Realismo mágico nas sombras

2016-07-07 22.50.41

Pense aí: quando se fala em realismo mágico, quais são suas primeiras lembranças?

Certamente, você pensou em Gabriel García Márquez. Lembrou-se de Adolfo Bioy Casares. E acrescentou uma dúzia de autores, em especial latino-americanos, que fizeram a fama do gênero.

E se descobrirmos que um dos pioneiros foi um brasileiro, que escreveu a partir dos anos 1940? Que de sua lavra brotavam histórias em que parece normal uma pessoa espirrar e daí sair uma revoada de pombos? Ou descrever um refeitório onde o narrador é a única pessoa (ainda) viva em meio a espectros de seu passado que não jantam, não falam, não vivem?

A essa altura já descobrirmos que esse autor fez um sucesso danado de público e renda nos anos 1960, mesmo tendo produzido pouco.  E que inaugurou a tradição de relatos de realismo mágico na literatura brasileira, muito antes de Cem anos de solidão e outros clássicos das histórias que pareceriam totalmente reais, se não tivessem o saboroso toque do absurdo.

Entramos no quinto parágrafo e finalmente vamos falar de Murilo Rubião. Esse mineiro, jornalista, criador de um dos mais importantes suplementos literários dos anos 1960, publicado no Diário Oficial do Estado de Minas Gerais foi funcionário público de carreira, tendo ocupado a chefia de gabinete do governo estadual na gestão de Juscelino Kubitschek.

Rubião deixou uma obra pequena. São apenas 33 contos, todos muito curtos, diria que quase micro contos. Mas são textos de tamanha intensidade e complexidade que podemos chamá-los de micro romances.

E qual é o universo de Murilo Rubião nestas Obras completas, republicadas neste ano pela Companhia das Letras por ocasião do centenário de nascimento do autor?

Sim, você já sabe que é realismo mágico. Mas Rubião trabalha a literatura do absurdo em um registro mais sombrio do que García Márquez e companhia.

Na obra do colombiano, há um toque de melancolia, uma certa falta de esperança, que é compensada por um forte conteúdo humanista.

Em Rubião, o absurdo aparece na presença constante da morte, das teias burocráticas que enveredam seus personagens em situações asfixiantes, na impossibilidade do amor. Há também um erotismo que podemos considerar até que ousado para textos que em sua maioria foram escritos nos anos 1940 e 1950, em um Brasil conservador.

Rubião também trata com frequência da incomunicabilidade. Muitos de seus personagens padecem da capacidade de entender o outro. Em vários contos, pessoas falam e não se fazem ouvir.

Os contos de Obras completas têm uma linguagem concisa. Claramente, Rubião maturou cada um deles por meses, anos talvez, buscando as palavras exatas e frases desprovidas de lirismo, outra das marcas que distingue este realismo mágico da produção rasgadamente poética de grande parte dos autores do gênero. A secura dos contos explica, certamente, a limitada produção do autor.

Restou apenas um lamento ao final da leitura. Não ter mais contos e prosa de Murilo Rubião para ler.

 

7 comentários sobre “Realismo mágico nas sombras

  1. Realmente, deveríamos falar mais de Murilo Rubião. Uma pena que deixou uma obra tão pequena, mas com essa linda edição de seu centenário, talvez mais pessoas venham a conhecer esse autor tão impressionante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sempre ouvir falar dele. Jamais havia lido. Fiquei chapado com a intensidade dos contos, a concisão da linguagem e a naturalidade com que as histórias de um absurdo realismo mágico soam tão verossímeis.

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