Por que ler Virginia Woolf?

M20160320_100114rs. Dalloway vagava abandonado em minha estante há 12 anos. A edição de bolso da série Penguin Popular Classics deve ter sido comprada baratinho numa promoção de livraria – mas, realmente, não lembro onde. Era nova quando veio pra casa, ainda no Recife. Tentei lê-lo uma vez e abandonei – acho que não tinha inglês suficiente na época. Em 2011, viajou 2.700 quilômetros Brasil abaixo junto com o resto da minha biblioteca; amargou alguns meses fechado em uma caixa no quartinho da bagunça, que eventualmente tomou forma de escritório. É onde estou sentada hoje, com o Mrs. Dalloway em sua capa desbotada pelo sol, as páginas de papel jornal avermelhadas pelo tempo, manchadas e agora marcadas de lápis grafite, devidamente lidas.

O romance mais conhecido da escritora inglesa Virginia Woolf tem um enredo  banal: na Londres entre guerras, a socialite Clarissa Dalloway resolve dar uma festa. Acorda por volta das 9h e decide ir pessoalmente à florista. Em meio aos preparativos, recebe a visita de um amigo recém chegado da Índia, que não via há anos – seu primeiro namorado. Uma certa tensão se desenvolve em torno do reencontro depois de tanto tempo, uma tensão pelo que poderia ter sido e não foi.

Até aí, (quase) nada demais. Mas quando saímos da casa de Clarissa junto com ela, em direção à florista, tem início um passeio espetacular pelas ruas de Londres e pelas cabeças de seus habitantes. Pois o livro se desenvolve ao longo de apenas um dia, no infinito que é o inconsciente de personagens comuns. Dos pensamentos de Clarissa, Woolf nos leva à do casal com quem ela cruza na rua; do casal, à de alguém com quem eles esbarram no parque; no parque à de Peter Walsh, ex-namorado da própria Clarissa, que está lá observando o movimento; e assim até que eventualmente voltamos à própria Mrs. Dalloway em seus preparativos para a festa.

James Joyce revolucionou o romance moderno com a narrativa baseada em fluxos de consciência em Ulysses. Escrito alguns anos depois, Mrs. Dalloway vai na mesma pegada, só que de forma mais concisa e clara. A começar, há uma estrutura na forma com a qual ela nos leva de um personagem a outro, partindo sempre de um encontro, de um esbarrão. É quase como se a narrativa fosse um inseto parasita pulando de hospedeiro em hospedeiro, aproveitando a oportunidade da proximidade física.

Nesse conjunto heterogêneo personagens pelos quais passeamos, há lugar para temas polêmicos tratados com sutileza. O mais pungente deles é o custo individual da guerra, que Virgina Woolf nos apresenta por meio do casal Rezia e Septimus, que conhecemos em frente à florista. Perturbado pelas experiências que viveu, o rapaz se isola em um mutismo no qual nem a esposa consegue penetrar. Ela, por sua vez, preocupa-se com o marido, mas não deixa de se lamentar por estar irremediavelmente presa a alguém com quem não consegue se comunicar (“comunicação é felicidade”, escreve Virginia em certo ponto).

A neurose de Septimus evolui até o ponto em que ele precisa de ajuda psiquiátrica, em uma época não exatamente reconhecida pelo tratamento humanizado de pessoas com a sanidade em risco. Há aí também uma crítica à forma como a depressão é tratada, talvez uma alusão à vivência da própria autora, que viria a se matar aos 59 anos.

Rezia, junto com Clarissa Dalloway, são também veículos para que a escritora coloque em pauta a condição feminina no começo do século XX. Bem nascida, rica e meio fútil, ainda assim Clarissa tem uma postura questionadora quanto à sua liberdade no casamento. “Todo mundo perde algo quando casa”, ela pensa, sendo “todo mundo”, claramente, as mulheres. “Com o dobro de sua inteligência, ela tinha que ver as coisas pelos olhos dele – uma das tragédias da vida de casada”, complementa em certo ponto.

Os personagens masculinos são retratados como ineptos, que não sabem exatamente o que fazer com o monopólio do poder econômico e político que a sociedade lhes concede de berço. Essa tensão faz com que a instituição do casamento retratada em Mrs. Dalloway seja restritiva não apenas ao cotidiano, mas principalmente ao intelecto e ao afeto das mulheres. Assistindo ao marido em seu mutismo, Rezia chega à conclusão de que amar é estar sozinha. Clarissa, por sua vez, lamenta também a impossibilidade de seu amor pela melhor amiga, Sally, a única pessoa por quem verdadeiramente se apaixonara.

O romance é também uma belíssima homenagem à caótica vida na cidade, que possibilita a existência da própria narrativa em fluxos de consciência transmitidos por meio de encontros nas ruas e parques. Essa homenagem vem também em momentos de epifania na observação da natureza no ambiente urbano, algo que acontece com a maior parte dos personagens. Quase como se concluísse: não há maior solidão do que a urbana, nem maior companhia do que a cidade, por mais opressora que ela possa ser às vezes.

Impossível não chover no molhado: Mrs. Dalloway é uma leitura incrível e emocionante; daquelas para revisitar a cada par de anos.

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