Um guia para a questão racial

Talvez você não saiba, mas há 13 anos o Brasil tem uma lei que obriga escolas públicas e particulares de todo o País a integrar história e cultura africana, afrobrasileira e indígena a seus currículos. Não se trata de criar uma disciplina à parte, mas de abordar essas questões de maneira multidisciplinar e transversal em todo o conteúdo e práticas escolares. A Lei 10.639/03 foi uma enorme conquista do movimento negro brasileiro, pois propunha atacar o racismo e a desigualdade racial com base no que mesmo o senso comum julgava ser o mais eficaz: por meio da educação.

Mas você conhece algum jovem que, nesses últimos 10 anos, tenha vivenciado a Lei na prática? Eu conheço apenas duas. A razão para isso é que a implementação da Lei demanda uma séria virada em todo o sistema de ensino brasileiro. Não basta distribuir livros didáticos se os professores não estão capacitados a lidar com a questão – ou se não estão sequer sensibilizados para isso. Na melhor das hipóteses, seguem ensinando que o Brasil é uma linda democracia racial. Ou na pior, usam a sala de aula para um descarado proselitismo religioso que vez por outra faz de vítimas os estudantes mais ciosos de sua identidade negra ou de seu ateísmo.

De certa forma, o mercado editorial foi o primeiro a responder à demanda colocada com a Lei. Não faltam livros que abordam a questão sob os mais diversos pontos de vista. Parte da academia também faz a sua parte – a dos mestrandos e doutorandos que têm na questão racial seus focos de pesquisa e crença pessoal. Mas as Universidades parecem patinar na efetiva formação dos professores e pedagogos que vão lidar na prática com estudantes dos ensinos médio e fundamental, ou que vão formar outros professores.

20160605_124254É nesse contexto que a Global Editora lança a segunda edição do livro A questão do negro na sala de aula, do historiador Joel Rufino dos Santos (1941-2015). Curtíssimo, divide-se em 46 páginas de uma breve introdução aos conceitos e às possibilidades práticas de aplicação da Lei 10.639 nas escolas, e outras mais de 60 com centenas de referências bibliográficas de outras obras, divididas por subtemas. O livro de Joel Rufino funciona portanto como uma bússula, a apontar caminhos – não só para professores, embora este seja seu público prioritário, mas para qualquer pessoa interessada em se aprofundar no assunto.

Em um texto incrivelmente objetivo, Joel entrega pensamentos complexos em trechos curtos, incisivos como estocadas. Partindo do princípio de que “o motor da desigualdade racial brasileira está no presente e não no passado escravista, como geralmente se pensa”, o autor incentiva o professor a buscar evidências no cotidiano mais próximo da turma para entender no percurso reverso – do hoje para o ontem – onde estamos e como chegamos até aqui. Um aqui, não esqueçamos, que toma o branco como o certo.

Neste parágrafo, por exemplo, ele resume perfeitamente a relação causal entre escravidão e racismo na polícia contemporânea, e como isso se reflete no comportamento de toda a sociedade:

O que era, essencialmente, ser escravo? Pertencer a outro, como pertencem um boi ou um móvel. Esse não ser dono sequer do espaço do seu próprio corpo é herança pesadíssima que o negro carrega. O negro e a sociedade brasileira como um todo, pois não há como desvincular desse antecedente a naturalidade com que os brasileiros ainda hoje aceitam a tortura policial. Negro é como se fosse outro nome para a criatura que se pode humilhar, maltratar, torturar, entre outros exemplos.

O texto de Joel apresenta um roteiro didático sobre a desconstrução dos estereótipos atribuídos à população negra ao longo da história. Os estudantes brasileiros, lembra ele, não estão habituados a olhar o mapa da África, muito menos a pensar o continente africano como um espaço de diversidade. O tráfico negreiro, os quilombos, a sociedade escravista, a abolição e a religião são temas que o autor incita os professores a questionar, a buscar outras perspectivas para a discussão com os estudantes.

Para tratar da pós-Abolição, por exemplo, ele sugere a investigação sobre a família dos alunos negros – eles próprios, tetra ou tataranetos de pessoas escravizadas. Até onde conseguem traçar a vida dos seus antepassados, e como relacioná-la à sua própria situação no presente?

Ao fim do livro, o autor oferece uma extensa biografia de obras relacionadas à questão racial no Brasil, dividida por subtemas: a “democracia racial”, o movimento negro, preconceito racial nos livros didáticos, literatura de ficção sobre o negro e a escravidão; além de todas as questões relacionadas à história – formação do continente africano, tráfico negreiro, quilombos, Zumbi, Rainha Ginga, abolição, dentre outros.

Perspassando todo o livro, está a defesa ferrenha de que a história do negro no Brasil é, sobretudo, uma história de luta – não de aceitação, nunca de docilidade. Talvez quando essa perspectiva for seriamente tomada em conta nas escolas do País possamos, então, vislumbrar o fim do racismo no Brasil.

PS: a foto, pra variar, foi capturada no quilombo Serrote do Gado Brabo, em São Bento do Una, interior de Pernambuco.

Gostou? Compre aqui:
A Questão do Negro na Sala de Aula

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s