O feminino em meio à guerra

A escolha da ucraniana Svetlana Aleksiévitch para o Nobel de Literatura 2016 surpreendeu o mundo. Jornalista de origem, sua obra passa longe do que se convencionou esperar do Prêmio, em geral concedido a romancistas e poetas. Seus livros são, essencialmente, exaustivas reportagens sobre temas e acontecimentos passados nos antigos territórios soviéticos; reportagens baseadas quase integralmente na transcrição de trechos de entrevistas de centenas de personagens. Nesse sentido, poder-se-ia argumentar que há pouco de criação na obra de Svetlana. Então, afinal de contas, o que tem o seu trabalho a ponto de merecer a maior honraria literária do mundo?

Fui conferir lendo A guerra não tem rosto de mulher, lançado este ano junto com outro (e mais famoso) título da autora, Vozes de Tchernóbil. Vale lembrar que Svetlana era totalmente desconhecida no Brasil até o Nobel; depois do Prêmio, foi a Companhia das Letras que ganhou a corrida editorial para traduzi-la ao Português. Rápida como uma blitzkrieg, a editora ainda conseguiu trazê-la para a Festa Literária de Paraty, onde foi uma das principais atrações. Escolhi A guerra não tem rosto de mulher por dois motivos principais: os fatos de que Vozes de Tchernóbil estava monopolizando a mídia até então e de que A guerra… traz, desde o título, a promissora perspectiva de jogar luz sobre uma história obscurecida por décadas.

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O livro busca recuperar como foi a participação de pelo menos um milhão de mulheres russas na Segunda Guerra Mundial, seja como integrantes do Exército Vermelho, seja como participantes de grupos guerrilheiros, para impedir o avanço das tropas de Hitler sobre o território soviético. O livro é inteiramente costurado a partir de trechos de entrevistas e, portanto, de memórias de mulheres que serviram durante a Guerra. Os capítulos se organizam mais ou menos em torno de um tema principal, mas o resultado final é propositalmente fragmentado, com pequenos parágrafos e frases curtas aparentemente soltos entre trechos maiores.

Entre um depoimento e outro, em raras ocasiões, a autora se coloca no livro, revelando um pequeno detalhe dos bastidores de uma entrevista específica; de como foi recebida, do que sentiu, o que pensou ao ouvir determinado relato. É nesses trechos que ela explicita suas intenções com o livro e o processo de pesquisa: ressalta a vontade de chegar não à história oficial das batalhas, mas à das pequenas coisas, das minúcias banais e minúsculas que, acredita ela, dão a exata dimensão do que é a existência humana em meio a um acontecimento extremo como uma guerra.

A construção do texto em fragmentos dá a impressão de que a autora buscou compartilhar como leitor a cacofonia de vozes que a consumiu durante a pesquisa; a impossibilidade de ordenar centenas e centenas de depoimentos gravados em uma ordem lógica e que, no entanto, seria aleatória de qualquer maneira. Dessa forma, o processo de leitura acaba também sendo um espelho do processo de entrevistas e de escrita, desordenado, superposto e até redundante em alguma medida – mas uma redundância que ajuda  caracterizar a presença feminina na guerra a partir de situações comuns. A grande criação de Svetlana é esse método, corajoso, de deixar os ouvidos abertos e extrair disso a literatura que vem de gente comum.

As histórias que estes depoimentos contam são de uma legião de mulheres imbuídas de um sentimento de dever para com a União Soviética. Com o país ameaçado pela invasão alemã, várias narram ter sido apenas natural que se voluntariassem para o front, considerando um dever ajudar na contenção do exército de Hitler. Muitos são os relatos de adolescentes que mentem a idade e insistem nos centros de recrutamento até serem convocadas, para as mais variadas funções: lavadeiras, padeiras, cozinheiras, enfermeiras e médicas, mas também francoatiradoras, fuzileiras, tanquistas, sapadoras (responsáveis pela localização e desativação de minas), soldados, pilotos.

Várias passaram por treinamentos iniciais e chegaram ao front já como comandantes de suas unidades, tendo que lidar com a rejeição inicial de seus grupos, assim como com o despreparo do próprio exército para recebê-las. Não havia botas pequenas o suficiente para seus pés, nem uniformes, muito menos roupas íntimas femininas. Longas tranças foram cortadas em penteados masculinos diante da total impossibilidade de se lavar o cabelo nos centros de batalha. Nesse inferno de ausências, o que mais fazia falta eram os pequenos sinais de feminilidade – um perfume, um sapato, um laço de fita.

A guerra não tem rosto de mulher também expõe os silêncios da presença feminina no front. O esquecimento de que foram vítimas as mulheres-soldado são praticamente uma unanimidade entre elas. Poucas receberam reconhecimento por seu serviço, diferente dos homens; muitas amargaram a total solidão com fim da guerra. A maioria foi relegada muito jovem a uma existência à margem da sociedade. Apenas um depoimento, entre as centenas do livro, revela o motivo: apesar das entrevistadas pintarem um quadro idílico de colaboração entre homens e mulheres, a ameaça de abuso sexual era uma constante, assim como os relacionamentos clandestinos entre as moças e seus colegas, grande parte casados. Finda a guerra, elas foram recebidas não como heroínas, mas como destruidoras de lares, como mulheres com as quais seria uma vergonha casar.

O livro me emocionou em vários momentos, e mais de uma vez me vi enxugando lágrimas enquanto sacolejava no busão. Além disso, me trouxe uma dimensão mais ampla do que foi a guerra contra o Nazismo na Rússia, pelo olhar pouco explorado das mulheres e a forma como enxergaram a violência ao seu redor. A guerra não tem rosto de mulher, com esse recorte, tem também uma clara intenção de recuperar uma discussão de gênero enterrada em seu tempo, e enterrada ainda hoje. Logo na introdução, Svetlana narra a conversa inicial com um historiador a respeito da participação de mulheres em guerras históricas. Sobre o Exército Vermelho, ele diz: “Surgiu até um problema linguístico: as palavras ‘tanquista’, ‘soldado de infantaria’, ‘atirador de fuzil’, até aquela época não tinham gênero feminino, porque mulheres nunca tinham feito esse trabalho. O feminino dessas palavras nasceu lá na Guerra…”.

Duas páginas depois, surge a primeira nota de rodapé do livro, com a observação de que aquela e as demais são do tradutor. O livro, no entanto, foi traduzido do russo por Cecília Rosas, evidentemente uma tradutora. Simbólico e sintomático de outra batalha que as mulheres ainda travam, até hoje, nos detalhes.

PS: A imagem de destaque é de duas obras da artista libanesa Mona Hatoum, fotografadas em exposição de 2015 na Estação Pinacoteca.

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