6 coisas pra nunca fazer com um livro

Nem todo leitor é um bibliófilo, e o contrário também acontece. Mas, em geral, quem gosta de ler também gosta de livros enquanto objetos – o que, definitivamente, é o nosso caso aqui no Lombada Quadrada (aliás, o nome do blog tem tudo a ver com isso!).

Já escrevi sobre o tema na resenha do livro Memória Vegetal, de Umberto Eco – outro bibliófilo de carteirinha. Mas, nos últimos dois meses, elevei essa paixão a um novo patamar depois de fazer o curso de Conservação e Pequenos Reparos em Livros e Documentos que a Casa Guilherme de Almeida faz periodicamente aqui em São Paulo.

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Marlene Laky (dir.), restauradora de livros da Casa Guilherme de Almeida

O curso, orientado pela professora Marlene Laky, é  sensacional. Em seis aulas, a gente aprendeu a observar a estrutura dos livros, conhecer melhor tipos de papeis, como limpar cada parte do livro, produtos para usar em cada material e – a parte mais divertida de todas – como fazer reparos em capas rasgadas, páginas furadas, folhas soltas, lombadas caindo. Me senti numa aula de alquimia.

O objetivo do curso é principalmente disseminar informações corretas sobre o acondicionamento, limpeza e manutenção dos livros, já que o desconhecimento é a maior causa de danos sérios. Por mais boa vontade que alguém tenha na hora de “consertar” um volume, materiais e procedimentos usados na base do chute acabam piorando muito a situação dos livros – em casos extremos, podem matá-los de vez.

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Esse livro estava tão castigado por intervenções mal feitas que a solução passava por desmontá-lo inteiro.

Marlene tem uma coleção de intervenções desastradas que ela guarda  em uma caixa, justamente para mostrar o que não fazer com os livros. E como a gente tá aqui também para democratizar o conhecimento, seguem algumas dicas práticas:


O QUE NÃO FAZER COM SEUS LIVROS

1. Evite guardar outros papeis dentro dos livros
Principalmente papéis de baixa qualidade, como jornais. A acidez dele tende a passar para o livro, manchando as páginas entre as quais ele foi colocado – e essa mancha não sai mais nunca.

2. Evite usar clipes de papel
Se guardar alguma coisa dentro do livro é inevitável, jamais o faça com clipes de papel. Eles enferrujam com o tempo, mancham a página e podem até deixá-la vulnerável a ponto de rasgar.

3. Rasgou? Não use durex.
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Como disse a professora, todo mundo tem uma história de durex pra contar. Mas é sério: por mais desesperador que seja ver um livro com a capa ou páginas caindo, a fita adesiva só piora a situação. Com o tempo, ela mancha o papel e perde a aderência – ou seja, o rasgão vai voltar e, de brinde, você ganhará uma mancha horrorosa que nunca vai sair. Se você tiver azar, a fita cai e ainda deixa uma gosma peguenta que também não sai sem tratamento químico. Resumindo, vai dar ruim. O resultado será o mesmo com fita crepe ou qualquer outra similar (evite todas). Saca a situação dessa página, aí ao lado. A durex já foi-se há tempos. Já as manchas, horrorosas, deixaram o papel praticamente transparente.


4. NUNCA, NUNCA, USE PAPEL CONTACT!
Esse é pior do que o durex, porque é impossível de ser removido. Também já encapei livros com contact e o resultado, depois de um tempo, é que a capa fica meio borrada, como se estivesse derretendo embaixo do plástico. Não valeu nem um pouco a pena.

5. Colas brancas não caem bem
Elas só fazem meleca e com o tempo endurecem e acabam esfarelando. Nos restauros e reparos, às vezes as colas brancas são usadas, mas com muito critério. Sem treinamento, é melhor não arriscar.

6. Papel Kraft também não é uma boa ideia…
… porque ele é muito ácido e, com o tempo, vai acabar manchando as páginas ou a capa. No curso, a professora mostrou vários exemplos de livros que foram “reforçados” com cola branca e kraft. Acredite, melhor não.


