Tomei um susto no sábado passado quando todo mundo de repente começou a falar sobre o oitavo livro da série Harry Potter. Eu sabia que J.K. Rowling estava escrevendo uma continuação, é claro, mas eu tinha esquecido completamente do assunto até me deparar com as notícias sobre tais  e quais livrarias estariam abertas em São Paulo para vender o livro exatamente à meia-noite. Achei que enfrentar as hordas sem uma varinha na mão seria má ideia, então deixei pra comprar o meu exemplar de Harry Potter and the cursed child no dia seguinte mesmo. E, obviamente, parei tudo para devorá-lo em qualquer naco de tempo livre, pra contar pra vocês quais as minhas impressões. Não se preocupem, esse texto não tem spoilers (acho). 😉

20160802_101937A primeira coisa a lembrar é que Harry Potter and the cursed child é o texto de uma peça escrita por J.K. Rowling com a colaboração do roteirista Jack Thorne e do diretor de teatro John Tiffany. Sendo uma peça, este livro traz um formato narrativo bastante diferente dos sete anteriores, escritos em prosa e com descrições abundantes sobre os lugares, criaturas e traquitanas que povoam Hogwarts e o mundo da magia. Numa peça transcrita para o papel, lê-se basicamente os diálogos, com poucas linhas descrevendo contexto, cenário, ambientação e marcações (entra personagem, sai personagem, etc.). Os capítulos, curtos ou curtíssimos, correspondem a cada cena em um determinado cenário. O conjunto do texto é também mais curto que os demais livros da série, pois tudo aquilo precisa caber no tempo de uma apresentação no palco.

Mas e a história?

Cursed child começa exatamente no ponto em que termina Harry Potter e as relíquias da morte: 19 anos depois da batalha de Hogwarts, Harry, Ron e Hermione vão à estação Kings Cross para embarcar seus filhos no trem que os levará à escola de magia. Albus Severus, filho mais jovem de Harry e Ginny Weasley, teme ser selecionado para casa Sonserina e é tranquilizado pelo pai. Ele será o principal personagem dessa trama, junto com alguns outros jovens magos de sua geração e, é claro, os personagens icônicos dos sete livros anteriores – além do trio Harry-Ron-Hermione, Ginny, Draco Malfoy e a Professora McGonagall também aparecem bastante.

Albus sente a pressão de ser filho do mago que derrotou Voldemort e tem uma adolescência, digamos, arquetípica. Sente-se deslocado, não consegue interagir com o pai e tenta provar-se corajoso – atitude que renderá o gatilho para a aventura do livro, que inclui diversas confusões causadas por temerárias viagens no tempo. O cineasta Alfred Hitchcok diria que esse é o McGuffin da trama, a desculpa narrativa pra falar do principal – os relacionamentos humanos. Cursed child é principalmente uma peça sobre os encontros e desencontros e entre pais e filhos, o bom e velho conflito de gerações. Comparado com os livros anteriores da série, ele tem uma densidade emocional maior na interface entre os personagens.

Em compensação, a trama parece um pouco mais frouxa, com soluções meio superficiais para explicar a motivação de alguns personagens e a sucessão de acontecimentos. Mas trata-se de uma peça, e o formato naturalmente impõe algumas restrições ao tempo utilizado na construção de explicações; Rowling parece ter optado por acelerar a aventura, em detrimento das amarrações narrativas. De qualquer forma, a engenhosidade que fez sua fama está lá, intacta.

Em resumo, vale a pena ler? Claro, ué. Trata-se de uma chance imperdível de conferir como a autora imaginou a continuidade do seu universo, criado originalmente para cobrir apenas sete anos na vida de um jovem estudante de magia. Pode ser um pouco decepcionante para quem espera a densidade dos livros seis e sete, mas tudo é uma questão de compatibilizar as expectativas. Repita comigo: é uma peça, não um romance (mais duas vezes: é uma peça, não um romance…).

Para quem não é fã do gênero de fantasia, todo o frisson causado por Harry Potter pode parecer exagerado e até irritante. Mas Rowling prestou um grande serviço à humanidade com seu trabalho, que foi (e vem sendo) o primeiro livro de milhões – sim, eu disse milhões – de novos leitores no mundo. Se esse primeiro contato é com uma obra divertida, extensa, boa mesmo, e sem pretensões moralistas (aleluia amém), tanto melhor.

Tradução 
Harry Potter and the cursed child só está disponível em inglês, por enquanto, numa edição de ensaio. Isso quer dizer que o texto original pode ter sofrido alterações ao longo da preparação para montagem da peça, então uma nova versão com algumas variações deve pintar por aí nos próximos meses. Já a edição brasileira sai pela Rocco com o título Harry Potter e a criança amaldiçoada. O lançamento está prometido para 31 de outubro.

Já a estreia aconteceu em Londres no mês passado. Para quem não lembra, o anúncio do elenco foi cercado de polêmica: escolhida para interpretar Hermione Granger, a atriz Noma Dumezweni é negra, o que aparentemente provocou um nó na cabeça dos fãs que tinham Emma Watson na memória cinematográfica. Rowling bancou a escolha e, até onde nos consta, Voldemort não voltou por causa disso. Reza a lenda que a montagem vai circular o mundo, mas ainda não temos detalhes – com o elenco original ou elencos locais? Em inglês ou na língua de cada país? Se houver uma produção local, eu voto linda para termos uma Hermione negra aqui também.

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