ameaçam a sobrevivência da metrópole abarrotada. É tanta gente que é preciso ordenar o fluxo de pedestres, em fila indiana, nas calçadas. De tão ruim, o trânsito acabou em um engarrafamento incontornável que por fim inviabilizou o uso de carros e transformou as ruas em ferros-velhos. Loyola pensou nesse romance depois de testemunhar a morte de um ipê, envenenado por uma senhora que odiava ter que limpar as flores que caiam sobre sua calçada. Um livro atualíssimo sobre a relação do brasileiro com a cidade e com a natureza. A edição também é da Global.

 

6. A minha alma é irmã de deus, de Raimundo Carrero
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Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2009, este livro é um dos meus preferidos da vida – e é também o mais difícil de descrever desta lista. Camila, uma moça de classe média, vaga pelas ruas de um Recife decadente em fuga de sua própria solidão. Encontra um grupo de maltrapilhos que sobrevive como trupe circense e seita religiosa, um arranjo bizarro para a bizarrice que é a miséria na metrópole esbagaçada. Tudo isso com um manejo primoroso da linguagem e dos sentidos da escrita, um desafio e um deleite para o leitor. Carrero é extremamente religioso, mas não se furta a criticar o misticismo que se prolifera na pobreza e na falta de esperança – talvez aqui seja possível fazer um paralelo com a tomada do Congresso Nacional por uma bancada evangélica que tenta governar por sua crença religiosa. A edição é da Record.

7. Big Jato, de Xico Sá

Mais conhecido como comentarista esportivo e colunista 20160607_094802sentimental, Xico Sá mostrou-se excelente romancista no seu Big Jato, um dos meus livros preferidos de 2012. Publicado pela Companhia das Letras, o romance é situado no Cariri, sertão do Ceará. Um adolescente transita na terra árida entre a admiração por seu pai – dono e operador de um caminhão limpa-fossa – e o tio meio malucão que gosta de rock’n’roll. O romance, extremamente sensível, parte de um Nordeste fora do estereótipo seca/fome/jegue/vaqueiro a que o sul-maravilha parece tão apegado. Mostra um espaço complexo, quase isolado geografica e climaticamente, mas influenciado pela cultura global e pelo presença, às vezes predatória, de estrangeiros. Um romance de formação em um mundo rural em franca transformação – com todos os problemas e dilemas que isso pode acarretar.

8. Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende

20160607_094817Neste romance vencedor  do Prêmio Jabuti do ano passado, a freira Maria Valéria Rezende faz uma leitura transversal de diversas questões. A protagonista, uma senhora aposentada, se vê praticamente obrigada a mudar da Paraíba para o Rio Grande do Sul pela filha, que quer ter um filho (e uma avó por perto para cuidar dele). Desnorteada com a mudança, Alice se deixa perder pela cidade, numa jornada de 40 dias em que imerge por favelas, hospitais de emergência, dorme nas ruas e convive com os problemas daquela cidade tão fria. Nessa perambulação, descobre que, para os gaúchos, pessoas como sua cor e com seu sotaque são chamadas de “brasileirinhas”. O livro, portanto, trata de questões sociais comuns às metrópoles brasileiras, mas também dessa fragmentação de identidades que existe no País, com diferenças regionais se articulam com a cor da pele, ganhando expressão pela via do preconceito e do complexo de superioridade. A edição é da Alfaguara.


9. aDeus, de Miró

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Lançado pela Mariposa Cartonera, aDeus é o livro mais recente do poeta recifense Miró,que tira poesia da desgraça da cidade. Seus poemas são crônicas da vida urbana sob a perspectiva de quem se sabe marginalizado. Miró é preto, pobre e periférico, como gosta de se descrever, e sofre todas as consequências dessa tríade – o racismo, a falta de perspectiva, a violência policial injustificada. Tudo isso vira uma poesia dura, direta e até engajada, poderia-se dizer, mas um engajamento que não é intenção, mas consequência do que ele escolhe como tema. Editado artesanalmente, aDeus é sua obra mais melancólicainfluenciada pela morte da mãe e pela destruição do conjunto habitacional Muribeca, onde viveu toda a vida. Hoje com dezenas de prédios ameaçados de desabamento, Muribeca está virando uma cidadela fantasma, invisível na borda da cidade. Por muito tempo, Miró viveu sozinho, resistindo em seu apartamento em um prédio já desocupado, até recentemente se ver obrigado a mudar para o centro do Recife.


10. K., de Bernardo Kucinski

20160607_094740Pra não dizer que não falei de flores (nem que deixei de fazer essa citação ordinária), indico K. como exemplo de livro contemporâneo sobre a ditadura no Brasil. O romance é baseado na história real da irmã de Bernardo Kucinski, que desapareceu durante a ditadura militar junto com seu noivo. A família se joga numa busca interminável por informações, sistematicamente sonegadas pelo Estado ou fabricadas deliberadamente para aumentar seu desespero. A irmã de Kucinski era professora da USP e foi calhordamente demita por abandono de emprego – decisão que só foi revista à época da publicação do livro, por decisão judicial. K. , editado pela Expressão Popular, também uma tentativa de reestabelecer a verdade sobre um período pelo qual parte da população brasileira têm essa inexplicável nostalgia que coloca Ulstra na lista dos mais vendidos.

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