Paraíso perdido

2016-11-07-14-34-07Cheguei com grandes expectativas ao romance Anatomia do paraíso, de Beatriz Bracher. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2016, indicado a vários outros prêmios, o livro me chamou mais atenção ainda quando vi a autora falando sobre a obra em debate no auditório da Biblioteca do Parque Villa Lobos. E também porque a leitura de seu romance anterior, Antonio, me deixou boas lembranças.

E a aventura com Anatomia começou bem. Tanto que logo me interessei por conhecer melhor a obra do poeta inglês John Milton, Paraíso perdido, que é tema da dissertação de mestrado de Félix, um dos personagens centrais na história criada por Bracher. A narrativa se desenrola em paralelos nos quais conhecemos as histórias do estudante que tenta concluir sua densa e quase impossível dissertação, da vestibulanda de medicina Vanda, grávida, e sua irmã, Maria Joana, moradoras no mesmo prédio treme-treme de Copacabana onde vive Félix. Suas vidas têm pontos de contato. Félix e Vanda fizeram sexo algumas vezes. Félix gosta muito da irmã pré-adolescente de Vanda. E esta o visita com frequência. Toda essa história, que passa por Copabacana e arredores, e por uma cidade suburbana onde Vanda trabalha como técnica de autópsia em uma unidade do Instituto Médico Legal, costurando cadáveres, em geral de gente muito jovem, vítimas da violência sem fim da periferia.

A trama é muito interessante e poderia por si ser muito rica para o leitor. Mas a leitura começa a se tornar cansativa. Bracher utiliza o estudante de literatura para fazer longas digressões a respeito da poesia de Milton, trançando paralelos entre a vida e a obra do poeta e as aventuras, desventuras e angústias de Félix, Vanda e Maria Joana.

Anatomia tem fortes doses de sexo, violência, culpa, traição, morte e traz um retrato sem filtros da vida no Rio de Janeiro, em bairros cercados de favelas, dias infernais de calor, caos provocado por chuvas e ruas tomadas por gangues de meninos e meninas, lixo e traficantes em meio a militares, babás e crianças de classe média. Em suas várias camadas, também aborda o papel da mulher em um mundo machista e sexista. Segunda a autora, foi a partir da escrita deste livro, com todo o debate sobre feminismo que se deu nos últimos anos que ela própria se atentou para questões centrais da luta pela igualdade de gêneros. Em torno de Vanda e sua irmã, negras, também é possível enxergar uma reflexão sobre o racismo no cotidiano desta sociedade “cordial”.

Mas o livro peca pelo exagero. Como se Beatriz Bracher estivesse presa à formula que criou para fazer o paralelo das vidas de seus personagens com o poema de Milton, que me parece ser uma explicação prenhe de moralismo da criação do mundo e do pecado original.

Nos trechos em que acompanhamos as dificuldades do estudante Félix com sua dissertação, há um excesso de erudição. E questões que poderiam ser interessantes, como as duas traduções absolutamente díspares do poema para o português, ficam perdidas em um emaranhado que soa confuso. A todo momento, o desejo era voltar para a vida de Félix, Vanda e Maria Joana. A gravidez que avança e o pai desconhecido. As aventuras sexuais do estudante, com mulheres, e homens, de Copacabana. A jornada tripla de Vanda entre o IML, aulas de ginástica em hotéis de luxo e os cuidados com a casa e a irmã. O autoabandono impingido por Félix, que corta relações não apenas com o pai, que banca seus estudos, mas aos poucos vai se distanciando de qualquer relacionamento com o mundo.

Mas o ponto alto do romance é de uma contundência que raras vezes li em uma obra literária. Félix se vê em meio a cenas de abuso sexual, violência contra crianças, narrados com especial crueza. É uma cena que provoca um incômodo que vai além das poucas páginas do relato da cena. Algo que você carrega por horas, dias, volta à mente e te perturba, pela alta dose de realidade, mostrando que o horror está mais próximo do que parece. E mostra o quão mais interessante e provocativo poderia ter sido o livro se mergulhasse nas histórias de seus personagens em lugar das divagações repetitivas em torno de Milton e seu poema.

Pode parecer contraditório, mas recomendo fortemente Anatomia do paraíso, com os devidos alertas já feito. Se for ler, volte aqui para comentar, contestar, acrescentar sua visão. Esta é uma obra que vai levar tempo para ser digerida em sua totalidade.

 

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