Retratos implacáveis

Retratos ImoraisUm livro de contos ou uma galeria de fotografias? Retratos imorais, do cearense Ronaldo Correia de Brito apresenta ao leitor uma coletânea de 21 contos escritos pelo autor em diversos momentos de sua vida. De textos antigos, a mais recentes, foi uma feliz montagem que traz alguns “retratos dispersos”, dois “retratos de mulheres” e mais de uma dezena de “retratos de homens”, compondo três sessões distintas.

Os textos não têm conexão entre si, mas é como se o conjunto da obra nos levasse a uma exposição de retratos, unidos por uma característica comum. Não meras fotografias. Parecem mais tomografias, que buscam em cada personagem um tumor, uma chaga, uma esperança de cura. Em muitos dos contos, aliás, situações médicas estão presentes, como se revelando que Ronaldo Correia de Brito é formado em medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, cidade que escolheu para trabalhar e viver.

Difícil apontar os contos mais impactantes. Para mim, o livro já começou a me tirar o fôlego pelo conto inicial, chamado Duas mulheres em preto e branco, em uma trama rápida e surpreendente, construída em torno de dois casais. Amizade, intimidade, sexo, traição, ciúme, violência. E um desfecho um tanto nonsense.

O velório de um conhecido psicanalista lacaniano, em Toyotas vermelhas e azuis remete às técnicas ancestrais de mumificação no sertão pernambucano. Ou seriam apenas deixas para reflexões sobre escrita e morte?  Porque “escrever é a maneira mais simples de morrer, embora muitos achem que é o único modo de permanecer vivo”, pontifica o autor através de seu personagem.

O perturbador conto Romeiros com sacos plásticos nos mergulha no universo da religiosidade popular e dos dilemas da chegada de elementos pretensamente civilizatórios, como as embalagens plásticas ao sertão. O alheamento de uma mulher que chega à cidade para cumprir uma promessa, arrastando a família e uma filha vestida de noiva. Um conto cheio de referências à literatura clássica russa. E plenamente brasileiro na romaria a Juazeiro do Norte e no retrato da fé e das promessas para os santos.

Poderia listar um a um, todos os contos. Alguns curtos, de narrativa seca e concisa, alternados com textos mais longos e densos. Mas esta resenha ficaria interminável. Como preciso finalizar, para não perder sua leitura, comento aquele que mais me inquietou.

Catana se passa no  bloco cirúrgico de um grande hospital público. Em meio a um plantão agitado e suarento, pacientes chegam baleados ou feridos por acidentes. Os cirurgiões devem escolher quem vai primeiro para a mesa de operações, com mais chance de sobreviver que outros estropiados que esperam nos corredores, um dilema de Sofia a cada dia de trabalho.

O primeiro cirurgião, de nome Olímpio, começa a operar um assaltante baleado. Passa o bisturi a Marcelo, que vem lhe render no horário do plantão. Por trás dos momentos de tensão e expectativa, reminiscências de um crime, um ente querido do segundo cirurgião morto em um assalto por um homem tatuado. E se for este o bandido? E se for esse o assassino? Olhar ou não se ele tem aquela tatuagem? A narrativa faz desvios para as vidas pessoais, compromissos e tormentas familiares da equipe cirúrgica, mantendo um suspense que paralisa a respiração e nos faz correr na leitura para descobrir o desfecho.

Os contos de Ronaldo Correia de Brito conduzem o leitor para emoções intensas. Ele nos coloca em suas mãos com maestria, fazendo com que a leitura seja galopante e você devore o livro em poucas horas ou dias, querendo sempre mais. Retratos imorais tem edição caprichada da Alfaguara. Vale a pena visitar essa galeria de textos.

Veja aqui a resenha que Renata fez de O livro dos homens, outro livro de contos do autor.

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