MAS ENTÃO, O QUE FAZER QUANDO O LIVRO SOFRE UM DANO?

Se você teve a sorte de fazer um curso como eu, é possível fazer pequenos reparos com um pouco de prática e materiais adequados, como papeis japoneses e colas não ácidas, incluindo aquela receita caseira com maizena, que todo mundo já fez um dia na vida para colar pipas ou figurinhas de futebol. Por incrível que pareça, essa é uma cola boa de usar em reparos de papel e livros, inclusive porque ela é reversível.

No mais, reparar um livro danificado não é barato. Uma opção é levar num restaurador, mas se o volume não for realmente muito importante, seja pelo valor histórico, seja pelo sentimental, acaba ficando caro demais.

Outra opção, que é mais em conta mas também não muito barata, é usar fitas adesivas acid free (ou seja, não-ácidas), que não vão manchar o papel nem descolar com o tempo. Uma das marcas disponíveis no mercado é a alemã Neschen, que é vendida em peças de 50 metros em casas especializadas em restauro. Para colar pequenos rasgos em capas e miolos, recomenda-se as linhas Filmoplast P (mais fina) e Filmoplast P 90 (mais grossa). Depois de aplicadas, elas ficam praticamente invisíveis. São carinhas também, mas um rolo dá pra usar bastante tempo. Pra quem não quer comprar uma peça inteira, já vi lojas no E-bay que enviam pedaços a partir de um metro.

Se o livro já está meio sambadinho e você não quer arriscar nenhuma das opções anteriores, mas também não quer que ele piore, você pode guardá-lo embalado em papel acid free amarrado por fora com cordão de algodão. Assim você mantém as partes unidas e firmes sem o risco de passar acidez pro livro.


Livros envelhecem e reagem ao manuseio de formas diferentes. Lide com isso.
Observe a estrutura dos seus livros, especialmente as lombadas. Um livro feito de folhas soltas, apenas coladas, precisa de maiores cuidados, especialmente na hora de abri-lo. Se o livro for composto em cadernos costurados, ele provavelmente será mais resistente – mas também depende da qualidade da costura. A Record faz livros colados; a Companhia das Letras, costurados. Mas tenho livros da Record que nunca deram problema e outros da Companhia, especialmente os mais antigos, em que a costura folgou e a lombada acabou soltando.

Já os feitos de papel jornal, muito comuns em edições de bolso, amarelam muitíssimo rápido e ficam com aspecto de velhos com poucos anos de existência. Além disso, em geral são livros de folhas soltas, colados pela lombada, mesmo quando muito grossos. Ou seja, o risco de que as páginas soltem é bem grande. Se sua intenção é ter um livro que vai durar muito, esses não são uma boa opção. Vale a pena gastar um pouco mais numa boa brochura, pois ela vai durar muito mais tempo.

Resumindo, todos os livros sofrem desgaste, alguns deles absolutamente irreversíveis, como as manchas e amarelados. Os papeis contemporâneos de celulose não têm a mesma qualidade de 500 anos atrás, quando eram feitos com restos de tecidos. O escurecimento acaba sendo consequência da própria forma de fabricação do papel.

Mas o envelhecimento também faz parte da vida dos livros. Não temos outra opção a não ser conviver com eles, e cuidar para que durem ainda mais. 🙂
PS: Se você mora em São Paulo e tem interesse em fazer o curso, fique de olho no site da Casa Guilherme de Almeida. É cobrada uma taxa de R$ 50 para materiais, mas as aulas são gratuitas.

4 comentários sobre “6 coisas pra nunca fazer com um livro

  1. Muito bacana os comentarios Renata…a idéia é essa mesmo…que as pessoas entendam os livros (forma fisica) e aprendam a cuidar deles..o resultado é surpreendente,não é mesmo?

    Curtido por 1 pessoa

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