Todas as bibliotecas de Umberto Eco

Existem os leitores e existem os bibliófilos. Em geral os papéis (sem trocadilho) coincidem, mas conheço inúmeros leitores que não gostam de livros (“ocupam espaço”, “acumulam poeira” etc.) e alguns poucos que se consideram bibliófilos, mas que não são lá muitos bons leitores. Em geral, são os que resumem seu universo de leitura às séries adolescentes com vampiros, lobisomens ou sadomasoquismo de mentirinha. Têm uma estante meio-cheia de bobagens, e se orgulham dela. Mas vá lá – que leiam qualquer coisa e tenham alguma admiração pelo objeto livro, ainda é melhor que nada.

Como eu dizia: existem os leitores, existem  os bibliófilos e existia Umberto Eco. O escritor italiano morto em novembro deste ano tinha mais de 30 mil volumes em sua casa. É famoso o vídeo em que ele percorre metros e metros de estantes abarrotadas até chegar a uma em particular, na qual lança uma mão certeira até o exato livro que procurava (não viu? Tá aqui). Seus dois romances mais famosos, O pêndulo de Foucault e em especial O nome da rosa, têm origem exatamente em sua paixão por livros; no segundo, eles são a chave para resolução da trama quase policial passada na Idade Média.

Por isso, ler A memória vegetal (Editora Record, 2011) é avançar um passo para entender de onde Eco tirava a erudição que alimentava não só os seus trabalhos em filosofia, semiologia e linguística, mas também seus intrincados enredos de ficção. Pois trata-se de uma coletânea de textos sobre bibliofilia hardcore – aquela de quem visita antiquários em todo o mundo à caça exemplares raríssimos (estamos falando de livros com quinhentos aninhos de estrada).

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O título vem do texto inicial, uma conferência proferida em Milão, em 1991, em que ele defende como o livro modificou a relação da raça humana com a memória. Até a invenção da escrita e popularização do livro e da leitura, o conhecimento era passado oralmente entre gerações. O livro quebra essa lógica e põe milhares de anos de informação aos pés de qualquer um que domine o código escrito. Como declarado bibliófilo, o objeto livro é essencial para Umberto Eco, que relaciona o seu formato à fisiologia – segurá-lo, tê-lo à altura do olho.  Mas ele não trata apenas da importância utilitária, como também simbólica do livro.

Temam aquele que destrói, censura, proíbe os livros: ele quer destruir ou censurar nossa memória. (…) Começa-se sempre pelo livro, depois instalam-se as câmaras de gás.

O segundo texto, Reflexões sobre a bibliofilia, funciona de forma complementar ao primeiro e avança nas definições do que é bibliofilia, bibliomania, biblioclastia, dentre outras possíveis formas de relação de uma pessoa com os livros. Aqui, ele explica de uma maneira sensacional o que é uma biblioteca doméstica, “um organismo vivo, com vida autônoma”, onde a memória universal flui até pelo ar e pelo toque dos dedos nas lombadas. Claro, ele se refere de forma sensível ao universo de possibilidades que a leitura profícua proporciona, e que se materializa na forma da biblioteca.

Memória vegetal tem um miolo mais complexo, em que Eco se embrenha nas especificidades do seu colecionismo, discutindo minúcias sobre exemplares específicos e as razões que o levam acreditar que este e não aquele deve ser considerada a primeira edição, ou a edição-tipo. Aqui, ele fala de livros quinhentistas, ricamente ornados com gravuras, muitas vezes obras de arte à parte. Pra quem acha que a Livraria Cultura é o paraíso, é um outro mundo – e um bem interessante.

Permeado pela ironia que está presente em toda a obra de Umberto Eco, o livro termina com textos mais leves. É hilário o trecho de ensaio sobre sua coleção de autores autopublicados, que ele chama de “quarta dimensão”: um desfile de excentricidades, non sense e egolatria, que atravessou os séculos e está imortalizado na biblioteca de Eco, que ousou relacionar assuntos os mais diversos para construir uma história da pretensão.

Memória vegetal termina com ensaios ficcionais escritos com humor escrachado. Em Antes da extinção, marcianos especulam sobre os costumes terráqueos a partir da captura de dados circulando no espaço oriundos de transmissões wi-fi. A humanidade morrera afogada em 2020, após o completo derretimento das calotas polares. Como não tiveram acesso aos livros, todos destruídos na grande inundação, os estudiosos de Marte só têm a internet e dados celulares como fonte, donde concluem que “cu” é o lugar genérico onde se vai tomar alguma coisa.

Nesse tom sarcástico que é também questionador do estado de coisas, Umberto Eco critica também os e-books, o mercado editorial contemporâneo, o tempo e o papel gastos em controvérsias literárias absurdas (como a de que Shakespeare não existiu) e até a falsa erudição de Dan Brown. Mesmo quando escreve com humor, Eco não deixa de ser difícil. Se você vai encarar este livro, saiba que há vários trechos transcritos em inglês, italiano, latim, francês, alemão e até russo – sem tradução.

Em suma, Memória vegetal é uma delícia para os bibliófilos mais modestos, que sonham um dia ter a biblioteca labiríntica que Eco exibia com prazer em sua casa. Quem sabe chegamos lá.  🙂

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